Correspondncia
interrompida:
O ipod e o Sonho, na verdade um apelo ao Outro.
Caras amigas:
Se me acharem meio estranha nos prximos emails, no reparem, ganhei um iPod de Natal, mas s chegou agora! Pacincia, vai passar, mas por enquanto estou plugada e fao tudo ouvindo msica, inclusive escrever emails. Nesse caso, por favor me entendam, o tom do que escrevo no depende mais s de mim, mas daquilo que est tocando no fabuloso aparelhinho... posso passar da maior alegria mais profunda tristeza, do brega ao classudo, beirando a leviandade.
Reparei que a msica que vem do aparelhinho, produz uma distncia entre o mundo interno e o externo, entre a realidade e a fantasia. Incentivo momentneo a uma certa dissociao - histrica, eu sei, ou qumica, o que talvez d no mesmo.
O iPod bem pode ser visto como o dopping do momento. Pesquisas recentes revelam – e vocs bem sabem o poder das pesquisas recentes – que atletas movidos a ritmos quentes podem apresentar desempenhos surpreendentes e que o resultado de tais proezas deve-se ao plus acrescentado pelas ondas musicais. Especula-se que implantes subcutneos de micro-iPods conectados aos tmpanos por microfibras invisveis podero, em breve, resistir aos exames anti-dopping utilizados atualmente nas atividades esportivas com finalidades competitivas. Isso se aplicaria de forma exemplar aos esportes solitrios, que dispensassem, evidentemente, a comunicao com o Outro. A msica alta, alertam, envolvente como o amor e pode mudar nossa relao com o tempo, alterar o ritmo respiratrio e criar movimentos autnomos, tornando-os indiferentes ao juzo do corpo sobre seu cansao.
Influenciada que sou, como todo mundo alis, pelas ditas pesquisas mais recentes, decidi-me a ser sujeito desse experimento e fui correr na praia, armada de meu iPod. Vocs podem me imaginar correndo na praia? Pois eu fui. E era um daqueles dias em que voc acorda cansada, muito cansada, como se tivesse trabalhado a noite inteira, o intil trabalho dos sonhos que sobrevem durante a noite e, sem foras ainda para se expressarem luz do dia, voltam a se esconder sob as nvens, mal aparecem os primeiros raios da manh.
De fato pude comprovar - verdade e dou f, como diria qualquer tabelio de cartrio civil - que eu parecia no sentir o peso da gravidade e que o atrito sob meus ps parecia igualmente ter desaparecido, como se eu deslizasse sobre rodas, puxada por um carro alegrico na euforia de um carnaval inexistente.
Como toda atividade auto-ertica, o Ipod produz uma bolha ao nosso redor. A realidade fica parecendo filme mudo: sobreposio de imagens sobre um fundo musical ou, ao contrrio, trilha sonora sobre um fundo imagtico. Como no ouvimos nada do que o Outro diz, eles acabam nos dizendo aquilo que queremos inventar.
Mas no mais ou menos sempre assim que se passa? Entre ouvir e inventar, na vida ou na clnica, talvez no seja mesmo possvel dissociar o que ouvimos e o que inventamos. Inventamos ao sabor da msica que vem do iPod, ou da teoria que ouvimos dentro de ns, diante do paciente.
Curioso tambm o fato de que ningum saiba o que estamos ouvindo, alis, em volume altssimo. incrvel o que a msica pode produzir, especialmente quando vivemos a iluso de ter uma sinfnica dentro de ns. Imaginem Beethoven, que no precisava de iPod para ouvir uma sinfonia inteira dentro de si? E como era surdo, como saber se vinha de fora ou de dentro? Se ele criava ou se era a vida que havia decidido comear a gritar para ele suas melodias, cantarolando dentro dele e com ele, todas aquelas notas e acordes em ritmos e sequncias to bem arranjadas?
Mas como vocs sabem, tudo tem um lado bom e outro ruim. No sendo o iPod uma exceo, no escapa essa regra geral e, para alm do meu encantamento inicial, ei-lo colocado, com as demais invenes do mundo digital, como um possvel incentivo ao nosso conhecido desejo de alienao.
Foi assim que, outro dia, tendo precisado ir ao centro da cidade, percebi que tinha ficado mais difcil pedir uma informao, j que muitos transeuntes estavam viajando em trilhas sonoras completamente independentes, antenados em ritmos individuais que os colocavam completamente alheios uns aos outros, ao burburinho dos carros ao redor e, principalmente, ao apelo aflito de minha indagao.
_ Por favor, pode me dizer onde fica a Rua da Quitanda? arrisquei-me a perguntar.
Nenhuma resposta. Nenhum sinal de sobrancelha ou movimento de cabea me sinaliza que eu tenha sido ouvida.
Estranhamento inicial, pequeno momento de unheimlisch, ou seria um princpio de pnico? Acentuaram-se as batidas do meu corao, nico ritmo que acompanhava, sem trilha meldica, o desfile solitrio de meus pensamentos.
_ Estou sonhando? Morri? Falei com um surdo? Eu ou ela, qualquer de ns duas poderia ser um fantasma vagando pelo centro da cidade, em plena luz do dia?
incrvel como um momento de perturbao, dentro de uma pequena frao de segundo, pode comportar tantos pensamentosinfinitos pensamentos. Vocs sabem, j discutimos isso: no acredito em sndrome do pnico e nem mesmo em novas patologias. Tentei novamente me acalmar e obtive sucesso na operao solitria. Respirei um tanto aliviada e conclu: deve ser histeria mesmo.
Antes que a angstia me tomasse por completo e eu me descobrisse no meio de um pesadelo, daqueles nos quais a gente grita e a voz no sai, a retificao perceptiva me fez enxergar dois fiozinhos brancos pendendo dos ouvidos e descendo em direo bolsa daquela a quem eu havia endereado a pergunta. Ento era isso, eu estava acordada e a moa, quase dormindo, mascava um chiclete e estava plugada num iPod que jazia escondido e invisvel aos meus olhos ainda perplexos com tamanha indiferena.
Resignei-me. No era necessariamente m vontade da moa. Quem sabe aquela no poderia ser mais uma difcil manh na rotina de um desinteressante dia de trabalho. No seria eu a julg-la.
A msica do meu Ipod muda e eu mudo o foco: talvez no fosse nada disso, ela bem poderia estar ainda sonhando com a noite de amor vivida na vspera, e da qual talvez no valesse mesmo a pena despertar para me dizer onde ficava a Rua da Quitanda. Afinal, quem liga pr Rua da Quitanda, depois de uma noite de amor? Ser que eu ainda quero chegar Rua da Quitanda depois de me sintonizar com a cano de amor que tocava no meu Ipod?
A msica termina. No intervalo entre uma e outra cano, ouo o barulho dos motores raivosos e apressados. Estou perdida no centro da cidade e meu prximo est mais distante do que nunca. Ser preciso voltar a puxar pela manga da camisa, como fazem as crianas? Por falar em criana, ser que no existem mais aquelas festividades coletivas, nos quais os auto-falantes eram alocados em postes e tocavam a mesma melodia e todos escutavam ao mesmo tempo a mesma cano?
Seguindo mais adiante e antes de desistir de vez da rua da Quitanda, percebi que os passantes mais generosos desplugavam um dos lados do fone de ouvido para melhor me escutar, o que correspondia mais ou menos, para ele, colocao de uma trilha sonora em minha emisso, deixando a resposta esperada, ou seja, minha sorte, ao sabor dos ritmos musicais que se alternavam. Pensando dessa forma, tornou-se mais fcil compreender as abruptas mudanas no humor do Outro: gentil, condescendente, irritado, apressadovai se saber o que ele estar escutando? Rock pauleira, baladas aucaradas, Hap, msica clssica,, Hip-hop?
A possibilidade de que o Outro desplugasse os dois fones de uma s vez para dedicar-me ateno integral parecia-me cada vez mais absurda. Certamente seria pedir demais que o sujeito se transportasse de seu universo mgico para despencar bem ali, na minha frente, em plena avenida Rio Branco, em meio altura dos decibis e s elevadas taxas de emisso de dixido de carbono, s para me dizer onde fica a Rua da Quitanda? Ora, j no existem mais quitandas h muito tempo e talvez no exista mais nenhuma rua da Quitanda no Centro da Cidade do Rio de Janeiro. Afinal, as ruas tambm mudam de nome e as referncias tambm mudam.
Eu estava realmente perdida. Queixar-se do que e a quem? Afinal, j nos tornamos todos um tanto multi-tarefa e muitas vezes somos bem orgulhosos disso, como se fssemos j uma verso 2.1 de ns mesmos. Nos acostumamos a viver tudo pela metade. Que jeito? Adaptei-me rpido situao e apenas por questo de sobrevivncia - e tambm a ttulo de pesquisa antropolgica, claro - comecei a achar que poderia ser interessante entrar um pouquinho no filme do Outro e virar, por um instante, um personagem de(so)cupado na necessria e posterior edio da fita. Vai se saber o filme que o outro est assistindo? Se soubssemos, poderamos tentar contribuir como o diretor, bons atores que somos na vida, mas mesmo isso parecia no ser possvel.
Teatro de marionetes seria isso? Second life, a nova sensao da internet?
O telefone toca no meu consultrio e interrompe meu devaneio literrio. Retiro os fones de ouvido. domingo e algum do outro lado me chama para almoar. No quero interromper. Quem sente fome quando est escrevendo? Mas e a fome do Outro? No dizia o slogan da campanha publicitria, que quem tem fome tem pressa? No dizia tambm o poeta popular que a gente no quer s comida a gente quer a vida como a vida quer? A gente quer sada para qualquer parte, a gente quer comida, diverso, bal?
Caras amigas, por motivo de fora maior, e somente por isso, interrompo aqui essa correspondncia. Entendam bem, o apelo do Outro, minhas amigas, em sua absoluta alteridade, deveria continuar sendo irresistvel, como queria Levinas. O estmago do outro ruge em dias de fria e no boa msica de se ouvir. Arranha como agulha em disco de vinil. No desliza como nossos dedos patinadores no gelo do mundo digital. Algumas coisas no mudam e ainda no inventamos nada melhor do que o amor para acalmar nossa fome de cuidados.
O Ipod mais uma dessas maravilhosas prteses agregadas a nossos corpos hbridos, que podem fazer com que nos sintamos momentaneamente como Beethoven ou como um grande maratonista, multiplicando nossas aptides e aliviando nossas dores, fornecendo sada para qualquer parte. Por outro lado, pode nos deixar ilhados e empobrecidos em nosso mundo relacional.
Como vocs sabem, o que lhes escrevo quase uma pura fico e no podemos responsabilizar por isso, o adorvel e minsculo aparelhinho. Entretanto, seria oportuno interrogar esse animal falante, que fez do seu corpo plataforma de muitas e novas tecnologias. Convm que ele desenvolva e preserve sua capacidade de tomar decises precisas, mais do que preciso lingustica, como almejam os contratos sociais, preciso do gesto, da mo estendida ao Outro, ao apelo inscrito no rosto e no olhar do outro, l mesmo, onde toda palavra falha e s um gesto preciso e pleno pode servir de acolhimento. Hospitalidade ao estrangeiro Agora entendi: era assim que eu me sentia no centro da cidade, como um estrangeiro em busca de hospitalidade.
Diz ainda o poeta: A gente no quer s dinheiro a gente quer inteiro e no pela metade. Muitas vezes, a palavra meia e o gesto pleno. Mais uma vez pacincia minhas amigas... sei que vocs j devem saber disso, mas no se esqueam, sou um pouco lenta, antiquada talvez, ainda que seja a mais recente e feliz proprietria de um Ipod, um dos mais cobiados objetos de consumo do momento.
Beijos e at breve