PENSAMENTO COMPLEXO:UMA FILOSOFIA DA INCERTEZA OU,

“O RETORNO DO SUSHI, NO REINADO DO BIG-MAC.”

O que queremos dizer quando falamos em Pensamento Complexo?

Tomemos primeiramente o termo complexo. Gostaríamos de dizer que esta palavra, complexidade, não parece ser uma nomenclatura muito conveniente, pois não é, na verdade, muito esclarecedora em relação à função de indicar aquilo sobre o que se quer falar; acha-se por demais ligada, no imaginário social, à uma idéia psicológica de complexo como marca, ou sentimento de inferioridade ( complexado). Além disto, é freqüentemente utilizada como recurso diante da necessidade de se falar sobre algo à respeito do qual não se saberia dizer muita coisa. “ O que você acha sobre sobre tal assunto?” _ “ Bem... você, sabe, este tema é muito complexo”, ou seja, o termo serve como um salvo conduto, como se o sujeito quisesse dizer ao seu interlocutor: “não esperem muito de mim...”

O sentido que gostaríamos de dar à este termo, é aquele que deriva do latim complexus, que significa dizer, aquilo que se tece em conjunto. O termo adquire, em teoria do conhecimento, o lugar de um indicador que aponta para o reconhecimento de uma evidência: o objeto a ser conhecido é complexo. E o que significa isto?

Significa dizer que a ciência evoluiu na crença de que para conhecer e dominar os objetos precisaria decompô-los em unidades cada vez menores: decompor para conhecer; conhecer significa então, neste contexto que chamaremos de ciência clássica, descrever suas qualidades, quantificá-las, mensurá-las, depreender as relações de causa e efeito.

Este método, que chamamos de analítico, contribuiu, sem dúvida, para o desenvolvimento da ciência, mas também empobreceu a realidade, porque retirou os objetos de seu contexto, dividindo o mundo cognoscível em disciplinas, cada uma delas com suas teorias  para explicar seu pedaço de mundo. Mas o mundo cognoscível rebelou-se diante deste despudorado projeto de desmembrá-lo e devorá-lo aos pedaços e nos disse com sua sabedoria: “Se desmembrarmos um sushi para comê-lo, ele perderá o encanto, não só do ponto de vista estético, mas do ponto de vista do sabor; ou seja, só podemos conhecer o sabor de um califórnia, se o devorarmos inteiro. Aí sim, sentiremos ao mesmo tempo todos os sabores de seus múltiplos ingredientes, reunidos na experiência de um sabor novo, constituído não pela soma, mas pela combinação cuidadosa destes ingredientes em suas diferenças de qualidade e quantidade.”

A metáfora se justifica, não só porque o convite para esta fala está referido à uma comemoração pelo dia da nutricionista, mas também porque está em consonância com a proposta de Edgard Morin, em seu mais recente livro, ainda não traduzido, intitulado L’Inteligence de la Complexité, no sentido de uma nova nomenclatura para o Pensamento Complexo. Neste livro, Morin sugere Ciência das Unidades Múltiplas, coisa que um combinado ilustra muito bem, e que serve ainda para dirimir qualquer confusão, que frequentemente se faz, entre complexidade e holismo. Não é também sem motivo, que o primeiro exemplo que nos ocorreu derive da culinária Japonesa, visto que a cultura oriental manteve-se livre, em muitos aspectos, dos projetos racionalistas e empiristas que dominaram o ocidente nos secs. XVII e XVIII. ( vejam a complexidade da culinária de algumas regiões do Brasil)

Retomemos um ponto de vista histórico para melhor acompanharmos o que se passou com os ideais do conhecimento.

Acompanhando um pouco o percurso deste desejo de certeza na construção do conhecimento humano, podemos dizer que na idade média, as verdades absolutas eram sustentadas pelos dogmas e doutrinas religiosas. Já o séc. XVI se caracterizou por grandes transformações na visão de mundo do homem ocidental, tendo sido marcado pela paixão dos Grandes Descobrimentos, das Grandes Navegações, reveladoras de outras culturas, outros costumes, quando se acreditava haver uma única e correta maneira de viver, vestir-se e  comportar-se.

Este confronto com tamanhas diferenças, aliado à um enfraquecimento da Igreja pelas guerras religiosas, abalou imensamente o sólido edifício das certezas medievais, culminando por acender um clima de ceticismo, protagonizado por Montaigne, que proclamava uma renúncia aos ideais de certeza.

O séc. XVII desperta dentro de uma atmosfera que fomentava os anseios de reencontrar um caminho de sustentação para a verdade, o que se traduziu pelo desejo de encontrar um método para a ciência.

De um lado tínhamos o empirismo de Francis Bacon, que visava sustentar a ciência pela observação e pela experimentação e de outro, tínhamos o racionalismo de Descartes, buscando recuperar através da razão, a idéia de certeza.

Antes disto, os cientistas eram também filósofos e muitas vezes, artistas. Poderíamos citar alguns exemplos bem sucedidos deste personagem misto de cientista, filósofo e artista, Leonardo da Vincci, Galileu e mesmo Aristóteles, Decartes, entre outros, pois a atividade do conhecimento estava entregue às Filosofias Naturais que, posteriormente se dividiram em Ciências Naturais e Filosofia, ficando a Arte também destituída desta função de possibilitar um acesso ao conhecimento do real.

Até meados do séc. IXX, a humanidade vivenciou um projeto positivista, que descendia, do ponto de vista filosófico, das idéias de Descartes e do ponto de vista da ciência, da mecânica Newtoniana

Com o advento das geometrias não Euclidianas, da cosmologia, da física quântica e da teoria da relatividade e das conquistas da biologia molecular, o Homem se defrontou com o fato de que, as leis que regiam o universo visível, não funcionavam quando se tratava do infinitamente grande ou do infinitamente pequeno. Ou seja, o infinito coloca problemas que até então não haviam sido formulados. O infinito coloca em cheque as certezas, objetivo principal na busca do conhecimento até então. A invenção da psicanálise surge aí, neste caldo cultural da segunda metade do séc. IXX, contribuindo também de forma decisiva para o desmantelamento da racionalidade clássica, destituindo este sujeito pleno de consciência, tornando-o refém dos movimentos pulsionais e de seus desejos inconscientes.

Tomemos agora, para nossa reflexão, o termo pensamento. Por que e para que pensamos? Seria o pensamento uma atividade espontânea?( Platão) Ou somos forçados a pensar? ( Nietzsche) As respostas a estas perguntas correspondem a diferentes escolas de filosofias. 

Poderíamos não pensar? Atualmente, pelo menos, para não pensar temos que fazer um esforço. A meditação é um trabalho que nos conduz ao abandono do pensamento; e não é fácil parar de pensar. 

Pensamos para conhecer? Para preencher o vazio da existência? Ou para deduzir do ato de pensar, o fato de existir, como queria Descartes.

Para Nietzsche, autor de grande interesse para o pensamento Complexo, pensar não é repetir compulsivamente, idéias encadeadas atrás de idéias, como muitas vezes fazemos quase sem sentir, mas pensar corresponde a uma atividade criadora que não acontece de forma espontânea, de dentro para fora. Ao contrário, somos convidados a pensar pelos acontecimentos. 

E o que seriam acontecimentos? Seriam fatos ou situações surpreendentes, inusitadas, diante das quais não temos resposta imediata ou apriori. O acontecimento nos coloca diante da incerteza, princípio fundamental para o Pensamento Complexo.

Queremos dizer que pensar é conhecer e que conhecer é criar. Conhecer não é desvelar uma verdade que estava lá, em algum lugar,escondida, quieta, esperando ser encontrada ou descoberta. Conhecer é também inventar o mundo, inventar verdades. Sim, porque nós, os seres humanos, inventamos verdades e acreditamos muito nelas e mais do que isto, nos orgulhamos muito de nossas verdades.

O que é problemático atualmente é que a sustentação das verdades vem se tornando cada vez mais difícil, na medida em que o instrumento desta sustentação vai se deslocando de Deus para a ciência e esta vem sendo colocada num lugar reificado. Observamos então, uma permanente sucessão de verdades num circuito de produção e destituição, pois é da natureza da ciência a produção de verdades transitórias. 

Isto cria um problema, porque lidamos mal com a transitoriedade. O homem em sua natureza mortal, anseia pela eternidade das verdades como garantia para sua falência de ser.

Voltemos à questão que é então o pensamento Complexo? É um novoprojeto que é o projeto de religar os objetos a seu contexto, fazer dialogar as disciplinas para reencantar o mundo, para nos aproximarmos de uma experiência que preserva a totalidade sem perder de vista as diferenças. Assim, a totalidade de uma floresta não extingue as particularidades de cada árvore, como uma teoria geral da psicanálise, por exemplo, não pode desconsiderar o mito individual de cada neurótico. O pensamento Complexo religa, mantendo, contudo, a possibilidade de distinguir          ( distinguir sem separar). Assim, tudo o que existe deve ser tomado como um sistema complexo, dotados de milhares de elementos que interagem criando uma rede de relações e de relações entre as relações, onde nenhuma atividade tem lugar isoladamente e cujo funcionamento escapa à previsibilidade dos sistemas lineares.

Morin nos diz que não é suficiente derrubar os muros entre as disciplinas, mas seria necessário dar uma nova organização para o pensamento: uma organização  que aceite o paradoxos ao invés de tentar extirpá-los; que possa compreender que a ordem não exclui a desordem, que o uno não exclui o múltiplo e que duas idéias podem ser verdadeiras ao mesmo tempo (o que se encontra freqüentemente nas geometrias não euclidianas, quando somos colocados, por exemplo, diante de um indecidível). Neste caso, fazemos escolhas das quais derivam caminhos diferentes e igualmente verdadeiros.

A assunção do paradoxo como inerente à existência, implica uma dialógica, que seria uma lógica da não exclusão ( o abandono do teorema do terceiro excluído dá lugar à uma nova racionalidade matemática), uma lógica da tolerância para com o paradoxo.

O Pensamento Complexo evita a dissociação cartesiana entre sujeito e objeto, entre causa e efeito ( linearidade), razão e emoção, e ao criar um projeto solidário entre os conhecimentos, propõe, como conseqüência, uma ética da tolerância para com as diferenças e da solidariedade entre os seres humanos, favorecendo o exercício de sua liberdade e de sua criatividade.

Para concluir diremos, faremos apenas mais um comentário que diz respeito à questão metodológica. Para as ciências clássicas, a metodologia científica visa construir um caminho previamente traçado que conduza, sem erros, ao lugar onde se quer chegar. 

O método que nos é proposto pelas ciências da complexidade, é, ao contrário, um caminho que se faz ao andar. Como no poema de Antônio Machado, tomado frequentemente como metáfora para descrevê-lo: “Caminhante non hay caminho, se hace caminho al andar” . Ou ainda, se tomarmos por guia o místico católico S. João da Cruz: “Para alcançares o ponto que não conheces, deves seguir o caminho que não conheces.”

Todos aqueles que se aventuraram pelos caminhos de um tratamento analítico, sabem, por experiência, que não podemos saber à priori, onde chegaremos e ainda assim, o caminho a seguir também não está traçado. Temos apenas algumas diretrizes, mas nenhuma receita. 

A implantação deste novo paradigma requer sobretudo, uma reforma do pensamento que passa, necessariamente pela educação e pela educação dos educadores. Os maiores obstáculos, em nossa opinião, residem 1) na dificuldade de renunciarmos aos anseios de estabilidade narcísica, na necessidade de fixidez, que nos garante ainda uma ilusão de controle sobre um universo em permanente transformação, acalmando nossa angústia diante do desamparo 2) nas tendências ao antropomorfismo que insiste em separar natureza e cultura, quando sabemos que os estudos de etologia vêm diminuindo progressivamente as diferenças entre os homens e os animais.  

Dentro deste ponto de vista, uma função ética da psicanálise na  polis, em consonância com o Pensamento Complexo, implicaria sustentar a possibilidade de lidar com angústia produzida pela incerteza e manter assim no espírito humano, uma abertura para o devir e para a criação. 

Agradeço à atenção de vocês e me coloco à disposição para iniciarmos uma conversa.



                                     



 

 Palestra proferida no Hospital Psiquiátrico de Jurujuba, no Departamento de Nutrição, 1998.

 Nem tão novo assim, visto que os pré-socráticos já pensavam desta maneira e o pensamento oriental, sem querer reduzi-lo a um pensamento unificado, manteve sua ligação com a complexidade dos objetos.