Paradigmas da Clnica: O Tecido e a Trama[1]

 

                                                                                                                          Ftima Amin[2]

 

Quando me foi proposto esse tema, antes mesmo que tivesse clareza dos argumentos que iria  desenvolver  para elaborar o texto, lembrei-me de um conto de Jorge Lus Borges, As Runas Circulares, que me pareceu um excelente fio condutor para as idias que de incio me ocorreram. O conto trata da obstinao de um homem em dar vida a um personagem dos seus sonhos, e das vicissitudes desse desvario. Eis o conto:

Um homem desembarca de uma canoa num povoado distante.  To srio e to ocupado dos prprios pensamentos, que por mais curiosidade que tivessem, os nativos daquele longnquo lugar no ousavam perturbar-lhe a concentrao. Tinha uma tarefa grandiosa, dar vida a um personagem de seus sonhos, de tal maneira que s ele e o Fogo soubessem  que ele no era humano.  Ele, porque sabia ser essa a sua misso, e o  Fogo porque se o envolvesse em suas chamas, estas jamais o queimariam. Disciplinado, acomodou-se para dormir, no por cansao mas porque sabia  que sua imediata obrigao era o sonho. Queria sonhar um homem, sonh-lo com integridade minuciosa e imp-lo realidade. Esse projeto mgico esgotara o espao inteiro de sua alma... No comeo, os sonhos eram caticos; pouco depois foram de natureza dialtica... O homem, no sonho e na viglia, considerava as respostas de seus fantasmas, no se deixava iludir pelos impostores, adivinhava em certas perplexidades uma inteligncia crescente. Procurava uma alma que merecesse participar do universo... No obstante, depois de nove ou dez noites... a catstrofe sobreveio.  O homem, um dia, emergiu do sonho como de um deserto viscoso, olhou a v luz da tarde que, primeira vista, confundiu com a aurora e compreendeu que no sonhara. Toda essa noite e todo  o dia,  a intolervel lucidez da insnia se abateu contra ele... Na quase perptua viglia, lgrimas de ira queimavam-lhe os velhos olhos. Compreendeu que o empenho de modelar a matria incoerente e vertiginosa de que se compem os sonhos o mais rduo que pode empreender um varo, ainda que penetre em todos os enigmas da ordem superior e da inferior: muito mais rduo que tecer uma corda de areia ou amoedar o vento sem rosto... Compreendeu que um fracasso inicial era inevitvel. Jurou esquecer a enorme alucinao que o desviara no comeo e procurou outro mtodo de trabalho. Antes de exercit-lo, dedicou um ms reposio  das foras que o delrio havia  desperdiado. Abandonou toda premeditao de sonhar e quase imediatamente conseguiu  dormir uma parte razovel do dia. As raras vezes que sonhou, durante esse perodo, no reparou nos sonhos... Depois, tarde, purificou-se nas guas do rio, adorou os deuses planetrios, pronunciou as slabas lcitas de um nome poderoso e dormiu. Quase que de imediato sonhou com um corao que pulsava. Sonhou-o ativo, caloroso, secreto, do tamanho de um punho fechado, na penumbra de um corpo humano, ainda sem rosto e sem sexo; com minucioso amor sonhou-o, durante catorze lcidas noites.[3]

 

A associao que  fiz desse conto com a clnica, foi o fato de que ambos so atravessados pelo sonho de algum. Alm do que, o conhecimento que se engendra, em ambos, no conto e na clnica, se revela a partir das experincias que se vive, na medida em que descrevem uma trama que s vai sendo conhecida na medida em que vai sendo vivida.

Completamente tomado pelo seu sonho, orientado pelo conhecimento que lhe chega, passo a passo, advindo de sua prpria experincia na tentativa de realiz-lo, o homem no conto se entrega a seu projeto, engendrando-o, ao mesmo tempo que engendrado por ele. No tem, de antemo, nenhum mtodo, precisa invent-lo. O caminho precisa ser desvendado, porque no tem como conhec-lo ou sab-lo, a priori.

Deixo, portanto,  destacado esse recorte  inicial do conto, como um suporte para me embrenhar em outras divagaes.

 

Queria sonhar um homem: queria sonh-lo com integridade minuciosa e imp-lo realidade. Esse projeto mgico esgotara o espao inteiro de sua alma...

 

Interessa-me pensar a psicanlise, desde Freud, com suas duas vertentes: sua teoria e sua atividade clnica. Porque antes de Freud no havia nem prtica, nem  uma construo terica que pudesse dar conta de uma sistemtica do acontecimento psquico.

Freud conhecia a cincia do seu tempo e no mediu esforos para que sua teoria tivesse direito a um estatuto de cientificidade. De acordo com seus bigrafos, e principalmente com as correspondncias que trocou ao longo do tempo, com interlocutores importantes, sonhava com descoberta e reconhecimento por parte da comunidade mdica e cientfica, mas  para tanto  precisava compreender e afinar-se com os paradigmas do seu tempo. Entendo por paradigma aquilo que est no princpio da construo das teorias, o ncleo obscuro que orienta os discursos tericos neste ou naquele sentido.[4]

 

Esse projeto mgico parecia esgotar o espao inteiro de sua alma, queria imp-lo realidade... No comeo os sonhos eram caticos; pouco tempo depois foram de natureza dialtica... O homem, no sonho e na viglia, considerava as respostas de seus fantasmas, no se deixava iludir pelos impostores, adivinhava em certas perplexidades uma inteligncia crescente.

 

Penso que, at certo ponto, Freud realizou esse projeto.

Viena, no fim do sculo XIX, incio do sc. XX fervilhava em novas concepes respeito do conhecimento e do mundo. A cincia, distinguindo-se cada vez mais da metafsica, j delimitara h algum tempo as suas prprias fronteiras, estabelecendo demarcas rigorosas em relao ao que considerava da ordem do especulativo. Longe de ser um lago plcido de guas claras, o panorama cientfico constitua-se de pensadores importantes que lanavam luz, sobre o que deveria ser a pesquisa e o discurso cientfico.

Em 1907, surge o Crculo de Viena, fundado por Shillick, do qual mais tarde fizeram parte,  Carnap e Popper. Existe j uma proposio do que vem a ser um discurso cientfico, a partir de discusses sobre o que seria a sua metodologia. E j costumeiro considerar a cincia dividida em duas partes: a teoria e a observao daquilo que se constri teoricamente. 

num contexto de grande efervescncia intelectual que brotam as primeiras publicaes de Freud: A Interpretao dos Sonhos ocupou um lugar especial no crebro e no corao do seu autor. Viu-a como a sua obra cientfica mais significativa, a pedra fundamental de todas as suas realizaes, e simultaneamente como a obra que o levaria clareza dos processos mentais...Na estrutura visvel de tratado cientfico, ele eleva seus leitores ao longo dos captulos sistemticos, aos mbitos mais sofisticados da anlise psicolgica.[5]  

A construo terica que Freud propunha como cientfica, embora em sua sistematizao se apresentasse hipottico-dedutiva, no se enquadrava totalmente nas possibilidades lgico-matemticas, com que se nutria a fsica: a fsica que se constitua como o modelo de cientificidade, com sua busca das verdades inscritas ou escondidas nos fenmenos considerados naturais, e com suas possibilidades tanto de experimentao como tambm de escrita matemtica. O Crculo de Viena formulou para a cincia, entre outros, o princpio da verificabilidade: pode-se saber o significado de uma proposio pelo conjunto de dados empricos imediatos, cuja ocorrncia confere veracidade proposio, e cuja no ocorrncia a falsifica, isto , todo fenmeno descrito teoricamente  s pode ser validado se puder ser observado.

Se fizermos um certo recorte encontraremos na psicanlise freudiana um objeto construdo para dar conta de fenmeno mentais, cuja manifestao pode ser atestada e relatada por quem os vive ou os observa. Fenmenos que no pareciam ter nenhuma ligao entre si, passam a ser agrupados e compreendidos como fazendo parte de um mesmo sistema, submetidos a mecanismos comuns, e regidos pelas mesmas leis. Esta uma construo terica hipottico-dedutiva. Os sonhos, o chiste, o sintoma, as parapraxias, as lembranas encobridoras, fazem parte de uma mesma classe de fenmenos, as formaes de compromisso, cuja dinmica se esboa a partir do conceito _Recalque. Constitui-se dessa forma, o Inconsciente: um objeto para uma cincia do psiquismo que ganha a partir de ento, estatuto de aparelho mental. O recalcado, num universo de representaes, tal qual a lei de gravidade, atrai para si, por associao significativa, qualquer contedo ideativo que se refira  ao que foi  primariamente impedido de estar, ou permanecer na conscincia. O determinismo e o princpio de causalidade, paradigmas da cincia moderna encontram-se a bem representados: leis que determinam, dentro de cadeias de causas e efeitos, fenmenos que podemos observar.

A quantificao, to cara a esta viso da cincia, tambm est expressa nessa formulao. Uma vez que os fenmenos em questo tm em seu bojo afetos que se expressam em diferentes intensidades, e por isso encontram no psiquismo diferentes destinos, eles so implicados sempre, com o quantum afetivo que lhes diz respeito. A economia desses processos, portanto, no se perde no aparelho mental, antes, promove alteraes qualitativas, significativamente diferentes, na expresso desses  fenmenos.

Esse um recorte de uma leitura possvel, satisfatria em  seu esboo de cientificidade, iluminada pelo empirismo de uma poca bastante efervescente, nos meios intelectuais de Viena.

 

_Compreendeu que o empenho de modular a matria incoerente e vertiginosa  de que se compem os sonhos o mais rduo que pode empreender um varo, ainda que penetre em todos os enigmas da ordem superior e inferior... Procurava uma alma que merecesse participar do universo... Compreendeu que um fracasso inicial era inevitvel. Jurou esquecer a enorme alucinao que o desviara no comeo, e buscou outro mtodo de trabalho... Quase que de imediato sonhou com um corao que pulsava.

 

Um ponto importante da trajetria da psicanlise[6] rumo cincia, que diferentemente da fsica newtoniana, a psicanlise  de  Freud, (este antecedido por Charcot, e Breuer mais diretamente), mergulha numa matria de consistncia duvidosa, impregnada de pr-concepes. Tida como simulao, arremedo de hipocrisia, coisa de mulher, a histeria, que graas Charcot havia recm conquistado o estatuto de entidade nosogrfica referida ao sistema nervoso, toma ares de fonte de pesquisa, e como tal revela um inesgotvel manancial de questes sem respostas. Questes, que moda de um mosaico, ao mesmo tempo em que eram problematizadas, comeavam a desenhar um esboo de teoria. Nesse mosaico, que teve seus traos principais riscados ao longo da dcada de 90, fins do Sc. XIX, surgiram os primeiros elementos da teoria e da tcnica.

 Menos feliz que Newton, afinal nunca tivemos notcia de que uma ma em queda livre ou um corpo em movimento tivesse se apaixonado por ele, (apesar da ma ter ganho em nossa cultura notoriedade, como um dos cones da seduo), Freud teve, em seu percurso, que lidar com situaes absolutamente inusitadas. Por exemplo: um dia uma paciente abraou-o repentinamente, um contratempo no previsto _ e que, felizmente, foi remediado pela entrada de uma empregada da casa.[7]

Outra passagem interessante que aconteceu nesses primeiros tempos de experimentao, foi a insistncia de Freud com Breuer para que ele publicasse suas observaes e principalmente a descoberta que  sua paciente Anna  O. havia feito com relao, ao que Breuer veio a chamar, de catarse.  Anna  O., que espontaneamente  havia descoberto o mtodo catrtico  havia batizado-o por cura pela conversao ou limpeza de chamin. Nesse esforo, Freud deparou-se com grande resistncia do amigo. Pouco a pouco foi se tornando claro para ele, que a relutncia de Breuer devia-se perturbadora experincia havida com Anna O. Dessa forma, Freud relatou-lhe sobre sua prpria experincia com uma paciente, que atirou-se de braos abertos em volta de seu pescoo num transporte afetivo, e deu-lhe explicaes quanto s razes que tinha para tomar  tais ocorrncias embaraosas, como parte do fenmeno de transferncia, caracterstico de certos tipos de histeria... A observao de Freud produziu nele, uma impresso profunda, pois quando se encontravam na tarefa da preparao dos Estudos, Breuer observou quanto ao fenmeno da transferncia: Creio que esta a coisa mais importante que ns dois vamos levar ao conhecimento do mundo[8]

A teoria que Freud foi construindo, com seu amplo conhecimento altamente implicado com as questes da sua poca, e a capacidade de  problematizar a sua prpria experincia, foi compondo um objeto que mais compatvel com o pensamento complexo, do que com as premissas  metodolgicas da cincia do seu tempo.

 

Quase que de imediato sonhou com um corao que pulsava. Sonhou-o ativo, caloroso, secreto, do tamanho de um punho fechado, na penumbra de um corpo humano, ainda sem rosto e sem sexo; com minucioso amor sonhou-o, durante catorze lcidas noites. Cada noite percebia-o com maior evidncia....Percebia-o, vivia-o de muitas distncias e muitos ngulos. Antes de um ano chegou ao esqueleto, s plpebras... Sonhou um homem inteiro... Noite aps noite, o homem sonhava-o adormecido.[9] 

 

A emergncia de sentimentos e reaes,  que supostamente  interferiam no bom andamento do processo em curso, pareciam querer definir destinos muito particulares a aqueles encontros que comeavam a acontecer, com regularidade entre o mdico e suas pacientes. A observao, levada a cabo por Freud, ia rapidamente cedendo lugar a uma escuta prenhe de significaes. O alvio de dores, o apaixonamento, o jorro de idias difusas, a princpio, fatos to desconexos quanto acidentais, aos poucos, foram sendo batizados como mtodo catrtico, transferncia  e associao livre. Iam ganhando sentido, ao mesmo tempo que faziam surgir uma trama urdida pelo entrelaamento de muitos fios dispersos. Entrava em cena a cura pela conversao,  como nomeou Anna O., os encontros que se sucediam com hora marcada,  com o objetivo de fazer uma limpeza na chamin para aliviar dores  que se expressavam atravs do sintoma. Sintoma, trauma e dor mental comeavam a se entrelaar, dando sentido a um certo estado, que aos poucos foi se tornando passvel de compreenso atravs da palavra, do relato daquilo que se vive, e se viveu. A via de acesso ao sintoma comea, enfim, a se constituir pela palavra. E junto com ela vem a possibilidade de atribuio de sentido quilo que se vive.

Considerando que a possibilidade de atribuio de sentido, passa a fazer parte da compreenso do ato psquico num processo incessante de significao e re-significao, podemos, a partir dessa compreenso, comearmos por conceber  o fenmeno mental como um fenmeno complexo.

Quero abrir um parntesis aqui para esclarecer o que vou, a partir desse ponto, chamar de complexo. De acordo com o pensamento complexo, de Edgar Morin: Complexus = aquilo que tecido junto. O universo de fenmenos inseparavelmente tecido de ordem, de desordem, de organizao e caos.[10]

Assim, nessa psicanlise em construo, ao invs de serem desprezados,  os acidentes de percurso so includos e passam a fazer parte da trama. Construo bem diferente da preconizada pela cincia moderna, to bem defendida nos Crculos de Viena.

E na constituio dessa inusitada trama, acontecimentos fortuitos desarticulados e desprovidos de sentido, foram sendo recolhidos como num feixe, agrupados e entrelaados, revelando um inesperado nexo. Fios dispersos, que entrelaados foram compondo uma inusitada trama terica. Surgem sistemas, leis que dinamicamente entrelaadas do conta de explicar toda uma classe de fenmenos, que pela impossibilidade de serem compreendidos sequer eram problematizados. Fenmenos, simplesmente desprezados, desqualificados, que  passam, a partir da, a serem compreendidos como expresso de uma relao entre instncias, ainda que nada evidente, que orienta e d sentido um a um, a esses acontecimentos. E mais, abrem-nos para uma prtica clnica  constituda num universo to complexo de sistematizaes que hoje, ainda, vemos sentido em colocarmos em discusso os paradigmas que norteiam essa clnica que se estende atualidade. No sonho do homem que sonhava, o sonhado despertou.[11]

 

Gradualmente, foi acostumando-o realidade. Certa vez, ordenou-lhe que embandeirasse um cume longnquo. No outro dia, flamejava a bandeira no cume. Ensaiou outras experincias anlogas, cada vez mais audazes. Compreendeu com certa amargura que seu filho estava pronto para nascer – e talvez impaciente. Nessa noite beijou-o pela primeira vez  e enviou-o ao outro templo... rio abaixo... Antes (para que nunca soubesse que era um fantasma, para que se acreditasse um homem como os outros) infundiu-lhe o esquecimento total de seus anos de aprendizagem.[12]

 

A psicanlise se constitui, desde Freud, como um espao que abriga acontecimentos que pareciam no ter nada a ver uns com os outros. As formulaes tericas, emergentes dessa experincia recriam e expandem a teoria, que em espiral d sentido a essa mesma experincia e a qualifica, recursivamente. Chega aos nossos dias, possivelmente, menos pelo resultado da discusso em torno de sua cientificidade, do que pela possibilidade de no abrir mo de enriquecer-se com novas possibilidades de leitura,  tanto da sua teoria quanto da experincia  que valida. Recursivamente. O legado que fica  para ns que somos cem anos mais novos exatamente aquilo que em Freud, foi extemporneo e no aqueles aspectos de suas formulaes tericas imersos na cultura de seu tempo.[13] Freud, pela sua genialidade e pelas caractersticas to complexas do objeto que construiu, parece t-lo pensado mais compatvel com os novos paradigmas, do que com os paradigmas da modernidade. E esta a questo que, de fato, quero discutir nesse trabalho.

 

O Tecido e a Trama

 

Nas cosmogonias gnsticas, os demiurgos amassam um vermelho Ado que no consegue por-se de p; to inbil e rude e elementar como esse Ado de p era o Ado de sonho que as noites do mago tinham fabricado. Uma tarde o homem quase destruiu a sua obra, mas se arrependeu. Esgotados os votos aos numes da terra e do rio, arrojou-se aos ps da efgie que talvez fosse um tigre e talvez um potro, e implorou o seu desconhecido socorro... Esse mltiplo deus revelou-lhe que seu nome terrenal era Fogo, que nesse templo circular (e em outros iguais) rendiam-lhe sacrifcios e culto e que magicamente animaria o fantasma sonhado, de certo que todas as criaturas, exceto o prprio Fogo e o sonhador, julgassem-no um homem de carne e osso... No sonho do homem que sonhava, o sonhado despertou.

 

Num tecido, os fios que correm na longitudinal fazem parte do urdume, e aqueles, que na transversal atravessam esse urdume, constituem a trama. O urdume sem a trama no nada, pode ser no mximo uma franja, fios colocados lado a lado.  S com a introduo da trama, que entrelaa o urdume, temos o tecido com seus desenhos.  por isso que na descrio de um tecido, destaca-se a sua trama, porque ela quem vai responder por sua singularidade.

A clnica, uma atividade que referida a um certo saber  institui uma praxis. E, sem dvida,  h mais mistrios entre os saberes e suas  prticas do que pode supor a nossa v filosofia.

Sobrepem-se, observao e descoberta de um  ou mais dados da observao emprica,  a condio, a partir da qual um campo inteiro de conhecimentos e teorias se organiza. [14] E essa condio que eu vou considerar como um solo epistmico, isto , as condies de possibilidades que so facilitadoras de que  certos conhecimentos, e no outros, emerjam numa determinada poca. Usando a idia de solo, desta forma, como metfora, considerarei fundamentalmente, que um solo no contnuo, liso, nem constitudo de um nico elemento. Ao contrrio, descontnuo, constitudo por uma multiplicidade deles, to variveis quanto nossa capacidade de nome-los e conhec-los, cuja observao  revela  certos aspectos  ocultando  outros, e que ainda, dependendo do ngulo que o nosso olhar descreva, a geografia definida pode ser bem diferente da observada de um outro lugar. Se estamos falando de um solo, podemos, ainda, pensar que ele tambm atravessado por um tempo que o presentifica, que naquele momento dado e no em outro, revela aquela gestalt, e no outra.

Acredito ser  na penumbra  desse solo, um solo  complexo, que pulsa o conhecimento, sem rosto e sem sexo, ganhando vida a partir da significao dos fenmenos culturais, e no o contrrio.[15]  E  desse solo de possibilidades que penso, brotou e brota ainda hoje a psicanlise. Vou utilizar, neste ponto, o princpio de recursividade do pensamento complexo para pensar a cultura, suas produes e o sujeito. Nascemos, crescemos e produzimos no seio de uma cultura. Recorro novamente a Edgar Morin: De certo modo, a totalidade da nossa informao gentica est em cada uma de nossas clulas, e a sociedade, enquanto todo, est presente na nossa mente via a cultura que nos formou e informou. Ainda de outro modo, podemos dizer que o mundo est na nossa mente, a qual est no nosso mundo. Ns produzimos a sociedade que nos produz.[16]

Urdume e trama entrelaados criam, uma infinita variedade de composies, que as mltiplas possibilidades que se desenrolam na histria das civilizaes, atravs do tempo, do vida, fazendo surgir  o tecido, no qual,  cada  cultura vai inscrever a sua singularidade com as suas produes. A clnica com sua praxis produto, ao mesmo tempo que participa tambm, como produtora da viso dos fatos que sero relevantes para ela, numa determinada poca. A cultura o solo epistmico que lhe d sentido. Esta a sua atualidade. Se pensarmos em termos paradigmticos, a clnica um espao aberto, que ganha sentido enquanto prtica, na medida em que passvel de ser  constituda ou reconstituda significativamente, concernente com a linguagem ou os conhecimentos de um certo tempo. A clnica , portanto, um espao sempre aberto em construo, que navega vacilante em guas nada claras, no socio-poltico-cultural, mergulhada em muitas incertezas. O termo clinicar tem sua raiz, no grego klino que quer dizer _ inclinar-se sobre. Alguns aproximam o termo clnica de clinmen que tem sua raiz no latim e diz respeito _ inclinao, desvio. E na clnica, nos inclinamos para pensar quem o sujeito do nosso tempo. Que desvios constituem a trama de onde emerge a sua singularidade?

 

O mago lembrou-se bruscamente das palavras do deus. Recordou que de todas as criaturas que compem o orbe, o fogo era a nica que sabia ser seu filho um fantasma. Essa lembrana, apaziguadora princpio, acabou por atorment-lo. Temeu que seu filho meditasse nesse privilgio anormal e descobrisse de algum modo sua condio de mero simulacro. No ser um homem, ser a projeo do sonho de outro homem, que humilhao incomparvel, que vertigem! A todo pai interessam os filhos que procriou; natural que o mago temesse pelo futuro daquele filho...

 

Penso que comecei este trabalho apresentando a psicanlise freudiana  pela mais linear  leitura que se pode fazer dela, que o quanto vivel justap-la uma concepo positivista da cincia.  Alguns tm considerado ser esta a nica leitura possvel. Outros, uma das leituras possveis. Prefiro estar entre os segundos.

Se considerarmos que Freud pretendeu construir sua descoberta nos moldes dessa concepo, podemos considerar tambm que esse vultoso projeto, fracassou. E penso que exatamente onde a leitura positivista  deixa de dar conta da singularidade da experincia psicanaltica, que a psicanlise  encontra flego para chegar aos dias atuais.

No pretendo aqui, explorar em profundidade e extenso a possibilidade de fazermos uma leitura do objeto da psicanlise freudiana e da prpria atividade clnica, luz dos novos paradigmas, isto dos paradigmas da complexidade. Entretanto, gostaria de fazer um recorte diferente do inicial, s para levantar alguns pontos de  afastamento. Pretendo olh-los, a partir de um outro lugar.

Para comear, o tempo para o aparelho mental  descontnuo. Uma proposta determinista deve pr-supor um tempo linear, contnuo, onde os fenmenos se sucedem  justificando uma leitura de causa e efeito. No que causa e efeito, seja uma cadeia precria de se pensar. Por exemplo, se eu preciso acelerar o meu carro, importante que ele rapidamente responda ao meu comando. Agora, se pensarmos em termos de mental, rapidamente essa linearidade cai por terra, porque estamos compondo um campo fenomnico comprometido com mltiplos sentidos. O reprimido, representaes ideativas submetidas ao  processo de recalque, nos chistes, nos sonhos, nos sintomas, nas lembranas encobridoras e nos atos falhos comunica aquilo que o sujeito no sabe de si, mas que em si, d sentido a tudo que lhe diz respeito. O tempo do reprimido Aion, a atemporalidade, o tempo da simultaneidade, e o tempo da conscincia o Cronos, que organiza nossa histria numa sucesso de fatos, que possibilita a ordenao do antes e do depois. Por isso podemos dizer que no h linearidade, mas encontro de diferentes tempos cujos significados se atualizam incessantemente[17] No podemos nos esquecer que a atividade clnica psicanaltica, tambm ancorada em dois tempos, (no mnimo), o tempo em que os encontros so marcados (Cronos), e aquele em que de fato eles se do (a atemporalidade do desejo_ a transferncia).

Outra questo importante que Freud traz luz em sua construo terica so  as dicotomias que o pensamento sempre colocou em oposio na compreenso dos fenmenos. Por exemplo, natureza e cultura, filognese e ontognese, necessidade e pulso, etc, encontram destinos diferentes na psicanlise uma vez que ambos os lados dessas oposies contribuem igualmente, na compreenso dos fatos. Ao invs de se exclurem, eles se incluem, e no raro se definem, enquanto conceituao, dinamicamente, compondo um movimento, estando todo tempo, um referido ao outro. 

O Complexo de dipo, que abre a teoria para o mito, tambm contribui amplamente para essa construo. Ao mesmo tempo em que atrela o indivduo interdio inscrita na cultura, faz surgir desse ponto a sua singularidade. O processo de insero do sujeito na cultura, via o Complexo de dipo responde pela constituio do prprio sujeito, singularizando-o.  

Como estou tentando mostrar, via outro ngulo de viso no impossvel comprometer a psicanlise  com o paradigma do pensamento complexo: a complexidade no s um fenmeno emprico (acaso, eventualidades, desordens, complicaes, mistura dos fenmenos); a complexidade tambm, um problema conceitual e lgico que confunde as demarcaes e as fronteiras bem ntidas dos conceitos como produtor e produto, causa e efeito, um e mltiplo. E mais: ela no quer dar todas as informaes sobre um fenmeno estudado, mas respeitar as suas diversas dimenses... no devemos esquecer que o homem um ser biolgico-sciocultural, e que os fenmenos sociais so ao mesmo tempo, econmicos, culturais, psicolgicos, etc... Dito isto, ao aspirar a multidimensionalidade, o pensamento complexo comporta em seu interior um princpio de incompletude e de incerteza. [18]

Mesmo numa leitura superficial como a que eu estou fazendo, eu tentei dar mostras de que podemos ler diferentemente, uma certa conceituao, compondo novos arranjos a partir daqueles que nos so dados. Freud pretendeu, (ser que pretendeu mesmo?) criar uma cincia empirista, e nos legou muito alm disso, um campo de conhecimento cuja trama se organiza de forma criativa, pela quantidade de fios dispersos que une, entrelaando-os, pela atribuio de sentido. Freud  foi sujeito do pensamento complexo. Desconstruiu certezas, e no se furtou ao prazer de agregar sua experincia terico-clnica os reveses que encontrava no caminho. Caminhou descalo um caminho de incertezas, pois no tinha um mtodo a priori.

E qual a importncia  dessa discusso para a clnica hoje?

na viso extempornea de Freud que a psicanlise, dada a sua construo em gerndio, pode ainda hoje fertilizar-se num solo de conhecimentos atuais, ao mesmo tempo que lana a luz para a compreenso de aspectos importantes da experincia humana. Freud deu vida a um discurso, observando, pensando e construindo o homem na cultura, no seu tempo: sua sexualidade, sua religiosidade, suas guerras, suas produes artsticas e sua relao com o poder e a morte. na forma como a psicanlise foi sendo construda,  que vamos aprender com Freud ainda hoje a construirmos argumentos para  compreender e criticar os fenmenos que nos afetam e compem o nosso tempo. Aprendemos uma postura crtica, reflexiva e ousada nas suas construes tericas. Aprendemos,  fundamentalmente, uma postura cientfica, naquilo que a cincia labora de desconstruo  do senso comum, para a partir da  fazer emergir a produo do conhecimento. E penso que no podemos abrir mo desse lugar.

Citando Morin: A psicanlise uma coisa que acho absolutamente genial, por qu? Porque Freud compreendeu que o n grdio estava no cruzamento do que podemos chamar as cincias da mente, os conhecimentos psicolgicos, as fantasias, os sonhos, as idias de um lado, e de organismo biolgico, do outro. Por sua idia de pulso ele compreendia que era preciso conceber o ser humano na sua totalidade multidimensional, em vez de recortar um pequeno pedao que vai cair na aptido para letras, que   a parte mente, e a parte do corpo que deriva da biologia. Ele um pensador  extremamente poderoso, cujas intuies devem ser examinadas sem cessar.[19]

O psicanalista um sujeito desde os primrdios, acostumado com estudos de casos clnicos. Alguns conceitos importantes foram e ainda  so construdos, a partir deles. O relato desses casos e suas concluses tericas so urdidos pela experincia clnica e tramados por um saber que o atravessa, tentando encontrar a sua sustentao num universo que  tambm ficcional. A clinica psicanalitica atravessada  pela experincia, isso que dizer que est aberta ao inesperado, ao criativo, porm, ela   ancorada  no conceito de transferncia, que aquilo que  a singulariza. Transferncia, apesar de ser mtodo tambm o lugar da surpresa, da singularidade. A transferncia abre a experincia para o que se repete, ao mesmo tempo que para o inesperado e cria a tecitura para a emergncia do novo, o criativo, para a trama que constitui  a histria de uma dupla, inaugurando no bojo do encontro uma esttica, que desloca para a relao um outro sentido, o sentido do que vivido pelo par analista e analisando. A clnica psicanaltica cria assim, um paradoxo: ela no est comprometida com o sintoma, e sim com o conhecimento que tecido na experincia desse par. Sujeito e objeto no podem mais, sob esse aspecto, se definir como posies rgidas pr-estabelecidas revelia da experincia, que uma dimenso do vivido que em psicanlise se afasta absolutamente do termo experimentao.

Muitos analistas depois de Freud desenvolveram, amplamente,  esses aspectos relacionais, que modifica e amplia em muito o universo conhecido, ou quem sabe o universo do no conhecido. Nesse aspecto, a psicanlise um saber vivo, que brota na penumbra de um solo epistmico, e por isso compe um panorama mais de incertezas, do que de certezas, podendo nesse sentido ir se enriquecendo e enriquecendo outros campos do saber, com novas formulaes.  Lanarmos luz sobre esse solo onde se constitui  a nossa prtica clnica e onde  reinventamos, atualizando dia-a-dia  esse saber, tarefa grata, criativa, e necessria.  Muitas vezes penso, que  mais importante do que nossas escolhas terico-tcnicas, pois no raro achamos que a nossa a melhor, no perdermos de vista, ou no abrirmos mo do lugar que nos cabe,  posto que lidamos com o fato humano que eternamente inconcluso,  no abrirmos mo do lugar da reflexo. Porque a psicanlise um saber que se constitui, constituindo, recursivamente. Penso ser este o seu principal paradigma, extensivo claro, a sua extensa atividade clnica.

 

 

҃ natural que o mago temesse pelo futuro daquele filho, pensando entranha por entranha e trao por trao, em mil e uma noites secretas...O final de suas cavilaes foi brusco, mas o anunciaram alguns sinais. Primeiro...o cu que tinha a cor rosada da gengiva dos leopardos; depois a fumaceira que enferrujou o metal das noites; depois a fuga pnica das bestas. Porque se repetiu o acontecimento faz muitos sculos. As runas do santurio do deus fogo foram destrudas pelo fogo... Por um instante, pensou refugiar-se nas guas, mas depois compreendeu que a morte vinha coroar sua velhice e absolv-lo de seus trabalhos. Caminhou contra as lnguas de fogo. Estas no morderam a sua carne, estas o acariciaram e o inundaram sem calor e sem combusto. Com alvio, com humilhao, com terror, compreendeu que ele tambm era uma aparncia, que outro o estava sonhando.[20]

 

 

H uma frase maravilhosa de Popper, que talvez vocs j conheam mas, mesmo assim, vou l-la:                                                                                                                                                   

A histria das cincias, como a de todas as idias humanas, uma histria de sonhos irresponsveis, de teimosias e de erros. Porm, a cincia uma das raras atividades humanas, talvez a nica, na qual os erros so sistematicamente assinalados e, com o tempo, constantemente corrigidos.[21]

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


Bibliografia:

 

Bachelard, Gaston. Conhecimento Comum e Conhecimento Cientfico. Epistemologia, n28 Tempo Brasileiro. RJ, 1972

 

Borges, Jorge Luis. As Runas Circulares. Obras Completas, Vol. I. Ed. Globo. S.P., 1998

 

Carnap, Schick, Popper. Os Pensadores. Ed. Abril Cultural. RJ,1975

 

Foucault, Michel. As Palavras e as Coisas. Livraria Martins Fontes Editora. SP, 1966

 

Jones, Ernest. Vida e Obra de Sigmund Freud. Zahar Editores. RJ, 1979

 

Machado, Roberto Cabral de M. A Arqueologia do Saber e a Constituio das Cincias         Humanas. Separata da Revista Discurso, N 5. S.P., 1974

 

Morin, Edgar. Cincia com Conscincia. Bertrand Brasil. RJ, 2000

 

Morin, Edgar. O Mtodo 1. A Natureza da Natureza. Ed. Sulina. Porto Alegre, 2002

 

Mendona, Tereza.  O Mal-Estar da Civilizao e Engenharia Gentica. 1998

 

Schorske, Carl E. Viena Fin-de-Sicle. Ed. Companhia das Letras, SP, 1988

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 



[1] Trabalho apresentado no I Encontro do Ncleo de Clnica do Instituto de Estudos da Complexidade: Rumo a um Novo Paradigma. PUC. RJ. Abril de 2004

[2] Membro Associado da Sociedade Brasileira de Psicanlise do Rio de Janeiro, e  Membro Fundador do Instituto de Estudos da Complexidade

[3] Borges, Jorge Luis- As Runas Circulares - Obras Completas, Editora Globo (pg. 499)

[4] Morin, Edgar- Cincia com Conscincia, Ed. Bertrand Brasil, 2000, pg.45

[5] Schorske, Carl E. – Viena Fin-de-Sicle, Ed. Companhia das Letras, pg.181

[6] Esse termo psicanlise foi utilizado por Freud pela primeira vez, em um artigo publicado em francs em 30 de maro de 1896 e surge em alemo pela primeira vez em 15 de maio de 1896.

[7] Jones, Ernest – Vida e Obra de Sigmund Freud, Zahar Editores (pg.251)

[8] idem_(pag. 259)

[9] Borges, Jorge luis – As Runas Circulares, Ed. Globo, Vol. I,  pg. 501

[10] Morin, Edgar- Cincia com Conscincia, Ed. Bertrand Brasil (pg.215)

[11] Borges, Jorge Lus- As Runas Circulares, Obras Completas,  Ed. Globo Vol. I, pg.502

[12] Idem, pg.502

[13] Mendona, Terzinha – Des-ordens da Cultura: Complexidade e Sustentao tica do Homo-Creator, Tese de Doutorado, Cincias Sociais, PUC, SP. 2000

[14] Foucault,  Michel -  As palavras e as coisas, Martins Fontes Editora, (pg. VII)

[15] idem

[16] Morin, Edgar –  Cincia com Conscincia, Ed. Bertrand Brasil, (pg.190)

[17] Mendona, Terzinha – Des-ordens da Cultura: Complexidade e Sustentao tica do Homo-Creator, Tese de Doutorado, Cincias Sociais, PUC, SP. 2000

[18] Morin, Edgar -  Cincia com Conscincia, Ed. Bertrand Brasil (pgs.177/188)

[19] Morin, Edgar -  Cincia com Conscincia, Ed. Bertrand Brasil (pg.74)

[20] Borges,  Jorge Luis -  As Runas Circulares Obras Completas, Vol. I, pg.504

[21] Morin, Edgar -  Cincia com Conscincia, Ed. Bertrand Brasil (pg.59)