Organizao e Complexidade
[1]
Inicialmente gostaria de
agradecer este convite para estar aqui, no NPC PUC/SP, no somente pela alegria
de compartilhar-mos nossas idias, mas tambm pela oportunidade de iniciar um
projeto de teorizao acerca de nossa experincia no Rio de Janeiro, com o
NPC/RJ.
J h algum tempo venho
pensando em problematizar teoricamente esta experincia de construo deste organismo social com o qual estamos
envolvidos e empenhados h um ano, desde o CILPEC. Somos um grupo
transdisciplinar ( e por isto entendamos profissionais de humanas , artes e as
ditas cincias exatas) orgnicamente impregnados pelo pensamento complexo, de
tal forma que, este encontro representou para todos ns, um acontecimento que,
de maneira feliz e inesperada marcou uma nova orientao em nossas trajetrias
profissionais, nas quais estvamos cada um de ns mergulhados, at ento,em
algum tipo de solido e de carncia de interlocuo.
Em sua constituio, o grupo
se caracterizava por uma maioria de integrantes com trajetrias de inseres
problemticas em instituies de organizaes tradicionais[2], entendendo-se problemtica
no no sentido patolgico mas no sentido daquilo que interroga, problematiza e
produz estranhamento em seu meio, resultando frequentemente em processos de
excluso ou de auto exlio, o que remete solido acima referida.
H um nvel de solido
inevitvel e necessrio a todo processo produtivo, mas aqui refiro-me a um
exlio compulsrio que pode resultar num processo de despotencializao do
indivduo em suas possibilidades criadoras.
Vimo-nos ento diante de um
desafio, que se traduz na necessidade imperiosa, porque visceral, de
empreendermos um outro tipo de organizao que temos tentado definir como um
desejo de auto-poisis, desejo de auto-organizao, de organizao expontnea.
Em nosso primeiro boletim,
este desejo, que marca tambm um compromisso, foi descrito da seguinte maneira:
O grupo organizou-se sob a
forma de uma rede intensiva e expansiva apostando numa construo que tem como
caracterstica a transversalidade (Guattari)
Cientes dos riscos que envolvem os procedimentos de institucionalizao
(burocratizao, repetio de modelos institucionais desgastados etc...),
encaminhamos este processo encarando-o como um desafio que se situa na
dialgica do dentro-fora, ou seja: como manter vivo um pensamento do fora (
Michel Foucault), inserindo-se, ao mesmo tempo, nas malhas dos sistemas
instituidos? Como lidar com o paradoxo de estar dentro, mantendo o olhar e as
caractersticas daquilo que est fora, daquilo que recusa sua inscrio, no
cessando porm sua insistncia?
Dito de outra forma, como
favorecer que o Ncleo para o Pensamento Complexo RJ possa se auto-organizar
como um sistema aberto em permanente troca com seu meio, semelhana dos
organismos vivos ( Maturana), ainda que longe do equilbrio (Prigogine)?
Pretendemos, portanto, que
nossas apostas tericas possam ser experimentadas em nossa prtica
institucional cotidiana, como um incessante enfrentamento deste desafio.
Minha formao de psicanalista
me conduz ao vcio de ser provocada por uma prtica, a partir da qual, e
somente a partir dela, uma teorizao pode emergir, na tentativa, sempre a
posteriori, de dar conta dos processos vividos, ainda que dentro de uma
perspectiva sempre parcial.
Neste sentido, este convite de
voces funcionou como um fator desencadeante que vem colocar em ato meu desejo de produo.
Pensar a organizao de um
grupamento social a partir da
lgica das organizaes naturais requer algum cuidado.Tomaremos como guias
neste primeiro momento de nossa elaborao, Maturana e Varella ( A rvore do
Conhecimento e De Mquina e Seres Vivos - Autopoiese: A organizao do Vivo.) e
Atlan, Entre o Cristal e a Fumaa - Ensaio sobre a organizao do ser vivo) e
Edgar Morin ( O Mtodo 1 - A Natureza da Natureza).
Tomaremos a questo da lgica
de organizao dos organismos vivos e suas propriedades de auto-organizao
estendendo estas consideraes a
outros sistemas e organizaes , especialmente as humanas, no caso que estamos
trabalhando agora.
Aqui comeam os problemas, que
no so particulares deste estudo em questo, mas referem-se de modo mais amplo
epistemologia da complexidade. Estamos falando de um ponto crucial, que
representa sempre um lugar de conflito neste embate que se trava quando se fala
em mudana de paradigma. Trata-se de um combate de foras, de um corpo a corpo
que vivenciamos cotidianamente em nossos contatos, especialmente em ambiente
acadmico.
Refiro-me aqui ao contrabando
de idias, to bem definido e assumido por Edgar Morin e, por um outro lado,
recente polmica levantada pelo caso Alan Sokal, que veio materializar um
cabedal de crticas no sentido da
falta de rigor e da inconsistncia destes procedimentos estensivos de uma
disciplina outra. Trata-se ao meu ver, de uma questo que precisamos
enfrentar, pois a que se concentram uma das maiores oposies ao pensamento
complexo: a transposio de conceitos
Recentemente assisti a uma
palestra proferida por um cosmlogo, Luiz Alberto Oliveira, que trabalha
conosco no NPC/RJ. A palestra foi proferida no departamento de Fsica de uma
Universidade do Rio de Janeiro. Nosso colega estava incumbido de falar sobre verdade e criao nos discursos
cientfico, filosfico e artstico. Seu discurso despertou oposio e resistncia significativas. Os
argumentos moveram-se entre moes de apio A. Sokal , apostas no ideal de
verdade como aquisio e na totalizao do saber. Ou seja, simplificando, uma
grande parcela do auditrio manifestou sua posio em defesa da existncia de
uma verdade que, se no foi apreendida em sua totalidade, um dia o ser,
dependendo para isto apenas do desenvolvimento da cincia.
Ora, esta posio indica uma
crena ingnua na existncia de um
real que se mantm paralizado espera de seu desvelamento. claro que os
desenvolvimentos da cincia nos permitem uma maior aproximao na apreenso do
real, mas claro tambm que este real se transforma incessantemente,
apresentando-se sempre como ponto de fuga. Assim quando chegamos a um
determinado ponto do conhecimento do real, ele no estar mais l, mas se
apresentar mais adiante, acenando e provocando-nos com suas questes.
O que dizer deste
comportamento, vindo de pessoas to bem formadas intelectualmente? Isto
importante ser questionado no s porque aponta para uma diferena radical em
relao aos pensamento da complexidade mas tambm porque, quando falamos da
cincia contempornea e suas contribuies para as premissas do novo paradigma,
temos que ter claro que estes achados parecem no afetar substancialmente o
esprito ou a mentalidade do cientista comum em seu trabalho cotidiano e em
suas relaes com colegas de outras reas.
Penso que isto se d porque o
pensar complexo requer uma operao mental de natureza psquica, que podemos
pensar em termos de um desapego em relao s exigncias egicas de manuteno de estabilidade e
dos ideais de permanncia. Neste sentido, independe do grau de informao
terica ou erudio intelectual do pensador. O pensar complexo requer uma
operao psquica da rdem de uma ruptura narcsica, que permita ao sujeito
suportar a angstia despertada diante da no totalizao do saber.
Isto , com certeza, minha
viso psicanaltica da questo, que me conduz a afirmar como funo tica da
psicanlise na plis, trabalhar no sentido de sustentar a possibilidade de se
lidar com esta angstia produzida pela incerteza.
Ainda dentro desta questo
epistemolgica, as exigncias de consistncia, parecem desconhecer que o preo da consistncia a eterna
incompletude[3]. Aprendemos
com as geometrias no euclidianas, que a matemtica s pode ser consistente
quando se atm a determinados limites. Quando lanamos nosso olhar sobre o
infinito, deparamo-nos com os paradoxos, com a coexistncia de duas verdades distintas,
igualmente verdadeiras, sobre a mesma questo. Enfrentamos o problema dos
indecidveis, do fim das certezas, e da inconsistncia da matemtica.
Se atualmente, no nos mais
possvel ignorar as questes trazidas pelas abordagens sobre o infinito (
infinitamente grande cosmolgico e o infinitamente pequeno da biologia
molecular e da fsica quntica), como recolocar a questo da consistncia?
Seguindo os ensinamentos de
Ricardo Kubrusly, nosso colaborador em matemtica, extremamente simples provar
a consistncia de uma tautologia. Ora, se Edgar Morin propem uma lgica
recursiva e se muitas crticas recaem sobre esta lgica por seu aspecto
tautolgico, como se isto fosse insgnia de inconsistncia, seria possivel
provar matematicamente a consistncia da lgica recursiva?
Sabemos que crticas
freqentes dos opositores recaem sobre a questo da consistncia e da prtica
de contrabando de idias no mbito do Pensamento Complexo.
Retomo a questo qual me
propuz: refletir sobre a possibilidade de utilizar a lgica de organizao dos organismos
vivos para pensar as organizaes sociais dos seres humanos. Uma extenso
imediatamente tachada de organicismo e vivamente combatida como tal.
Entretanto, os perigos - lgicos e polticos - do organicismo so hoje
suficientemente conhecidos para que possamos evitar cair em suas armadilhas,
mas sem rejeitar o que o estudo dos sistemas naturais pode nos ensinar em
matria das possibilidades lgicas concernentes organizao em geral [4].
A preocupao com o organicismo,que
Atlan considera ultrapassada, decorre do fato de que os sistemas sociais sejam
considerados como organizaes artificiais, o que nos coloca diante de um
problema extremamente relevante na contemporaneidade: a impossibilidade de se
distinguir com clareza o que seria natureza e o que seria artifcio.
( Fragmento de Palestra
proferida no COMPLEXUS da PUCSP, em 2000, por Tereza Mendona)
[1] Fragmento de palestra feita no COMPLEXUS, na PUCSP, em 2000.
[2] predominantemente verticalizadas, com regras rigidas de funcionamento, um forte esquema de emperramentos burocrticos e,consequentemente, avessa s abordagens inovadoras.
[3] Comunicao de Ricardo Kubrusly no curso ministrado em agosto e setembro no NPC/RJ sobre o Teorema de Gdel.
[4] Atlan, H. Entre o Cristal e a Fumaa - Ensaio sobre a organizao do ser vivo. Rio de Janeiro, 1992, Zahar ed., p.10