Autora: Terezinha Mendon�a, Psicanalista

 

 

Fidelidade e monogamia: Voca�‹o ou renœncia?

 

                         Amar alguŽm Ž restringir o potencial de sua pr—pria personalidade,       

                         mas n‹o amar ninguŽm Ž transformar-se em ninguŽm.

 

                                  N‹o posso me tornar eu mesmo a n‹o ser pagando o pre�o do amor

                                que me mutila

                                                                         Guitta Pasternak, entrevista a Boris Cyrulnik[1]

 

A degrada�‹o da Lei se manifesta, por vezes, atravŽs de seu avesso, criando, no momento mesmo em que se corrompe, a necessidade de interdi�‹o do desejo de transgress‹o. O tema em torno do qual estamos aqui hoje reunidos, refere-se ao pressuposto contempor‰neo que nos eximiria da exig�ncia de fidelidade como premissa do pacto social.

Para abordarmos este provocativo tema, N‹o desejar a mulher do pr—ximo/N‹o ser fiel e n‹o esperar a fidelidade, vou partir de uma quest‹o mais ampla, na qual est‹o implicados o Desejo e a Lei Esta quest‹o, que nortear‡ minha reflex‹o nesta mesa de hoje, pode ser assim enunciada: A necessidade da Lei Moral pressup›e a necessidade de regula�‹o do desejo? Ou Ž a formula�‹o da Lei que institui o desejo como desejo de transgress‹o?

S‹o Paulo, em carta aos Romanos, sinaliza o papel da Lei na institui�‹o do pecado: eu n‹o conheci o pecado sen‹o atravŽs da Lei, pois eu n‹o teria conhecido a concupisc�ncia se a Lei n‹o tivesse dito: N‹o cobi�ar‡s.( Papel da lei )

Enunciado de outra forma, por que o desejo precisa ser regulado? Esta necessidade da Lei pressup›e a idŽia de uma inclina�‹o para o mal?Por fim, no que se refere aos dias de hoje, podemos verdadeiramente supor que haja uma degrada�‹o da Lei Moral, ou trata-se de identificarmos os novos c—digos atravŽs dos quais a moralidade se veicula?

Precisaremos passar em revista, ainda que brevemente, alguns pontos indispens‡veis a esta discuss‹o: do lado da necessidade da Lei Moral, est‹o as idŽias de culpa, pecado, castigo e os custos impostos aos indiv’duos pelas exig�ncias civilizat—rias. No caso de que possamos vir a prescindir da Lei, isto se dar‡, por uma transforma�‹o dos impulsos ou pelo resgate e exerc’cio de uma voca�‹o natural? N‹o podemos deixar tambŽm de ter em mente as diferen�as culturais que selam tanto o pacto de fidelidade quanto a idŽia de trai�‹o a esta alian�a firmada.

Antes de mais nada, Ž preciso fazer uma distin�‹o entre fidelidade conjugal, monogamia e poligamia. A legisla�‹o que regula o matrim™nio em nossa cultura ocidental, prev� o casamento como institui�‹o monog‰mica e as rela�›es extra conjugais configuram infidelidade, podendo ser enquadradas como crime de adultŽrio, sujeito ˆs penalidades prescritas pela legisla�‹o vigente. Nas cultura que prev�em o casamento como institui�‹o polig‰mica, a infidelidade tambŽm Ž caracterizada por rela�›es extra conjugais e embora v‡rias esposas possam ser tomadas por um œnico homem, elas precisam ser institu’das como tais e isto se realiza a partir de um novo pacto, firmado a cada nova alian�a estabelecida. O que varia aqui Ž a natureza do pacto social, mono ou polig‰mico, mas nenhum destes modos de estrutura�‹o social e familiar abrem m‹o da premissa da fidelidade e da condena�‹o moral pela trai�‹o do pacto firmado.

Para efeito de nosso debate, estarei referida ˆ cultura ocidental e, por este motivo, usarei monogamia e fidelidade conjugal como sin™nimos.

 A exig�ncia de fidelidade conjugal enunciada pelo mandamento n‹o cometer‡s adultŽrio,  bem como a possibilidade do cumprimento desta lei no exerc’cio da pr‡tica cotidiana decorrem:

1.De uma constru�‹o cultural que envolve os custos da renœncia pulsional necess‡ria ao processo civilizat—rio e que tem como resultante o Mal Estar na Civiliza�‹o proposto por Freud?

2. De uma transforma�‹o da libido ao longo do processo civilizat—rio, de tal maneira que o Desejo e a Lei possam coincidir na forma de uma autonomia da vontade, dispensando assim a idŽia da necessidade do sacrif’cio pulsional?

3. Que a coincid�ncia entre Desejo e Lei seja decorrente de uma voca�‹o natural inscrita no cora�‹o dos Homens ( Sto Agostinho), observada desde antes da promulga�‹o das Leis, por todos os homens justos( Sto Irineu)?

 

Se voltarmos nosso olhar para hist—ria b’blica da enuncia�‹o do Dec‡logo, veremos que ela se d‡ em diferentes momentos. No primeiro deles, o pr—prio Deus teria promulgado estes preceitos oralmente, em voz alta, do alto do Sinai.( Exod. XX 1-17) No segundo momento, o dec‡logo teria sido escrito pelo dedo de Deus, em duas t‡buas lavradas por Ele mesmo e entregues a MoisŽs durante sua perman�ncia de 40 dias e 40 noites na montanha  ( Exod. XXIV 12 e XXXI,18). Estes escritos atestam a vontade formal de Deus.

MoisŽs trazia as t‡buas em suas m‹os quando encontra seu povo adorando a imagem de ouro( æxodo XXXII, 15,16,19), acontecimento que motiva o rompimento da Alian�a simbolizado pela quebra das t‡buas. Retornando ao Sinai, MoisŽs ora pelo perd‹o para seu povo e atravŽs de sua prece, Deus consente em renovar a alian�a violada, ordenando-o a lavrar duas novas t‡buas iguais ˆs anteriores e escrever sobre elas, as leis da alian�a renovada.( Exod. XXXIV 27-29).

Segundo o Dictionaire Theologique Catholique, podemos identificar tr�s principais classifica�›es historicamente relevantes para os preceitos do Dec‡logo: A do Talmud, a de Philon e a Agostiniana. A tradi�‹o crist‹ compreende dois per’odos, antes e depois de Santo Agostinho e Ž com ele, que ser‡ dada �nfase ao ensino do dec‡logo. No per’odo anterior a ele, encontram-se poucas alus›es ˆ uma descri�‹o completa dos dez preceitos e os ensaios nos quais elas se encontram s‹o inspirados  sobretudo em Philon.

Ainda que tenham sofrido algumas altera�›es, as diferentes vers›es do dec‡logo preservaram basicamente o mesmo conteœdo. As diferen�as observadas, s‹o atribu’das aos retoques feitos por aqueles que reescreviam os textos, cada um deles mais identificados com uma ou outra forma de enuncia�‹o do dec‡logo, eloista ou deuteronomista.

Em rela�‹o ao preceito que aqui nos interessa, n‹o desejar a mulher do pr—ximo, observam-se algumas diverg�ncias no que se refere ˆ proibi�‹o da cobi�a e ˆ situa�‹o da mulher como objeto de desejo. Tanto ela pode fazer parte da casa, situando-se como mais um dos bens entre os objetos e animais ou ela pode ocupar um lugar distinto.

Uma outra prescri�‹o, muito pr—xima desta, n‹o cometer‡s adultŽrio, nos remete ˆ uma pergunta fundamental: h‡ identidade moral entre desejo e ato? 

No Evangelho de Jesus Cristo h‡ uma completa identidade moral entre desejo e ato. Por este motivo, o enunciado de sua Lei Ž considerado superior ˆ de MoisŽs, que concede o benef’cio do div—rcio por levar em conta a dureza do cora�‹o dos homens. Para o Novo Testamento, uma vez que tenha sido contra’do matrim™nio, homem e mulher dever‹o manter-se unidos atŽ que a morte os separe. Em rela�‹o ˆ interdi�‹o do adultŽrio, Jesus nos diz que todo aquele que olha para uma mulher com desejo libidinoso, j‡ cometeu adultŽrio ( Mateus, 28). Segundo o Dictionaire Theologique Catholique, a Lei de MoisŽs reprova somente o adultŽrio, enquanto Jesus condena todo desejo e todo olhar acompanhado de desejo ou excita�‹o. Segundo S. Greg—rio, enquanto a Lei antiga interditava somente a realiza�‹o do pecado, a lei crist‹ interdita tambŽm a causa do pecado.

Jesus acrescenta que n‹o veio para revogar a lei, mas para dar-lhe pleno cumprimento. Assim, o amar ao pr—ximo se transforma em amar aos seus inimigos e o n‹o matar‡s, em n‹o encolerizar-se ou cometer desacatos, mas antes, buscar  uma atitude conciliadora.Poderemos estar ˆ altura do cumprimento desta Lei? Freud achava que estas exig�ncias civilizat—rias resultavam em Mal Estar na Civiliza�‹o, por encontrarem-se muito alŽm de nossas possibilidades. Neste caso, estar’amos falando de um sacrif’cio pulsional.

Freud dizia que as puls›es em si n‹o s‹o nem boas nem m‡s; s‹o apenas impulsos que buscam satisfa�‹o. O que vai conferir-lhes um ju’zo de valor Ž o modo de inser�‹o destes impulsos no contexto cultural e as possibilidades, a eles atribu’das, de contribui�‹o para a sobreviv�ncia da espŽcie e da vida comunit‡ria.

PorŽm, Freud apostava na exist�ncia de um mal radical, anterior ˆ qualquer estrutura�‹o ps’quica, que ele nomeou de Thanatus, for�a disruptiva, que age no sentido contr‡rio ˆ Eros, puls‹o de vida, for�a de coes‹o. No relato B’blico do æxodo, encontramos a fala de Aar‹o, no momento disruptivo que marca o rompimento da primeira alian�a entre Homem e Deus: que n‹o se acenda a c—lera do meu Senhor. Tu sabes quanto este povo Ž inclinado para o mal (Exod. 22 )

Em psican‡lise, as puls›es s‹o consideradas impulsos oriundos de uma fonte som‡tica, que buscam inscrever-se no universo ps’quico e encontram express‹o atravŽs do desejo. O desejo, por sua vez, se d‡ a conhecer atravŽs de representa�›es, constitu’das de imagens e conteœdos ideativos que configuram as fantasias.

A internaliza�‹o da Lei vai promover a constitui�‹o do superego, que p›e fim ˆs possibilidades do fazer escondido. Neste sentido, tambŽm o superego faz uma identifica�‹o entre a�‹o e desejo, pois basta que o ego se dirija ˆ um objeto interditado, para que a culpa oriunda da vigil‰ncia supereg—ica venha desempenhar um lugar privilegiado na forma�‹o das neuroses. O problema de uma Lei imposs’vel de cumprir, Ž o montante de culpa que ela ser‡ capaz de mobilizar.

 Lacan ir‡ formular uma ƒtica para a psican‡lise que identifica o Desejo ao Dever Kantiano. Age de tal forma que tu possas querer que a m‡xima de sua vontade se transforme em regra universal. Serve-se da enuncia�‹o do imperativo para falar de um desejo livre, de uma autonomia da vontade, livre de inclina�›es patol—gicas. Ant’gona Ž sua figura emblem‡tica, musa inspiradora desta formula�‹o te—rica.

Assim, se em Freud, a a�‹o moral se d‡ por medo de perder o objeto amoroso, em Lacan, a a�‹o ƒtica est‡ subscrita ˆ tragicidade do desejo que decorre do abandono do Homem pelos deuses. Entregue ˆ si mesmo, capaz de transformar seu desamparo em afirma�‹o de seu desejo e produzir o n‹o submetimento, a a�‹o Žtica promove a liberdade absoluta, no momento mesmo em que identifica Desejo e Lei.

Aqui gostaria de destacar um ponto importante: segundo Sto Irineu, Sto Agostinho e S‹o Thom‡s, o dec‡logo Ž considerado um recobrimento de preceitos naturais inscritos no cora�‹o dos homens e observados por todos os justos antes da promulga�‹o de qualquer Lei e, na maior parte das vezes, comuns ˆ maioria das alian�as. Expressos de maneira muito sintŽtica, estas leis naturais se resumem a dois princ’pios fundamentais: fazer o bem e evitar o mal. Assim, a revela�‹o n‹o modifica a Lei Natural, apenas a confirma, estende e explicita, servindo como guia para regular a vida moral. O dec‡logo, segundo S. Thom‡s,  amplia a lei natural, detalhando-a em alguns preceitos n‹o t‹o intuitivos e que requerem os ensinamentos de instru’dos nas ci�ncias morais. Tal parece ser o caso da interdi�‹o do adultŽrio. A esperan�a em que a lei moral e a lei natural se possam confundir Ž apresentada como uma aposta cujo sucesso depende dos homens em reunir aquilo que se encontra dividido.[2]

As formula�›es de Kant, em sua Fundamenta�‹o da metaf’sica dos costumes, aproximam-se das de S‹o Paulo, em suas cartas aos romanos: Quando os gentios, n‹o tendo Lei, fazem naturalmente o que Ž prescrito pela Lei, eles n‹o tendo Lei, para si mesmos s‹o Lei. (Cartas de S. Paulo aos Romanos, N‹o obstante a Lei.)

Se a moralidade em Freud resulta na neurose e Ž sustentada por ela, em Lacan, desenvolve-se no interior do her—i a partir da coincid�ncia entre Desejo e Lei. O her—i, Lacan pondera em seu semin‡rio sobre a ƒtica, pode efetivar-se pela via do homem comum, mas convoca o sobre humano em n—s ou, podemos dizer parafraseando Nietzsche, o alŽm homem em n—s e a vontade santa no dizer Kantiano.

Contudo, uma importante diferencia�‹o merece ser sinalizada: a obedi�ncia ˆ Lei aparece, em Freud, como fruto de um permanente processo civilizat—rio e o quantum pulsional que escapa ˆ domestica�‹o ressurge como disposi�‹o ˆ neurose ou ˆ atividade sublimat—ria, mas n‹o Ž pensado por ele, como disposi�‹o Žtica; a identifica�‹o entre desejo e lei em Kant, apresenta-se como remota possibilidade da raz‹o, improv‡vel mas n‹o imposs’vel; em Lacan, Ž a insist�ncia pulsional e a recusa de sua completa inscri�‹o no circuito da cultura, que impulsiona o sujeito a al�ar um v™o para alŽm do rochedo da castra�‹o, inscrevendo seu desejo como desejo de vontade livre, abrindo-se para o exerc’cio da Žtica;  S‹o Thom‡s e Santo Agostinho ap—iam-se no pressuposto da benefic�ncia como Lei natural inscrita no cora�‹o dos homens, Lei e desejo unificados num momento inaugural, mas as escrituras tambŽm apontam, como vimos, uma inclina�‹o ao mal.

Aqui retomamos a quest‹o da dist‰ncia entre desejo e ato, pois o fato de que possamos saber, mesmo a priori, o melhor caminho a trilhar, nem de longe nos preserva de seguirmos o pior. Isto vale tanto para execu�‹o do bem quanto para evita�‹o do mal. Neste sentido, a conquista de alguma liberdade de escolha, exigir‡ de n—s, necessariamente, o processo e o trabalho de uma luta interior.

Para que o crist‹o se liberte da lei, Ž necess‡rio que ele enfrente sua luta interior que, em psican‡lise chamar’amos de conflito, oriundo da divis‹o do sujeito: Realmente n‹o consigo entender o que fa�oÉ Com efeito, n‹o fa�o o bem que eu quero, mas pratico o mal que n‹o quero (Carta aos romanos, A luta interior ). Ora, se eu fa�o o que n‹o quero,  j‡ n‹o me reconhe�o na a�‹o. Dependendo do ponto de vista que nos oriente, este desconhecimento pode ser visto como fruto da aliena�‹o do sujeito ou como a�‹o  do pecado que o habita. Em psican‡lise dizemos que h‡ um outro que nos habita que Ž o outro do inconsciente e n‹o o pecado.

Tomando ainda o texto da carta aos romanos, na parte referida ˆ luta interior, vemos que a quest‹o do pecado Ž insistentemente abordada por Sto Agostinho como fruto da carne: eu sei que o bem n‹o mora em mim, isto Ž, na minha carne É percebo outra lei em meus membros, que peleja contra a lei da minha raz‹o e que me acorrenta ˆ lei do pecado que habita em meus membrosÉsou eu mesmo que, pela raz‹o sirvo ˆ lei de Deus e pela carne ˆ lei do pecado. Na sess‹o seguinte, a vida no Esp’rito, Sto Agostinho Ž categ—rico ao afirmar que o desejo da carne Ž inimigo de Deus.

O estatuto do corpo em psican‡lise est‡ longe de poder ser identificado como fonte do pecado, mas, antes, a fonte som‡tica das puls›es que, concebida como conceito lim’trofe entre o corpo e o ps’quico, confere ˆ psican‡lise um lugar privilegiado no pensamento transdisciplinar, instaurando um campo de questionamentos que p›e em cheque as r’gidas fronteiras estabelecidas pelo paradigma cl‡ssico entre corpo e esp’rito, natureza e cultura.

 Entre a Lei e o desejo, se alguma concilia�‹o for poss’vel, na psican‡lise freudiana ela ser‡ sempre produto de um equil’brio inst‡vel e provis—rio, pass’vel de perturba�›es que n‹o chegam a ser indesej‡veis, mas, ao contr‡rio, fruto de um movimento que testemunha a presen�a da vida. Para uma leitura que aproxime a psican‡lise e o pensamento tr‡gico, o conflito ser‡ sempre inextirp‡vel e a tens‹o decorrente da’, motor que movimenta a vida.

Na doutrina crist‹, a promessa de concilia�‹o se d‡ por obra da gra�a e n‹o por interven�‹o da Lei, uma vez que esta s— faz revelar a falta. De modo que, como pela desobedi�ncia de um s— homem ( Ad‹o), todos os homens se tornaram pecadores, assim, pela obedi�ncia de um s— (Jesus),  todos se tornar‹o justos. ( Romanos, 5) Alcan�ar a gra�a requer uma profiss‹o de fŽ e significa libertar-se da necessidade da Lei e da morte atrelada ao pecado que vive na carne.

Enquanto a promessa n‹o se cumpre e a fŽ nem sempre consegue ser suficiente para transcender nossa condi�‹o humana, apesar dos esfor�os da filosofia e dos cuidados da psican‡lise, a quest‹o da fidelidade, ou da obedi�ncia ˆ Lei segue sendo um problema para os mortais. Na maioria das vezes n‹o somos santos nem her—is e sustentamos com dificuldade a necessidade de afirma�‹o requerida pelo pensamento tr‡gico, tendendo no mais das vezes ˆ um pensamento prenhe de evasivas, lamenta�›es e ressentimentos.

Sabemos pela psican‡lise que n‹o somos senhores de n—s mesmos e a biologia vem colocando quest›es que cada vez mais parecem colocar em cheque nossos anseios de livre arb’trio. A determina�‹o biol—gica surge, por vezes, como um atenuante para nossas im-possibilidades Žticas e pode situar-se de forma alternada entre a maldi�‹o e a salva�‹o.

Henri Atlan, em semin‡rios realizados no Rio de Janeiro e em S. Paulo, no ano de 2001, chamou a aten�‹o para os problemas derivados do enfoque bioqu’mico quando utilizado para a compreens‹o dos comportamentos humanos, dando como exemplo, os casos de viol�ncia. Na hip—tese de que a causalidade dos atos violentos pudesse  ser deslocada para a bioqu’mica do indiv’duo, esta abordagem nos deixaria seriamente embara�ados no momento de julgar um criminoso e responsabiliz‡-lo por seus atos: ele deveria cumprir pena ou ser encaminhado para tratamento mŽdico? Seu esp’rito foi livre para arbitrar sobre seu ato ou ao contr‡rio, ele agiu por uma imposi�‹o biol—gica imposs’vel de controlar?

Assim como a tend�ncia para o mal, o gosto pelo bem pode ter sua matriz carnal. Boris Cyrulnik, expert em etologia humana, entrevistado por Guitta Pasternak, afirma as bases biol—gicas para o amor e os horm™nios como respons‡veis pela fantasia. Varela, outro importante bi—logo e conhecido pensador das ci�ncias da complexidade, assinala a exist�ncia de uma biologia do amor e aponta para a presen�a de uma solidariedade instintiva na espŽcie humana, o que nos remete ˆ quest‹o do princ’pio da benefic�ncia, inscrito, neste caso, n‹o no esp’rito, mas nas cadeias do DNA.

Nas ep’stolas de S‹o Paulo, podemos ler que o amor Ž a s’ntese da Lei e os preceitos, n‹o matar‡s, n‹o cometer‡s adultŽrio,  n‹o furtar‡s etcÉ se resumem  a uma senten�a: amar‡s teu pr—ximo como a ti mesmo. A caridade Ž a plenitude da Lei e o amor aqui, inscreve-se como faculdade do esp’rito.

Onde moram afinal, o pecado e a virtude? Localizar as virtudes do amor no esp’rito e os seus pecados na carne, revela um pensamento dualista que as ci�ncias da complexidade e a psican‡lise, como uma de suas express›es, v�m se esfor�ando por transformar. Como observa John Stewart, a estratŽgia freqŸentemente utilizada para solucionar este dualismo, consiste em limitar-se ˆ um monismo Òdo espirito ou idealismo e um monismo do corpo ou materialismo Ó[3] sendo ambas, posi�›es eliminacionistas em rela�‹o ˆ outra. Stewart enfatiza o car‡ter relacional envolvido na produ�‹o dos fen™menos, que n‹o podem ter sua fonte ou proced�ncia em nenhuma localidade isolada e determinada, seja ela o corpo, a mente ou o meio ambiente.

 

Para concluir e, a t’tulo de provoca�‹o, deixarei ainda algumas quest›es para posteriores reflex›es. Sabemos da exist�ncia de espŽcies animais que adotam um padr‹o monog‰mico e um pacto de fidelidade em suas estrutura�›es sociais e familiares. Isto poderia endossar a idŽia da exist�ncia de uma voca�‹o monog‰mica natural, pelo menos para algumas espŽcies, ou ainda para alguns grupos dentro de uma mesma espŽcie?

Para justificar a pr‡tica monog‰mica entre alguns animais, pode-se trabalhar com a hip—tese de que esta escolha beneficie  a sobreviv�ncia da espŽcie, mas este argumento n‹o  Ž facilmente sustent‡vel, pois n‹o podemos afirmar com precis‹o, que todos os comportamentos do reino animal estejam submetidos ˆ primazia deste instinto de preserva�‹o. Exemplo disto s‹o os caso dos comportamentos homossexuais que v�m sendo encontrados e estudados em diversas espŽcies animais, sem que se tenha encontrado atŽ o momento, qualquer ganho aparente para eles alŽm da pura satisfa�‹o instintual de seus indiv’duos.

 Que a tend�ncia monog‰mica entre algumas espŽcies animais seja indicativo de que o amor, como lei fundamental, tambŽm esteja inscrito no DNA, assim como a conhecida inclina�‹o para o mal, pode ser um fato. Ou ao contr‡rio, que isto revele um tipo de cultura incipiente, Ž uma outra possibilidade, j‡ que tambŽm algumas espŽcies compartilham a interdi�‹o do incesto e apresentam c—digos de comunica�‹o por vezes bastante sofisticados que poderiam ser aproximados ˆ algum tipo de linguagem.

 Qualquer comportamento do mundo animal, que vejamos aproximar-se dos padr›es t’picos de nossa humanidade, costuma despertar incredulidade ou mal estar, mas os estudos de etologia e o mapeamento gen™mico v�m prestando este servi�o ˆ destitui�‹o narc’sica de nossa espŽcie, diminuindo progressivamente as dist‰ncias que separam o humano e o animal.

 Seja como fruto de renœncia e transforma�‹o pulsional ˆ servi�o do processo civilizat—rio, seja como resultado de determina�›es Žticas ou bioqu’micas, a prerrogativa da fidelidade e da monogamia Ž mais  um dos aspectos comportamentais que deixa de ser caracter’stica exclusiva da espŽcie humana e passa a ser compartilhada com alguns outros habitantes do planeta com os quais tambŽm dividimos sua ocupa�‹o. Cabe-nos reconhecer e relativizar  nosso lugar nesta delicada rede de criaturas e estabelecermos um novo pacto de fidelidade social que amplie e inclua o respeito ˆ vida em suas diversas manifesta�›es.

Obrigada.

 

 

 



[1] Pasternak, G.P. A Ci�ncia: Deus ou o Diabo? , Editora Unesp, S. Paulo

[2] Atlan, H. Com Raz‹o ou sem ela. Instituto Piaget, Lisboa.

[3] Stewart John  La relation du corps et de lÕ esprit, in Dictionaire de lÔignorance. Aux frontiers de la science. Paris Albin Michel, 1998, p.247