Olhar transdisciplinar e cincia contempornea

No esforo de suas realizaes, as cincias contemporneas vm revelando a hipercomplexidade do real, no ponto mesmo em que a pesquisa avana em direo sua apropriao.Trata-se de uma vertigem incessante que caracteriza a aventura do conhecimento: este progressivo movimento de fuga do real, fazendo-nos adentrar a intrincada teia de relaes que se revela por detrs da simplicidade dos fenmenos.

Este estado da arte de nossas produes culturais,  requer a constituio de grupos de pesquisas que aproximam diferentes competncias at ento afastadas pelas fronteiras disciplinares. O exlio disciplinar  , certamente, uma necessidade inerente ao esforo de aprofundamento dos conhecimentos especficos requeridos por cada esfera do saber, mas as exigncias de amplitude territorial na qual se inserem nossos atuais objetos de estudo no nos deixam muitas alternativas. A ecologia das idias, para utilizar uma expresso cara a Edgar Morin, torna-se cada vez mais uma estratgia para lidar com as mais relevantes questes de nosso tempo.

Os dois aspectos acima destacados apontam a necessidade do olhar transdisciplinar na construo do conhecimento, tendncia que, gradativamente, vem se difundindo nos meios acadmicos.

Talvez nenhum campo do conhecimento coloque to em evidncia esta necessidade de religao dos saberes quanto o fazer contemporneo da biotecnologia, envolvendo engenharia gentica, ciberntica e farmacologia, mobilizando enorme interesse social e curiosidade intelectual, dada a amplitude das questes ticas que coloca para o futuro da espcie humana. Profundas mudanas em nossos sistemas de valores e costumes adviro de suas ofertas, tornando impossvel pensar  a sociedade contempornea se no discutirmos a lgica recursiva que recobre sociedade e tecnologia.

Via de regra, a questo mais inquietante que emerge deste solo de possibilidades, refere-se aos temores despertados pelo desenvolvimento da habilidade para reprogramar a vida e sua conseqente abertura para transformao da natureza humana. Se tivermos esta competncia, e tudo indica que isto ocorrer, coloca-se a questo: teremos este direito? Ou devemos proceder ao sacrifcio desta pulso do conhecimento, destes anseios antropolgicos mais longnquos, seja de imortalidade, seja de gestao  fora do tero, encenadas desde os mitos gregos at os judaico-cristos.

Aqui nos defrontamos com a espinhosa tarefa de definir o conceito de Natureza Humana considerado por Hanna Arendt em a Condio Humana, como empreendimento de improvvel sucesso: seria como pular sobre nossa prpria sombra. Na hiptese de que fosse possvel precisar este conceito, pensar a alterao da natureza humana pelas mos do homo creator nos levaria de fato a um futuro ps-humano? Ou, ao contrrio, seria parte de nossa prpria natureza, este processo incessante de se auto transformar? Recoloca-se aqui o tema da distino entre natureza e cultura, dicotomia que a epistemologia da complexidade se esfora por destituir.

Caberia ainda chamar a ateno para a imensa impregnao das mitologias gregas e judaico crists, nas tomadas de posio que alimentam o imaginrio popular e norteiam debates em biotica. Kojve j havia formulado, em A Origem Crist da Cincia Moderna, que a cincia moderna havia se constitudo pelo cristianismo, na medida em que ele se distinguia do mundo antigo. Evoca-se sistematicamente a metfora de homens brincando de deus, homens invadindo o territrio delimitado pelos deuses, faz-se apelo ao castigo eterno de Prometeu pelo roubo do fogo dos deuses, comenta-se a desmesura humana ao desejar comer da rvore do conhecimento da vida e alardeiam-se os perigos deste empreendimento que recebe, desde este ponto de vista, um aspecto de violao merecedora dos mais severos castigos.

A exigncia de renunciar pulso do conhecimento coaduna-se com a perspectiva freudiana que advoga a necessidade do sacrifcio como base para a construo social, fonte simultnea de mal estar na civilizao. A perspectiva winnicottiana, ao contrrio, no v nas intensidades pulsionais a mesma fonte de risco de adoecimento individual ou coletivo, mas enfatiza enormemente a funo do ambiente, para que estas foras possam se desenvolver no sentido da criatividade e da sade. Assim, acompanhar criticamente nossa jornada em direo a este futuro humano ou ps humano constitui tarefa tica e poltica de primeira grandeza, requerendo democratizao do debate, retirando-o do contexto restrito a cientistas e polticos profissionais.

Uma comunidade cvica esclarecida e engajada poderia exercitar-se na  funo de conscincia para a cincia, libertando a pulso criadora, desvencilhando-se do modelo mtico fechado, da idia viciada de rivalidade pai-filho, criador-criatura, abrindo para construo de uma comunidade de irmos, artfices de nosso destino planetrio comum.

 

Terezinha Mendona, psicanalista, Dra em Cincias Sociais PUCSP, membro fundadora do Instituto de Estudos da Complexidade.(www.iecomplex.com.br) Org. Ensaios de Complexidade 2, 2004,   e autora de, Homo-Creator: tica e complexidade na reprogramao da vida, ambos da Ed. Sulina.