Autora: Terezinha Mendona
EDITH STEIN e MADRE TERESA DE CALCUT: PROFETAS DO AMOR
Amor e morte so casados
E moram no abismo trevoso
Seus filhos,
O que se chama Felcitas
Tem o apelido de Fel
(Adlia
Prado/ a seduzida)[1]
O
amor proporcionou-me a plena combusto para o meu trabalho, curou-me quando
estava doente, salvou-me quando estava perdido."
(Edgard
Morin, In "Meus demnios")
Na tradio bblica, profetas so aqueles que falam em nome de Deus.
So mensageiros e intrpretes da palavra divina, chamados e escolhidos por Deus
de forma inelutvel, nada podendo contra esta determinao.
As duas personalidades propostas para esta mesa so figuras exemplares, pois o que verdadeiramente caracteriza o profeta no apenas o fato de que ele seja um mensageiro da palavra de Deus, restringindo-se sua ao ao domnio do verbal, mas que a prpria vida do profeta revelao da natureza do amor divino no mundo dos homens.
Cada uma destas grandes mulheres encontrou seu meio singular de vida para professar o amor: Edith Stein em sua filiao Santa Teresa de vila e S. Joo da Cruz, escolheu o silncio do amor no caminho da meditao e Madre Teresa de Calcut, exemplo de Santa Teresa de Lisieux, torna-se uma operria do amor no servio dos pobres.
Existem diversas formas de execcio do
amor. Edgar Morin
faz uma diferena entre palavras sobre o amor e palavras do amor, sendo uma o inverso da outra. As palavras sobre
o amor constituem um discurso frio, tcnico, objetivo, que, em si mesmo,
degrada e dissolve seu objeto.[2] As palavras do amor frequentam o discurso potico entendido aqui no como poesia
estrito senso, mas como discurso impregnado de paixo, um discurso amoroso e
caloroso.
H ainda os silncios do amor, que
esto presentes na prtica contemplativa e tambm no silncio dos amantes.
Lacan vai falar do gozo mstico, como um gozo impossvel de descrever em
palavras, porque estando para alm do falicismo, escapa inscrio no
simblico. Para a psicanlise Lacaniana, o falicismo que vai permitir o acesso
linguagem.
Morin se pergunta se o amor pr-verbal ou se ele procede palavra, e seu pensamento dialgico leva-o a concluir pela simultnea precedncia e procedncia do amor palavra. O amor enraza-se em nossa corporeidade e, neste sentido, pode-se dizer que o amor precede a palavra. Mas o amor encontra-se, ao mesmo tempo, enraizado em nosso ser mental, em nosso mito, que, evidentemente, pressupe a linguagem e, nesse sentido, pode-se dizer que o amor decorre da linguagem. [3]
Morin nos diz ainda, que o amor o pice da unio entre loucura
e sabedoria Justamente por isto, um sentimento extremamente corruptvel. Em nome do amor
comentem-se muitas atrocidades, pois que ele se degrada frequentemente de amor
prprio, fundado no narcisismo necessrio constituio de uma boa auto
estima, para amor imprprio, enamoramento excessivo de si mesmo que vai
configurar a soberba e o egosmo.
O amor um sentimento poderosssimo, para o bem e para o mal. A vida dos santos e de muitas pessoas comuns, nos ensinam sobre as diversas formas de execcio do amor, que requerem movimentos permanentes de luta entre vida e morte. Santa Teresa de Lisieux[4] sabia muito bem disto em sua devoo: Senhor Deus dos exrcitos, que dissestes no vosso evangelho: No vim trazer a paz, mas a espada, armai-me para a luta. Outra no minha espada seno o amor. Ao mesmo tempo, inaugura uma nova via espiritual, a pequena via o caminho da infncia espiritual que tem por base a confiana absoluta em Deus. O xtase fruto direto desta entrega arrebatadora. Santa Teresa confia-se inteiramente ternura materna de Deus com a ternura da me que acaricia seu filhinho, assim vos consolarei ( IS. 66,12-13) Entre a luta e a ternura, o que me interessa enfatizar so os diferentes matizes do amor.
Freud entendia o amor como fora de coeso, pulso de vida, fundamental para a constituio do indivduo e dos grupamentos humanos, mas tambm sabia de seu poder mortfero, pois ao unir tende tambm a anular as diferenas e produzir uma massa amorfa e intolerante alteridade. Seria necessrio portanto a ao de uma outra fora, a pulso de morte, fora disruptiva que agindo sempre amalgamada pulso de vida, vai permitir o arejamento e o movimento necessrio s mltiplas possibilidades de organizao da vida.
Como indica Daniel Bougnoux[5], o amor transborda e faz cola entre os indivduos. Relembrando Saint-Exupry, ele diz que amar olhar juntos na mesma direo, mas para chamar nossa ateno em relao aos riscos deste olhar unidirecional, reenvia-nos uma foto do povo alemo unificado pelo nazismo, com as mos e os olhares estendidos na mesma direo. Este um triste exemplo de vitria da loucura sobre a sabedoria no exerccio do amor e, por isto mesmo, preciso cuidado com as varincias, desvios e degradaes do amor.
Trabalharei aqui com a hiptese da existncia de uma relao
entre alguns diferentes estados amorosos: o xtase mstico, o xtase hipntico
e a transferncia amorosa na clnica psicanaltica.
Freud declara em 1907, que o tratamento
psicanaltico um tratamento pelo amor. Isto dito assim, desvinculado de toda
uma compreenso da teoria do amor em sua obra, uma afirmao surpreendente. A
psicanlise cura pelo amor, amor de transferncia, que ele dir mais tarde ser
um amor como qualquer outro. O que difere, digamos, o manejo deste amor pelo
analista, que no dever corresponder concretamente a ele mas, ao contrrio,
tom-lo como repetio que
permitir, atravs dos manejos possveis, promover diferenciaes nas formas de
amar aprendidas ou desaprendidas nas relaes primordiais do paciente com seus
primeiros objetos amorosos.
A experincia analtica revela a
intensa complexidade dos afetos colocados em cena ao longo de todo o processo.
Se o analista no deve corresponder aos sentimentos de seu cliente, tambm no
pode mostrar-se indiferente a seu sofrimento. Sabemos dos males trazidos
prtica psicanaltica pelos engodos da neutralidade. preciso empatizar,
exercer a dureza e a compaixo, esquivar-se do envolvimento afetivo
obnubilante, preservar sua possibilidade de ao e reflexo, numa clnica
sempre efetivada sob o amor de transferncia. No tarefa fcil, mas para isto,
longo o processo de treinamento do candidato a analista. Mas nem mesmo isto
garantia de realizao de uma anlise. O que pode torn-la possvel ,
primeiramente, que acontea um bom encontro e que neste encontro possa o analista exercer sua
funo a partir de uma tica que o norteie na direo da cura.
Os bons encontros so aqueles que tm para ns o estatuto de um acontecimento, no sentido de ruptura com o vivido at ento. Podemos dizer que o ato analtico aquele que muda a orientao do real para um sujeito. Teresa Benedita da Cruz[6] e Madre Teresa de Calcut, profetas do amor, em seus caminhos singulares, tiveram diferentes encontros com duas grandes figuras da mstica catlica que foram, como vimos, Santa Teresa D vila para Edith Stein e Santa Teresa de Lisieux, para Madre Teresa de Calcut.
Os grandes msticos sinalizam-nos tambm o mistrio que enreda amor, sofrimento e cura. S. Paulo da Cruz (1694-1775), inspirado por Tauler que viveu quatrocentos anos antes dele dizia: Creia-me, nunca conheci uma alma que se dedicasse perfeio e orao e tivesse boa sade.[7] Pode-se adoecer por excesso ou por falta de amor e cada um destes percalos condiciona diferentes modalidades de pathos. Sabemos, a partir de diferentes escolas de pensamento, que o crescimento espiritual (psquico ou humano se preferirmos), faz pesadas exigncias constituio psicofsica da criatura humana.[8] Esta constatao no implica que o adoecimento seja uma meta ou mesmo uma necessidade, ao contrrio, deve ser visto como contingncia a ser minimizada. Stinissen observa que Antes de julgar coisa normal que se fique doente durante a caminhada, procura-se prevenir tais incidentes, no negligenciando o corpo nem a psique. Assim, a hatha-yoga pretende fortalecer o corpo, para que resista s presses do crescimento espiritual.[9]
preciso ousar pensar a sade de forma mais humilde. Ousadia para romper com as formulaes culturais e cientficas confortavelmente estabelecidas que ainda insistem em separar os males do corpo e da alma ou a associar a santidade da alma doena do corpo como preo a pagar. Humildade para perceber o quanto deste campo ainda resta como enigma e para compreendermos a necessidade de nos abrirmos s diferentes culturas e produes de conhecimento.
Lacan era apaixonado por Santa Teresa Dvila e por S.Joo da Cruz. Dedica-lhes algumas pginas de seu seminrio Encore , identificando o gozo mstico ao gozo feminino, acessvel somente - ele dir - s mulheres, aos msticos e aos artistas, sempre pela via do masoquismo primrio. No caso dos homens, esse acesso fica restrito a alguns artistas e/ou msticos. S. Joo da Cruz uma figura exemplar, ao mesmo tempo artista e mstico.
Ao falar de masoquismo primrio, preciso ter o cuidado de esclarecer que esta terminologia, talvez no a melhor, refere-se no uma categoria nosolgica caracterstica de uma leitura patologizante, mas a um estado constitutivo da personalidade humana, associado uma passividade ativa que vai caracterizar o feminino para a psicanlise e os estados contemplativos no caminho da meditao.
Cura outra palavra desconcertante, quanto mais se a vincularmos idia de amor. Cura pelo amor. Esta a escandalosa proposta de Freud, no interior de um cenrio cientificista que tinha por princpio a necessidade de afastarmos os afetos para conferir maior objetividade s atividades experimentais. Freud no podia dispensar, claro, este reconhecimento da comunidade cientfica e pode-se imaginar seus esforos no sentido de conciliar as necessidades deste novo mtodo de tratamento s exigncias epistmicas de sua poca.
Freud foi assim, sem dvida, um profeta do novo paradigma, um anunciador da boa nova da complexidade. Cura pelo amor, parece ser uma proposta religiosa demais, misteriosa demais, mas isto no produz demasiado estranhamento no interior deste paradigma complexo que prope sua religio, no sentido mesmo de uma re-ligao dos saberes.
Ainda que o esprito cientfico nos force a tomar os mistrios como enigmas, ainda que o esprito religioso conceda que alguns mistrios possam transformar-se em enigmas e que, como tal, possam ser um dia decifrados pela cincia, fundamental, luz de um conhecimento produzido pelo que vem se denominando terceira cultura, conservarmos a possibilidade de nos surpreendermos, de perdermos o cho e o caminho para reencontrarmos uma direo, mesmo que seja completamente outra, mesmo que tenhamos que reconhecer que estvamos seguindo as pistas erradas. Isto no deveria importar tanto quanto habitualmente importa, mas sim que os anseios de verdade no fossem sufocados pelo narcisismo do conhecimento estabelecido, que nos faz reduzir a multiplicidade inscrita no real, ao empobrecimento decorrente do pensamento nico.
Neste ponto retornamos a Daniel Bougnoux, organizador do colquio de Cerisy e imagem unificada do povo alemo, utilizada como capa do livro de mesmo nome, na edio francesa.
Este colquio, realizado em 1989,
reuniu profissionais de diferentes reas do conhecimento em torno da questo da
hipnose, encontro transdisciplinar por excelncia, visto que a complexidade do
objeto no comportaria outra abordagem possvel. Bougnoux lutou contra o que
considera ser uma alergia da comunidade picanaltica aos problemas debatidos no
colquio, que permaneciam e permanecem, ainda hoje, sendo tratados como tabu.
Uma das resistncias a este tema, reside na necessidade de salvaguardar o
estatuto cientfico da psicanlise.
Chertok, um dos participantes do colquio afirma que o transe hipntico e a transferncia tm uma natureza comum. Junta-se Isabelle Stengers para afirmar que a relao hipntica est presente em toda psicoterapia[10] e que a aceitao deste fato poderia trazer avanos sobre a questo da cura, ainda que para isto tivssemos que ampliar nossas concepes sobre racionalidade, postulando a necessidade de que as pesquisas assumam definitivamente seu carter transdisciplinar.[11]
O transe hipntico guarda estreita
relao com o amor. Pressupe uma capacidade ou um desejo de abandonar-se sem
reservas e confiantemente ao Outro. Pressupe, para John Bowlby, psicanalista e
etlogo, o conceito de attachement, ( apego) que designa condutas comuns em
bebs humanos ou animais, buscando satisfazer, junto me, sua necessidade de
proteo.[12] Esta necessidade, to importante
quanto a alimentao e a atividade sexual, tende a enfraquecer-se medida em
que o beb se torne um adulto, mas sempre passvel de retornar na vigncia de
situaes de instabilidade que possam irromper ao longo da vida.
precisamente aquilo que fica como
marca deste desamparo primordial, que vai deixar uma brecha para o
estabelecimento da transferncia amorosa e do transe hipntico como
possibilidade de abandono de si no Outro. Este amor pr-verbal, que caracteriza
os laos fusionais da relao me-beb e que ser trabalhado por Winnicott e
Balint, entre outros, para entender a psicose e os casos limites como resultado
de falhas afetivas na primeira infncia, ser tambm um instrumento de
reparao e cura, na forma de uma comunicao emocional, emptica, amorosa,
exemplo do holding de Winnicott, entre o terapeuta e o paciente.
A experincia mstica e religiosa trabalha a dimenso da cura como um processo sempre na dependncia da f. Todos os milagres descritos na literatura do Novo Testamento so marcados pela convico de que a f do suplicante o veculo para sua cura. a possibilidade de estabelecer este link que atrai para aquele que cr, todas as alegrias e perturbaes auferidas atravs desta participao com o Divino. A f se expressa num tipo de adeso que dispensa o argumento racional, situando-se alm do entendimento e aqum da possibilidade de verbalizao, o que nos remete ao sentido dado por Bowlby, ao conceito de attachement supra mencionado .
A conscincia do profeta indica-lhe o lugar de instrumento atravs do qual a mensagem de Deus se far ouvir. Esta convico se funda numa experincia misteriosa, digamos mstica, num contato imediato com Deus. [13]
Contudo, o xtase mstico no excessivamente valorizado pelo discurso religioso, nem mesmo colocado como um estado a ser perseguido, ao contrrio, deve ser visto com reservas, pois representa um risco de queda nas armadilhas da vaidade, nos equvocos dos sentidos. Reconhece-se, contudo, que esta interveno de Deus na alma do profeta coloca-o num estado psicolgico supranormal. Neg-lo, seria rebaixar o esprito proftico ao nvel da inspiraco do poeta, ou das iluses dos pseudo-inspirados. [14]
O xtase mstico e, em especial, os estigmatas, despertam e aguam a curiosidade cientfica. At que ponto estes fenmenos pertencem esfera do enigma ou do mistrio?
O foco est frequentemente colocado na diferenciao entre os verdadeiros e os falsos estigmatas. A necessidade de tal diferenciao bastante bvia e, se por um lado a Igreja catlica j tem rigorosos mecanismos de anlise e verificao dos fenmenos apresentados como sobrenaturais, h ainda os cientistas empenhados em provar a inexistncia de tais fenmenos. No interesse de minha argumentao, torna-se necessrio distinguir alguns nveis de problemas: 1) a simulao consciente 2) a simulao inconsciente, na qual a pessoas em estado de transe se auto infligiria os sinais e passado o transe no se lembraria de nada 3) o surgimento espontneo comprovado das chagas durante o transe.
Ora, se os estigmatas devem-se uma
interveno direta de Deus como exterioridade ou ao de um poderoso desejo inconsciente de receber
os sinais, no o que me causa e instiga, at mesmo porque minha tendncia
seria no operar uma separao radical entre o sujeito amoroso e o objeto
fortemente investido por ele. De todo modo, haver sempre alguma participao
consciente ou inconsciente, na forma de uma passividade ativa, na relao com este grande Outro
arrebatador. O que me interessa neste ltimo ponto, chamar a ateno para os estados alterados de conscincia ou estados psicolgicos
supranormais, para utilizar o termo mencionado acima.
O que se passa no trnsito
estritamente relacional entre o psquico, o somtico e o trans-psicosomtico do
par envolvido na situao do transe de tal forma que as alteraes de
conscincia encontrem um correlato no corpo, fazendo brotar, na carne, o efeito
de uma rdem comandada por aquele que induz e controla o transe do outro? Eis
uma pertubadora questo histricamente desacreditada e relegada pela cincia.[15]
Aps o colquio de Cerysi, foi fundado um laboratrio de hipnose com a finalidade de criar um espao de pesquisa que pudesse ancorar, empiricamente, as questes levantadas durante o colquio. Esses experimentos demonstraram que, sob transe hipntico, vale lembrar, sob a vivncia de absoluta confiana que permite o abandono de si e a entrega irrestrita ao Outro, tambm foi possvel abrir uma vescula nas mos de uma paciente, apenas apelando para o poderoso efeito da sugesto durante o transe. Poderoso instrumento de transformao esta entrega amorosa, que pode produzir a cura e o adoecimento, revelando-os no corpo, a partir destes ainda nebulosos estados alterados de conscincia, fenmenos que concernem tambm os campos da fsica quntica, da biologia molecular, da neurocincia e de quantos outros discursos pudermos dispor para lanar alguma luz sobre este campo complexo e enigmtico que envolve os estados alterados de conscincia.[16]
Apenas uma coisa parece coincidir,
quando falamos dos diferentes xtases, seja o mstico, o hipntico, ou aquele
que tambm parece agir em doses homeopticas na transferncia analtica: uma
experincia amorosa que possibilite, em maior ou menor nvel, o abandono de si
e uma entrega absoluta ao Outro.
O discurso mstico afirma que estes
fenmenos no so acessveis ao entendimento, sendo portanto da rdem do
mistrio. Porm, do ponto de vista histrico, muitos fenmenos que eram
considerados como mistrios, revelaram-se ser enigmas passveis de decifrao.
O que deve ser evitado, o reducionismo e a simplificao que beira, por
vezes, o desrespeito. Por se tratarem de fenmenos de extrema complexidade,
devem ser abordados com a dimenso que merecem. A humildade e a
responsabilidade do homem de cincia precisa ser exercitada e
desenvolvida. Joaquim Bouflet[17], consultor do Vaticano na Congregao
das causas dos Santos, entende que o que se exige de um homem de cincia, no
que ele acredite em milagres, mas que possa se render ao fato de que, por
enquanto, no se encontre explicao cientfica para alguns casos de
estigmatas. Que o reconhecimento do sobrenatural seja pelo menos relativo e que
o fenmeno possa ser situado, em outro nvel de realidade, conceituao to cara a Basarab
Nicolescu, fsico e pensador das cincias da complexidade.
Assim, se os conhecimentos sobre a
histeria podem ter contribudo para a elucidar os casos de falsos estigmatizados, reduzir todos os casos de
estigmatas manifestaes histricas revela, no mnimo, um estreitamento de
pensamento. Dominique de Courcelles, pesquisadora do CNRS, nos invoca a
refletir sobre o tema, sem anacronismos ou idias preconcebidas. O que est em
causa no familiar estranhamento produzido pelos estigmatas? Na introduo da
revista LHerne de n 75, publicao transdisciplinar exclusivamente dedicada
aos estigmatas, Dominique pergunta-se por que esta questo no foi ainda
suficientemente colocada e tratada pelas trs religies monotestas?
Interroga-se ainda, sobre o que se passa neste encontro entre um corpo enigma que faz falar o Outro e um corpo que se torna ele mesmo linguagem. O corpo que sofre, o que ele coloca em jogo na confrontao do corporal e do espiritual, do humano e do divino? A mim interessa tambm particularmente, a relao entre amor e sofrimento, especialmente, sofrimento corporal, visto que o estigmata percebido pelos msticos, como prova contundente do amor de Deus. Que o encontro amoroso com Deus, implique repetir e inscrever em seu prprio corpo, o martrio do Amado, no me parece ser uma necessidade, mas antes, um desejo daquele que ama. O xtase amoroso, qualquer que seja ele, engendra simultaneamente sofrimento e gozo, mas pode tambm libertar para a compreenso da alteridade. Confunde-se frequentemente o amor com possesso, no duplo sentido mesmo de possuir e de ser possudo. A autenticidade do amor implica a possibilidade de abertura para o Outro, deixar-se contaminar pela verdade do outro () encontrar sua verdade atravs da alteridade.[18]
Morin nos diz que preciso assumir
o amor. Se o amor tambm, primitivamente, necessidade
de calor e aconchego frente ao desamparo de um mundo frio que se abre para o
recm nascido mamfero, se alm disto, a necessidade reprodutiva constitui ainda
um outro fundamento biolgico que nos impele aproximao, o que se passa no
processo civilizatrio, para que haja hoje uma necessidade de sermos
conclamados a assumir o amor?
Edith Stein, judia convertida ao
catolicismo, nascida em 1881 e morta em 1942 em Auschwitz, pela intolerncia
nazista, filsofa renomada identificada fenomenologia de Hussel, enfrentou
todos os desafios e preconceitos que concerniam o lugar da mulher no mundo e,
em seguida, ao fato de ser uma judia alem, na vigncia do nazismo. Mulher
inquieta e de personalidade forte, buscou intensamente a verdade que se fez
revelar para ela atravs do dirio de Santa Tereza de vila. Sustentou s
ltimas consequncias, a fidelidade sua f catlica e ao amor por sua
judeidade, arcando com as dificuldades impostas por seus anseios de extenso e
transbordamento de seu pertencimento. Mulher, intelectual, judia alem e
catlica, Teresa Benedita da Cruz, quer exceder os campos delimitados para sua
ao.
Madre Teresa de Calcut, esta albanesa nascida em 1910, decidiu-se cedo, ainda na adolescncia, pela consagrao total a Deus e sonhou desde ento com um trabalho missionrio na ndia, tendo se naturalizado indiana para facilitar o melhor desempenho de suas tarefas. No dia 10 de setembro de 1946, marcado em sua histria como o "dia da inspirao", recebe uma clarssima iluminao interior: dedicar a sua vida aos mais pobres dos pobres. Aps longa e dolorosa meditao, pergunta-se o que poderia, concretamente fazer por estes infelizes? Desde ento, conjulgando humildade e alegria com simplicidade, fervor e persistncia, lutou incansavelmente para fundar sua prpria congregao e aproximar-se daquilo que considerou sua misso: a dedicao aos mais pobres dos pobres, o que fez principalmente atravs do lar infantil Sishi Bavan (Casa da Esperana) e de seu famoso "Lar para Moribundos", em Kalighat. Prmio Nobel da Paz em 1979, Madre Teresa morreu em 1997, foi beatificada em 2002, em processo que logrou um tempo rcorde na histria do Vaticano.
Estas duas mulheres, parecem ter superado o antagonismo que obriga a escolher entre a dureza do real e o encantamento do ideal. Boris Cyrulnik afirma que o real desdiz o xtase: O amor paixo tem de arder no ideal, na emoo cada do cu, no indcio despertado pelo outro. preciso que o amor paixo seja passivo, porque qualquer ao introduziria o trabalho e o real desencantador o real e suas leis tornam-se perseguidores, impedem o xtase[19] Como tornar possvel a convivncia entre real e ideal, ao e devoo, ativo e passivo, vida e morte? Este parece ser o desafio.
O sentimento amoroso universal, mas a
histria do amor particular e se atualiza atravs de vinculaes que, por sua
vez, so determinadas por presses scio-culturais. a domesticao da vida
amorosa pela civilizao que vai tecer o elo da vinculao e, ao mesmo tempo, legislando sobre a
natureza dos vnculos, destri o mpeto, el vital que sustenta a ao e impede a acomodao
imposta pelo inexorvel retorno ao inanimado. Este o desafio, utilizar a
potncia do amor como sentimento universal, para extrair dele sua fora de
transformao, consentir no vnculo sem desvalorizar a
incandescncia e ainda, como se no fosse pouco, no deixar enlouquecer o amor,
fazendo dele simultaneamente submetimento e possibilidade de escape ao
enquadramento.
Saber fazer do real, da ao e da necessidade de transformao do
real, um ideal amoroso a ser perseguido como aquele primeiro objeto perdido no
universo de nossos sentidos. Eis o que nos ensinam as vidas destas duas
mulheres, profetas do amor, artfices da resistncia, da indignao e da
pacincia conjugadas na luta pela dignidade da vida humana em toda a sua
diversidade cultural. Se pudermos aprender alguma coisa com elas, estaremos
mais prximos deste ideal.
Obrigada a todos.
[1] Prado, Adlia, Poesia reunida, ARX, S. Paulo, 1991
[2] Morin, E. Amor, poesia e Sabedoria. Editora Bertrand Brasil, 1998, Rio de Janeiro, p.15
[3] Id. Ibid p.17
[4] Josaphat, Carlos As santas Doutoras:espiritualidade e emancipao da Mulher , Paulinas, S. Paulo, 1998
[5] Bougnoux, Daniel (direction) Colloque de Cerisy: La sugestion, lypnose, influense, transe. Collection Les empcheurs de penser en rond.
[6] Nome religioso adotado por Edith Stein
[7] Stinissen, Wilfried A Noite escura segundo So Joo da Cruz, Edies Loyola, S. Paulo, 2001, p.60
[8] Id. Ibid. p.62
[9] Id. Ibid p.62/63
[10] Id. Ibid. p.27
[11] Id. Ibid.
[12] Id. Ibid. p.28
[13] Gorgulho, Gilberto da Silva Storniolo, Ivo, Anderson, Ana Flora, Bblia de Jerusalm, Ed.Paulinas, S. Paulo,1989, p.1331
[14] Id. Ibid.
[15] Ver tambm sobre este assunto Nathan,Tobie, L Influence qui gurit Editions Odile Jacob
[16] Ver tambm sobre este assunto Stengers, Isabelle ( direction) Importance de lhypnose, collection les empcheurs de penser en ronde.
[17] Courcelles, Dominique ( direction) Les Cahiers de LHerne, n 75, Stigmates
[18] Id. Ibid. p.30/1
[19] Cyrulnik, Boris, Sob o Signo do Afeto, Instituto Piaget, Lisboa, 1989, p. 165