UMA TICA DE RENNCIA AO IDEAL de SALVAO

Universidade Federal do Esprito Santo, 2005.

Gostaria de poder pensar com vocs, no curso desta apresentao, sobre trs questes que me tm ocupado e que abordarei aqui de forma breve, visto que pretendo desenvolv-las ao longo deste semestre, como preparao para os dois importantes eventos que faremos acontecer este ano, no Brasil: o 1 EBEC e o 2 Congresso Mundial de Transdisciplinaridade:

1)         Os equvocos de um possvel Triunfo da metodologia da Complexidade e da Transdisciplinaridade

2)         Afirmar, como premissa tica, a necessidade de renunciar s diferentes mscaras com que se apresentam, no decorrer da histria da humanidade, os ideais de salvao.

3)         O lugar da espiritualidade na concepo de uma nova aliana e de um reencantamento do mundo

 

Em vrios momentos de sua obra, E. Morin insiste em reafirmar que como a Complexidade s foi tratada marginalmente ou por autores marginais, como eu, ela suscita mal entendidos fundamentais. O primeiro mal entendido consiste em entender a complexidade como receita, como resposta, em vez de consider-la como desafio e como uma motivao para pensar o problema da complexidade , antes de tudo, o esforo para conceber um incontornvel desafio que o real lana sobre nossa mente.[1]

Temos assistido a um movimento que gradativamente ganha fora em nosso pas, inclusive nas universidades, o que um fato de considervel relevncia, para o bem e para o mal,  e o fato de que estejamos hoje aqui reunidos e que tenhamos mais dois eventos importantes ainda neste ano ( o 1 Encontro Brasileiro de Estudos da Complexidade e o 2 Congresso Mundial de Transdisciplinaridade) revelador e mesmo uma resultante deste processo que podemos chamar, considerando-se o ttulo deste evento: um caminho Rumo Transdisciplinaridade, ou  ainda, um caminho rumo implementao de um novo paradigma, o paradigma da complexidade. Vemos se delinear e ganhar forma, um movimento que trabalha por uma reforma do pensamento, cuja necessidade foi prenunciada por Gaston Bachelard, j em 1932, quando ele escreveu o Novo esprito cientfico ainda que, naquela ocasio e nos anos que se seguiram, no se tenha dado muita ateno a ele. Bachelard j anunciava a perturbao psicolgica trazida pela dvida sobre a objetividade dos conceitos de base, assim como,  o fato de por em dvida idias aparentemente evidentes, fazendo desdobrar as idias simples, desvelando a complexidade do real. ainda a escrita potica de Bachelard que tomo de emprstimo: Vivamos, de resto, no mundo Newtoniano, como numa manso espaosa e clara. O pensamento newtoniano era, acima de tudo, um tipo maravilhosamente lmpido de pensamento fechado; dele s se pode sair por arrombamento.

Digo que este movimento, ou ainda, este processo, vem brotando e se fortalecendo nos diversos segmentos da sociedade e tambm, no mundo acadmico e agora me explico, porque disse acima, que isto se passa, para o bem e para o mal. Para o bem, pois, inegavelmente, isto que lhe confere uma legitimidade, retirando-o, de certa forma, da marginalidade, como Morin no se cansou nunca de se dizer ter sido, ele mesmo, um autor marginal. Em entrevista  ao Le Monde, reproduzida pela Folha de S. Paulo( 09/01/05) ele nos diz: No incio, muitas idias podiam parecer inslitas ao leitor e corri o risco de ser rejeitado. Hoje, algumas de minhas idias comeam a ser utilizadas. Mas, como no sou catedrtico de uma cadeira que produza discpulos, minhas idias se multiplicam moda vegetal, por disseminao, sem que se possa prever onde as sementes vo cair e germinar.

Creio, que o poder de disseminao das idias e das aes pela via das pesquisas acadmicas tm imenso potencial de desdobramento e vejo isto claramente acontecendo com o GRECOM e o COMPLEXUS, uma vez que, a partir de suas pesquisas na ps graduao, muitos professores retornam a seus centros acadmicos de origem levando esta semente e  produzindo efeitos multiplicadores igualmente imprevisveis. Creio ainda que Morin compartilhe este pensamento, pois foi mesmo uma recomendao que ele me fez, pessoalmente, em termos de uma direo para o funcionamento do IEC: que tentssemos preservar nossa autonomia enquanto uma instituio no acadmica, mas que plantssemos antenas em diferentes universidades, mantendo assim um trnsito necessrio entre o dentro e o fora, entre a centralizao e a pulverizao, entre a autonomia e a cooperao, funes estas necessrias manuteno de tudo aquilo que vive.

Qual seria o risco, ento, implicado neste interesse crescente pelo pensamento complexo e transdisciplinar?

Aproveito para mencionar um outro pensamento de Morin, do qual participo inteiramente e que tem aqui a inteno de esclarecer esta minha indagao: Precisamos saber que todo pensamento e toda ao comportam risco. Fico espantado quando se denunciam pensamentos perigosos: s se pode pensar perigosamente( para si, para outrem, para o poder, para a sociedade.) Fico espantado quando se ignora que a ao perigosa: s se pode agir perigosamente e a cegueira para o perigo o maior perigo[2] Este pensamento se aplica a todas as esferas do agir humano e interessa-me particularmente quando se refere aos riscos implicados na pesquisa cientfica e suas utilizaes e agenciamentos com os poderes econmicos. Assim, a recente aprovao pelo governo Brasileiro do projeto que permite a utilizao de clulas tronco dos tecidos embrionrios para a pesquisa cientfica, objetivando adentrar uma nova era na medicina, que vem sendo chamada medicina regenerativa. Isto muito interessante, pois que exatamente um dos preos pagos pela complexificao dos organismos vivos , exatamente a perda de parte de sua capacidade de regenerao. Ora, estamos assistindo um momento que tem, simblicamente, um significado importante, pois trabalha-se na direo de otimizar os ganhos deste processo de complexificao e minimizar as perdas inevitveis deste percurso, a maior delas, a morte, fruto da sexuao,visto que, alguns protozorios, unicelulares no morrem, no deixam restos, mas se reproduzem por diviso binria.

Sabendo ento que todo pensamento e toda ao comportam risco, penso que um dos maiores riscos implicados neste pensamento e nesta ao em torno do qual estamos aqui reunidos seria a crena de um possvel triunfo desta proposio. Mais do que isto, qualquer construo de ideais salvacionistas que porventura possam se ancorar  e pretender se fundamentar neste novo paradigma. Pois creio que, se a complexidade triunfar, ela fracassar, pois este desejo trairia o que h de mais intrnseco a esta nossa aposta, ou seja, a manuteno da diversidade, a conscincia de que os paradigmas se sobrepem e que no se trata de descartarmos o clssico para adotarmos o novo; que a religao inclui a separao e que se esta separao resulta em segregao, ento ela pode ser vista como um mal, mas se vai de encontro a um agenciamento simbitico, por exemplo, ento a separao presta um servio vida, pois que desde Herclito j se conhece a frmula morrer de vida e viver de morte.  No existe paraso terrestre possvel, no no sentido de erradicao dos conflitos e extirpao do mal, ainda que, em nosso imaginrio, isto no deixe de se reinscrever permanentemente ao longo de nossa histria humana, apresentando-se sempre com diferentes mscaras.  Precisamos romper para sempre com a idia de luta final, de futuro radioso, de soluo final para a questo social, de reconciliao definitiva do homem com a natureza e consigo mesmo, nada de futuro radioso, que possa por termo a todos os males de nossa existncia. Haver sempre possibilidade de regresso, fracasso, runha, desintegraco,, haver sempre renascimento dos fenmenos de desigualdade, de dominao, de explorao que nos obriguem a lutar sem trgua contra novas desigualdades, as novas dominaes, as novas exploraes. ( La mthode II, p.451)

Conclui-se da, que o que existe sempre o processo, o caminho, do qual s podemos saber a posteriori, premissa que caracteriza a metodologia da complexidade, como racionalidade aberta, que integra saberes mltiplos, religando natureza e cultura, cincias exatas e humanidades e reinserindo a dimenso da arte, da intuio e dos mitos como ferramentas ativas e potentes nos processos de acesso ao real.

Lacan disse isto, certa vez, acerca da psicanlise, que o seu sucesso decorreria necessariamente do fato de que ela possa em alguns nveis, estar sempre fracassando, mesmo em suas possibilidades de dar sentido ao real. Lacan, que ao contrrio de Freud teve uma educao catlica e um irmo que era monge beneditino, afirma em Le Triomphe da la Religion, que a verdadeira religio a crist, a romana e que ela triunfar no somente sobre a psicanlise, mas sobre muitas outras coisas ainda, visto que ela indestrutvel e isto, ele diz, se deve sua enorme capacidade de dar ou produzir sentido para coisas que outrora foram apenas naturais. disto que se trata tambm, entre outras coisas, na psicanlise, mas Lacan a considera um sintoma do mal estar na civilizao e, como tal, poder sobreviver ou no, mas no triunfar.

Chegamos ento ao ponto de nos perguntarmos sobre o lugar da espiritualidade, e eu o fao porque este termo consta do texto convocatrio de nosso seminrio de hoje, portanto, me parece pertinente que nos indaguemos sobre isto, ainda que eu tenha, no momento, muito pouco ainda a dizer sobre a questo.

Para muitos autores, dentre eles, Morin, Prigogine, Henri Atlan, Maturana, Varela, Deleuze, Isabelle Steingers, Bruno Latour, referncias tericas nas quais o IEC tem apoiado suas reflexes e suas prticas, a nova aliana no requer necessariamente um apelo transcendncia no sentido de uma divindade fora de ns. Talvez tenhamos a uma questo epistemolgica importante: como situar a questo do sagrado? Como conceitualizar o que chamamos a dimenso espiritual?

Lembremos que, para Foucault, a questo da espiritualidade no apresenta nenhuma relao com o religioso, mas refere-se to somente s prticas de cuidado de si e do outro correlacionadas e interrelacionadas por ele em seu seminrio A Hermenutica do Sujeito.

Pessoalmente, tenho a impresso, que esta separao entre imanncia e transcendncia mais uma daquelas divises que deveramos evitar, por talvez se tratar de mais um vcio de nosso pensamento. A teologia crist, at onde alcanam meus conhecimentos, afirma a existncia de Deus no interior de cada um de ns, no na forma de uma centelha divina, mas de uma totalidade. Sendo assim, talvez se trate antes de uma possibilidade de conectar uma dimenso onde a distino dentro e  fora deixa de ter significao, tratar-se-ia antes, talvez, de uma possibilidade de acessar este outro nvel de realidade, para mencionar o pensamento de Bassarab Nicolescu. Em Kazantizaks, Ascese, os salvadores de deus, transcender significa libertar deus que se encontra enclausurado no interior da matria e para Morin, em sua concepo sobre a noosfera, Deus existe realmente como ser de esptito, no substrato neuronal de seus fiis.

De toda forma, assim como a psicanlise fracassaria se triunfasse, o mesmo aconteceria com o paradigma da complexidade e da transdisciplinalidade. Trata-se, isto sim, de sobreviver na diversidade e na adversidade.

Morin nos fala que preciso resistir crueldade do mundo e crueldade humana. Pela renncia da salvao abrimos para a tica da solidariedade entre os irmos e ao apelo fraternidade: sejamos irmos porque somos solidrios na aventura desconhecida. impossvel que o mal desaparea, dizia Scrates no Theeteto. Sim, mas podemos dizer, com Morin, que necessrio lutar para impedir que ele triunfe.

 

 



[1] Morin, Edgar Cincia com Conscincia, Bertrand Brasil, Rio de Janeiro,1996, p.176

[2] Morin, E. Para Sair do sculo XX, Ed Nova Fronteira, Rio de Janeiro, 1986, p.276