ESPIRITUALIDADE, PSICOLOGIA E AS GERAES DA PS-MODERNIDADE:

 

Juventude, inquietaes e buscas: do heri s drogas

 

Terezinha Mendona*

 

Meus heris morreram de overdose

Meus inimigos esto no poder

Ideologia, eu quero uma pr viver ( Cazuza)

 

Minha dor perceber

Que apesar de termos feito tudo tudo que fizemos

Ainda somos os mesmos, e vivemos como nossos pais ( Belchior)

 

 

 

O ttulo proposto para esta mesa, Espiritualidade, Psicologia e as Geraes da Ps Modernidade, e em especial o tema que me coube: Juventude, Inquietaes e Buscas: do heri s drogas, remeteu-me, quase que imediatamente, uma letra de msica do Cazuza: Meus heris morreram de overdose, meus inimigos esto no poder.

A partir desta lembrana, passei a buscar elementos para minhas reflexes, recolhendo algumas letras da msica popular brasileira que deixavam entrever, aqui ou ali, os traos culturais que buscvamos compreender um pouco no contexto desta discusso.

Tentarei problematizar os termos propostos no ttulo, partindo de uma noo que se difundiu dividindo as fileiras do universo intelectual, obtendo a simpatia de alguns e a visada crtica de outros. Refiro-me ao conceito de ps-modernidade. Desde Bruno Latour[1] que discute se podemos falar em ps modernidade, uma vez que talvez nunca tenhamos sido realmente modernos, at a convico da liquidez caracterstica desta contemporaneidade que Zygmunt Bauman[2] no hesita em nomear de ps-moderna. No me estenderei na discusso.

Direi apenas que enquanto preparava esta apresentao, tive uma experincia exata daquilo que eu entendo por ps-modernidade: minha impressora pifou. Diante do impedimento e da urgncia iminente que caracteriza estes tempos que atravessamos, tive que improvisar para dar conta do recado. Armei-me de ferramentas de escritrio h muito abandonadas: uma tesoura, um vidro de cola, clipses etc... Ao contrrio do que se passaria no universo virtual da tela do computador, pus-me ento, ludicamente, a cortar e colar concretamente, tudo o que j havia sido impresso, dobrando papeizinhos, jogando os restos no lixo, realizando uma composio artesanal que resultou no formato final deste texto.

Conto esta experincia para ilustrar que, em minha compreenso, a ps-modernidade uma sobreposio de possveis, onde o novo e o velho se entrelaam de forma a tecerem uma realidade comum. As trilogias de Star Wars de George Lucas, que arrastam legies de jovens aos cinemas, so exemplos emblemticos desta mitologia contempornea na qual convivem, harmoniosamente, animaizinhos pr-histricos com robs e naves espaciais; na forma de uma condensao onrica, armas de guerra apresentam uma esttica pr-histrica aliada a um desempenho de eficincia futurista.

Embora eu concorde inteiramente que ocorra uma liquidez decorrente de transformaes vertiginosas em nossa cultura, quero fazer uma contraposio, apontando no sentido de que existe algo que permanece no meio de toda essa fluidez, pois faz parte de um processo que prprio da vida. o que explicarei a seguir.

Dentro da perspectiva das cincias da complexidade, a sociedade deve e pode ser vista como um tecido vivo[3] em permanente processo de organizao autopoitica. Neste sentido, podemos pensar que algumas coisas se mantm, apesar da vertigem a que estamos submetidos neste fluxo permanente de transformaes culturais que se sucedem. Na conceituao de Maturana e Varela[4] sobre autopoiese, aquilo que perdura pertence ao modo de funcionamento que eles denominam clausura operacional, enquanto que as possibilidades e necessidades de troca decorrem de um outro modus operandis nomeado por eles como acoplamento estrutural. Significa dizer que algo permanece em ns como herana e singularidade, independentemente das condies ambientais, alguma coisa da ordem de um si-mesmo que obedece a leis prprias de auto-regulao. Assim, se transpusermos este conceito para o tecido social, por maior que sejam as influncias de uma cultura sobre a outra, mesmo em condies de barbries civilizatrias, alguma singularidade ser mantida pelo colonizado, guardando um certo grau de liberdade em relao intruso sofrida. Por outro lado, estamos muito vulnerveis e felizmente permeveis aos efeitos do universo que nos circunda, o que permite todo tipo de trocas e renovaes indispensveis vida

Acho importante enfatizar este ponto de vista, pois minimiza a angstia decorrente da idia de que tudo vertigem, fluidez, parecendo que nada fica retido no fluxo incessante de substituies consecutivas de objetos, personalidades provisrias que se valem de seus poucos minutos de fama, num cenrio inconsistente no qual nada perdura. Tomemos ento a segunda epgrafe deste texto : Minha dor perceber, que apesar de termos feito tudo, tudo, que fizemos, ainda somos os mesmos, e vivemos como nossos pais [5]

O relato de minha experincia diante da impressora que no atende s expectativas de eficincia tecnolgica tem apenas um carter ilustrativo, mostrando que os recursos antigos ainda esto disponveis e podem ser utilizados de forma criativa e at mesmo ldica, na ampliao de nossas possibilidades de aliana entre o novo e o antigo. Em favor deste argumento, mencionarei a observao de que no Rap nacional encontra-se, enfaticamente, a presena de uma moralidade extremamente conservadora no que concerne aos ideais de bem e de mal. Do ponto de vista da busca da espiritualidade, existe um forte apelo questo da f em Deus, sendo este o representante de uma Lei severa que pune os desviantes de uma norma que parece bem estabelecida e absolve com magnanimidade os arrependidos que desejam retomar o bom caminho. o Deus que castiga, pune, redime e salva. Arrepender do que ? arrepender porque ? Espere por apenas mais alguns segundos e Luo vai dizer, pra no arder , pra no morrer , pra no queimar , esses so bons motivos pra se regenerar, largar o crime , largar a droga , largar o lcool, ser um cara livre e no apenas mais um escravo do pecado, deixe de lado esse seu modo de viver errado [6]

fato que as velozes transformaes culturais que atravessam a contemporaneidade produzem em todos ns um sentimento de perplexidade e aturdimento. Para fazer frente s angstias, inquietaes e instabilidades decorrentes deste estado de esprito que nos acomete, proliferamos teorizaes explicativas para tentar dar conta desta multiplicidade de fenmenos scio-culturais que emergem da fermentao de um caldo cultural que pode ser visto, simultaneamente, como extremamente rico e extremamente pobre. De um lado, heterogneo, multifacetado, fractalizado e, ao mesmo tempo, pasteurizado, homogeneizado, liquidificado.

lcito e compreensvel que se produzam teorias para tentar dar conta dos processos, movimentos e estagnaes culturais. O risco e o equvoco destas iniciativas, para os quais gostaria de chamar a ateno, so aqueles inerentes ao empobrecimento decorrente de todo enfoque que se creia luminoso o bastante para clarear as zonas de sombra que permeiam toda e qualquer realidade bio-psico-socio-antropolgica. Leibniz[7] j nos dizia que todo ponto constitudo de infinitas dobras que escondem sempre reas de sombra. Tentar iluminar nosso momento histrico para capt-lo fotograficamente, diagnostic-lo, nosograf-lo na tentativa de tranqilizar-se com uma explicao satisfatria s cumpre a funo de acalmar os espritos aflitos, pressurosos de garantias quanto ao porvir.

Costuma-se dizer que vivemos num mundo inconsistente, um mundo de incertezas, onde as regras da tradio j no mais indicam os caminhos a serem tomados por cada um, mas ao mesmo tempo, uma infinidade de certezas so apregoadas por todo lado, especialmente pela cincia e pela mdia, com o peso de convices inabalveis e, ainda que se sucedam incessantemente, no momento em que so afirmadas, tm estatuto de eternidade.

Pululam as constataes estonteantes e os emplastos pacificadores das explicaes sobre nosso tempo: a perverso do lao social, a cultura do excesso, o narcisismo dos tempos sombrios, precisamos operar uma subtrao de gozo, a famlia acabou, o amor romntico acabou, o Estado acabou, o emprego acabou, as utopias acabaram de ruir com o Muro de Berlim, o Imprio triunfou, o pai foi substitudo pelas tecnologias da reproduo assistida, vivemos o fim da histria, o fim do mundo, o buraco de oznio, o aquecimento global, as chuvas cidas, o derretimento das calotas polares. Morreremos torrados ou afogados, isto certo, pois tudo desaba sobre ns na sociedade do espetculo.

Se h de fato um excesso de produes explicativas, h um conceito fundamental que define uma estratgia de sobrevivncia no circuito de nossa comunicao atual: preciso selecionar as informaes. Este princpio de seleo alis, responde a uma necessidade prioritria de todo organismo vivo. Para isto servem as membranas celulares, para filtrar e acolher tudo aquilo que convm aos aspectos de composio que interessam vida, recusando sabiamente os ingredientes e informaes que operem a favor dos processos desintegradores e degenerativos do tecido vivo.

Sem um princpio de filtragem, como sobreviver ao pessimismo de um mundo onde tudo desaba sobre nossas cabeas? Como ocupar um mundo onde tudo j foi feito – e, em princpio, mal feito – tudo est dado, perdido, consumado. Principalmente, em se tratando dos jovens, como colocar a cabea para fora de casa e comear a explorar este espao a ser ocupado?

Gostaria de problematizar cada um desses termos: juventude, inquietaes e buscas, heris e drogas.

Quando falamos em juventude, no podemos mais falar genericamente – o jovem de hoje, o adolescente de hoje – pois vivemos em uma sociedade cada vez mais complexa, na qual coexistem vrias tribos, ou seja, se selecionarmos uma faixa etria, encontraremos vrios segmentos culturais na mesma cidade e mesmo no interior de uma mesma classe social. Esta pluralidade no precisa necessariamente nos assustar, pois revela uma riqueza e uma tendncia natural do vivo: ir do simples ao complexo. Alm disto, oferece uma ampla gama de possibilidades identificatrias o que de certa forma aumenta o grau de liberdade.

Outra questo que me parece importante ressaltar, refere-se ao fato de que o limite entre as faixas etrias est cada vez mais fluido. Freqentemente se faz meno ao fato de que as crianas esto cada vez mais precoces, reivindicando antecipadamente o status de adolescente. Logo a seguir, vemos o adolescente que mal sado da puberdade j almeja as regalias de um adulto. Isto, bem entendido, sem o nus requerido pela autonomia pretendida. H ainda o adolescente tardio, aquele jovem com mais de 27 anos que permanece morando na casa dos pais e no se definiu profissionalmente.

Existem tambm os anseios de juventude eterna: o homem de trinta anos que aparenta vinte, a mulher de quarenta que no s aparenta trinta mas realmente se sente com trinta. Muitas vezes, neste momento de defasagem entre as idades biolgicas e psquicas, ancorada e encorajada pela juventude de sua imagem no espelho, que resolve ter o primeiro filho. Tomada pelo susto da gravidez que no vem, confrontada com a realidade do envelhecimento dos vulos, este silencioso processo invisvel que o espelho no registra e que acaba por conduzir um grande nmero de mulheres s clnicas de reproduo assistida. Nada contra as tecnologias de concepo, desde que utilizadas com bom senso; que elas sejam um recurso ou uma escolha possvel diante das mais variadas situaes que a vida nos reserva, mas que no seja uma necessidade fruto de um engodo e do desconhecimento de si prprio.

Quanto s inquietaes e buscas, contrariamente algumas opinies correntes, creio que muitas delas ainda so as mesmas e se mudam de uma gerao outra, precisamos antes, minimamente pensar o que queremos dizer quando falamos em espao prprio uma gerao. Voc culpa seus pais por tudo. E isso absurdo. So crianas como voc. O que voc vai ser, quando voc crescer? [8]

O que define uma gerao? Quando se pode dizer que uma comea e a outra termina? Estamos referidos ao tempo requerido para o amadurecimento biolgico de um indivduo tornando-o apto reproduo? Ou seja, uma nova gerao se inaugura temporalmente com as possibilidades reprodutivas de um grupamento humano que cumprir seu destino na gestao de um prximo grupo que o suceder na linhagem? Seriam ento vinte, trinta anos, o marco delimitante entre as geraes? Ser mesmo que processos determinantes acontecem necessariamente em termos de mudanas sociais, no interior deste tempo biolgico que separa o nascimento dos pais e aquele de seus filhos? Colocado de outra forma, o nascimento de uma nova leva de crianas garantia, em si mesmo, de transformaes significativas no campo da cultura humana? Ou esta avaliao est muito mais na dependncia das mudanas de hbitos, costumes, crenas, valores, enfim, tudo aquilo que compe o leque de interesses de um certo momento histrico, dependendo de um conjunto muito mais complexo de fenmenos que passam por conjunturas polticas e econmicas, favorecendo a emergncia de organizaes sociais significativamente diferentes das anteriores.

Parece bvio que disto que se trata quando falamos de uma nova gerao. Tambm parece no haver dvida de que alguns momentos so mais ricos em termos de produes culturais do que outros e talvez seja isto que justifique localizarmos temporalmente o surgimento de uma nova gerao

preciso distinguir alguns nveis de realidade quando pensamos em mudanas culturais que se processam de uma gerao a outra ou mesmo no interior de um mesmo grupo geracional. 1) Esta eterna sensao de que o tempo passa rpido demais e que no conseguimos acompanh-lo ou nos acompanhar dentro dele, sendo, ao contrrio, sempre levados de roldo 2) o ritmo acelerado de produo e afirmao de verdades no campo que associa cincia e mdia 3) a incessante substituio de bens de consumo fornecidos pela tecnocincia 4) o sentimento de sermos retardatrios contumazes, sempre em dvida com o presente, que nos surpreende sempre como passado recente.

Tentando buscar alguns elementos que me auxiliassem na elaborao do tema proposto para esta mesa, entrei na Internet e comecei a pesquisar sobre Rap nacional. J mencionei aqui, o carter conservador que se manifesta no tratamento dos temas sociais abordados dentro deste estilo musical. Encontrei logo na pgina inicial, uma letra de msica chamada Meus inimigos esto no poder[9]. Pensei: vinte anos depois e os inimigos ainda esto no poder? Mas ao contrrio do desalento presente na letra de Cazuza, uma postura diferente se faz ouvir nesta nova cano: Meus inimigos esto no poder. Querem meu sangue, mas no vo ter. Existe marcadamente no Rap nacional, uma posio de resistncia e de crtica social, que aborda temas importantssimos como aborto, drogas, violncia, corrupo, discriminao sexual, m distribuio de renda.

Contudo, na construo do conceito de inimigo e na tentativa de sua identificao ocorre uma problemtica e interessante superposio: o policial, o traficante, o usurio de drogas e o poltico condensam, sor si mesmos e a um s tempo, as identidades de heri e de vilo. No ano de 2003, realizou-se uma campanha educacional que enfatizava a questo do usurio como inimigo, apontando o aspecto de dependncia do trfico em relao quele que consome, mais do que o oposto. Neste sentido, os inimigos eram os usurios de classe mdia, rebeldes burgueses ligados ao ecstasy e cocana, dentre os quais o Cazuza seria um exemplo emblemtico, pois era usurio confesso e defensor da legalizao das drogas.

H uma letra do MV Bill, que um grupo de rap bastante conhecido dos jovens, chamada S Deus pode me julgar. Dela destaco um fragmento que diz: eu pego no microfone com discurso contundente, o que te assusta numa atitude brusca, dignificando e brigando por uma vida justa. Fui transformado no bandido do milnio. O sensacionalismo por aqui, merece um premio. Eu estava armado, mas no sou da sua laia. Quem mais bandido? O Beira Mar ou o Srgio Naya? Mantenho minha cabea em p, fale o que quiser. Pode vim que j , junto com a ral, sem dar marcha r, s Deus pode me julgar, por isso eu estou na f. [10] Se pudermos pensar que h uma sobreposio do vilo e do heri, podemos dizer que os modelos de identificao ficam problematizados. Sou playboy, filhinho de papai, eu tenho um pitbull e imito o que ele faz. Eu era um debiloide e fiquei ainda mais.[11]

No processo de reorganizao das mltiplas estruturas familiares de nosso tempo, o percurso identificatrio do jovem tambm abandona os caminhos mais lineares, previamente conhecidos, para se defrontar com uma oferta mais plural ou fragmentada de modelos, dependendo do ponto de vista que se pretenda enfocar. Renato Russo mostra bem estas diversas formas de organizao familiar. Eu moro com a minha me, mas meu pai vem me visitar. Eu moro na rua, no tenho ningum, eu moro em qualquer lugar. J morei em tanta casa que nem me lembro mais, eu moro com os meus pais. Isso mostra claramente a multiplicidade de possveis.

Carlos Klimick, doutorando da PUCRio, executa uma interessante pesquisa com o jogo RPG aplicado rea de educao e informtica. O seu trabalho intitulado Onde est o heri?[12], aborda esta questo. Ele afirma: tenho observado os alunos criando personagens de forma bem distante do que eu e outros praticantes costumamos chamar de herica. Para melhor avaliar esta questo, precisamos ampliar a noo consensual e analisar o que um heri. A classificao de uma personagem como heri ou vilo, pelos critrios consensuais descritos, depender do grupo, e no somente dos ideais dela. Se suas habilidades forem usadas de acordo com critrios considerados hericos pelo grupo, este personagem ser um heri. Isto equivale dizer que ele pode ter os dons necessrios, mas precisar da oportunidade e da disposio de seguir os critrios para ser considerado um heri. Nas palavras de Hrcules, nos desenhos da Disney, ao sofrer a rejeio inicial em Tebas, ele diz: como vou provar ser um verdadeiro heri, se ningum me d uma chance?

Outra questo que merece ser desdobrada refere-se definio do que chamamos drogas. Sabemos que em todos os tempos do processo civilizatrio, o homem nunca deixou de lanar mo do uso de drogas para produzir alteraes dos sentidos e da conscincia. Assim, no bojo desta discusso entraria, obviamente, a questo do excesso, preocupao muito em voga nos tempos atuais, quando se tem refletido sobre o crescimento desmesurado das demandas de trabalho, de informao, de consumo etc... Desta forma, a moderao nas formas de se relacionar com as diferentes ofertas de nossa cultura, seja o trabalho ou a ingesto de vinho, para citar apenas dois exemplos, vem sendo veiculada pela mdia ligada divulgao cientfica, como uma aliada da sade. Por outro lado, todos sabemos que qualquer consumo exagerado destas ofertas podem falar a favor de um comportamento aditivo.

Entramos aqui em mais um aspecto delicado, que diz respeito distino entre drogas lcitas e ilcitas. Considerando-se os excessos, ambas podem ser extremamente prejudiciais sade. Neste contexto, um fator preocupante refere-se medicalizao neuro-psiquitrica que vem sendo amplamente utilizada em crianas identificadas por algumas prticas escolares como hiperativas. O que est em questo parece ser ento, como qualificar e compreender as inquietaes caractersticas da infncia. Se uma criana no consegue se concentrar, talvez o que esteja sendo oferecido a ela seja pouco estimulante e muitas vezes at mesmo entediante. Estas prticas escolares identificam o problema na criana, sem colocarem um questionamento efetivo sobre a qualidade do ensino oferecido.

Os dilemas da educao na ps modernidade so extremamente complexos e discuti-los escapa aos propsitos de meu questionamento. Gostaria apenas de enfatizar que a medicalizao inconseqente das crianas no pode ser vista como soluo mais fcil em favor da manuteno da ordem em sala de aula, obstruindo a curiosidade e a potncia naturais do viver. A obstaculizao de um escoamento satisfatrio para estas motivaes prprias da curiosidade infantil, poder resultar na fabricao de sintomatologias reveladoras de sofrimento psquico em etapas posteriores da vida. foroso reconhecer que o uso de drogas lcitas difundido de forma inadequada no acompanhamento de crianas em idade escolar, sufocando muitas vezes suas inquietaes, pode ser o primeiro sinal verde para o futuro usurio de drogas ilcitas ou para qualquer outro tipo de comportamento de adio, seja pela abertura do precedente, seja pela oportunidade perdida de dar ouvidos s ansiedades que despontam diante dos desafios colocados pela vida.

Uma outra associao bastante preocupante, desta vez entre drogas ilcitas e Viagra, vem sendo feita por um expressivo nmero de adolescentes, como um recurso para promover uma sensao de super-heri e de superpotncia. Neste caso, a associao entre a droga lcita e ilcita concomitante e explcita, relativizando a fronteira prescritiva que habitualmente costumava separ-las.

Avanando mais um pouco na discusso, cabe mencionar um fenmeno de polarizao freqente identificado no comportamento dos jovens, situando-o entre alienao de um lado e rebeldia e participao do outro. Cazuza diz, Vou pagar a conta do analista, para nunca mais ter que saber quem eu sou. Pois aquele garoto que queria mudar o mundo, agora assiste a tudo em cima do muro[13]. Gabriel o Pensador e Lulu Santos dizem Eu vou pra longe, onde no exista gravidade, pra me livrar do peso da responsabilidade, de viver nesse planeta doente e ter de achar a cura da cabea e do corao da gente.[14]

Para encerrar esta apresentao e sem nenhuma pretenso em conclu-la, reflitamos um pouco sobre o aspecto da rebeldia e da participao dos jovens nos processos de transformao do mundo; vejo que a busca da espiritualidade manifesta uma caracterstica desta subjetividade que est sendo chamada de ps moderna, mais especificamente aqui, no recorte impreciso de uma populao jovem. Aps uma breve incurso no universo da msica contempornea, penso que podemos considerar o Rap como um movimento que realiza essa tentativa de aliar a questo da espiritualidade com o desejo de uma transformao poltico-social.

Participei recentemente, de uma defesa de tese de doutorado, na PUC de So Paulo cujo tema tratava do neopaganismo[15] retorno s antigas formas de espiritualidade. Como disse anteriormente, h algum tipo de permanncia na vertigem das transformaes culturais e assim, sempre podemos recorrer a alguma herana que trazemos para responder s inquietaes prprias da sociedade contempornea. A autora aproxima a concepo neo-pag da sacralidade da terra com sua concepo anmica de uma natureza viva, aos pressupostos e ideais do movimento ambientalista. Penso que talvez a questo ambiental seja uma ideologia possvel para o jovem de hoje por concerni-los de maneira especialmente grave, tratando de suas perspectivas de vida futura no planeta. Vejo-a como uma das inquietaes que tenha maior poder de mobilizao entre as novas geraes e atenderia talvez ao apelo de Cazuza: Ideologia, eu quero uma pr viver[16]

Vou encerrar com uma letra de msica de Milton Nascimento e Fernando Brant Encontros e desencontros. O cenrio da msica a plataforma de uma estao de trem que , metaforicamente, a plataforma da vida como um lugar de movimento e de parada, de diferena e repetio.

Todos os dias um vaivm, a vida se repete na estao. Tem gente que chega pra ficar, tem gente que vai pra nunca mais. Assim, chegar e partir so s dois lados de uma mesma viagem. O trem que chega o mesmo trem da partida. A hora do encontro tambm despedida, a plataforma desta estao a vida deste meu lugar.[17]

No modo dialgico de pensar, tal como nos apresentado por Edgar Morin[18]em seus estudos de complexidade, os polos antagnicos tendem a ser vistos como complementares e no excludentes. Assim sendo, antes de focalizarmos as dicotomias geracionais, penso que deveramos ouvir mais os jovens, ao invs de apresentar-lhes o mundo com nossas hipteses explicativas sobre um tempo que ser muito mais deles do que nosso. Transmitir-lhes nossas experincias sim, mas dar tambm a eles a palavra. Em uma mesa como esta, por exemplo, sinto falta de um representante da juventude para dialogar conosco sobre o que estamos produzindo como modelos explicativos sobre o jovem da ps modernidade.

Talvez nos surpreendssemos e constatssemos que a liquidez existe sim, estamos vivendo neste tempo, mas alguns valores se preservam, o que permite um campo comum de dilogo e anseios compartilhados; insisto neste ponto, pois creio que esta concepo diminui um pouco a idia assustadora de um abismo intransponvel entre as geraes, aumentando a conscincia de nossa responsabilidade de pais e educadores constitudos, inevitavelmente, como modelos identificatrios.

De alguma forma, assim como ns o fizemos, em muitos aspectos, os jovens conservam caractersticas das geraes que os antecedem. Neste sentido Belchior tinha razo, eles ainda so os mesmos e futuramente vivero, em certa medida, segundo os modelos de pais que hoje lhes so apresentados por ns. Estamos todos implicados na construo de um futuro planetrio comum[19] e com todas as diversidades e pluralidades existentes entre humanos de todas as faixas etrias, seremos os artfices e partilharemos enquanto espcie, as maravilhas e os horrores deste futuro comum .

Obrigada a todos.

 



* Psicanalista, Doutora em Cincias Sociais PUCSP, Presidente do Instituto de Estudos da Complexidade. www.iecomplex.com.br

[1] Latour, Bruno, Jamais fomos modernos, Ed.34, S. Paulo, SP, 1994

[2] Bauman, Zygmunt, Mal Estar na Ps Modernidade, Jorge Zahar editor, Rio de Janeiro, RJ, 1999. Ver tambm, do mesmo autor, Modernidade Lquida , Zahar ed, Rio de Janeiro, 1999 e tica Ps Moderna, Ed. Paulus, S. Paulo, 1997.

[3] Morin, Edgar, O Paradigma Perdido: a natureza humana. . ed. Portugal,

Publicaes Europa-Amrica, 1973. Ver tambm, do mesmo autor, 1980. O mtodo II – A vida da vida. 2. ed. Publicaes Europa-Amrica.  

[4] Maturana Humberto e Varela Francisco, De Mquinas e Seres Vivos: Autopoiese–a Organizao do Vivo. Ed. Artes Mdicas, Porto Alegre, RS, 1994

[5] Belchior, Como nossos Pais ( letra de msica)

[6] Apocalipse 16 – Arrependa-se – pregador Luo. ( letra de msica)

[7] Deleuze, Gilles, A Dobra: Leibiniz e o Barroco, Papirus, Campinas, SP, 1991

[8] Renato Russo, Pais e Filhos. ( letra de msica)

[9] Apocalipse 16, Meus inimigos esto no poder. ( letra de msica)

[10] MVBill, S Deus pode me julgar ( letra de msica)

[11] Gabriel o Pensador, Retrato de um Playboy ( letra de msica)

[12] Klimick, Carlos, Onde Est o Heri Artigo apresentado no I Simpsio O Outro, do Laboratrio da Representao Sensvel, Departamento de Artes e Design - PUC-Rio; Agosto de 2002

[13] Cazuza, Ideologia ( letra de msica)

[14] Gabriel o Pensador e Lulu Santos Astronauta ( letra de msica)

[15] Rosalira Santos Oliveira, tese de doutorado Tecendo Vnculos com a Terra. Paganismo Contemporneo: Percepes, Valores e Viso de Mundo. , apresentada na PUCSP/ Cincias Sociais, em 05 de outubro de 2004.

[16] Cazuza, Ideologia ( letra de msica)

[17] Milton Nascimento e Fernando Brant, Encontros e Desencontros ( letra de msica)

[18] Sobre a dialogia e pensamento complexo ver Morin, Edgar, Mtodo 1,2,3,4,5 e 6, Editora Sulina, Porto Alegre, RS.

[19] Morin, Edgar, Mtodo 6, tica, Ed.Sulina, Porto Alegre, 2005.