Autora: Terezinha Mendon�a, Psicanalista
Fidelidade e monogamia: Voca�‹o ou renœncia?
Amar alguŽm Ž restringir o potencial de sua pr—pria personalidade,
mas n‹o amar ninguŽm Ž transformar-se em ninguŽm.
N‹o posso me tornar eu mesmo a n‹o ser pagando o pre�o do amor
que me mutila
Guitta Pasternak, entrevista a Boris
Cyrulnik[1]
A degrada�‹o da Lei se manifesta, por vezes, atravŽs de seu avesso,
criando, no momento mesmo em que se corrompe, a necessidade de interdi�‹o do
desejo de transgress‹o. O tema em torno do qual estamos aqui hoje reunidos,
refere-se ao pressuposto contempor‰neo que nos eximiria da exig�ncia de
fidelidade como premissa do pacto social.
Para abordarmos este provocativo tema, N‹o desejar a mulher do
pr—ximo/N‹o ser
fiel e n‹o esperar a fidelidade, vou partir de uma quest‹o mais ampla, na qual est‹o implicados o
Desejo e a Lei Esta quest‹o, que nortear‡ minha reflex‹o nesta mesa de hoje,
pode ser assim enunciada: A necessidade da Lei Moral pressup›e a necessidade
de regula�‹o do desejo? Ou Ž a formula�‹o da Lei que institui o desejo como
desejo de transgress‹o?
S‹o Paulo, em carta aos Romanos, sinaliza o papel da Lei na
institui�‹o do pecado: eu n‹o conheci o pecado sen‹o atravŽs da Lei, pois eu
n‹o teria conhecido a concupisc�ncia se a Lei n‹o tivesse dito: N‹o cobi�ar‡s.( Papel da lei )
Enunciado
de outra forma, por que o desejo precisa ser regulado? Esta necessidade da Lei
pressup›e a idŽia de uma inclina�‹o para o mal?Por fim, no que se refere aos
dias de hoje, podemos verdadeiramente supor que haja uma degrada�‹o da Lei
Moral, ou trata-se de identificarmos os novos c—digos atravŽs dos quais a
moralidade se veicula?
Precisaremos passar em revista, ainda que brevemente, alguns pontos
indispens‡veis a esta discuss‹o: do lado da necessidade da Lei Moral, est‹o as
idŽias de culpa, pecado, castigo e os custos impostos aos indiv’duos pelas exig�ncias
civilizat—rias. No caso de que possamos vir a prescindir da Lei, isto se dar‡,
por uma transforma�‹o dos impulsos ou pelo resgate e exerc’cio de uma voca�‹o
natural? N‹o podemos deixar tambŽm de ter em mente as diferen�as culturais que
selam tanto o pacto de fidelidade quanto a idŽia de trai�‹o a esta alian�a
firmada.
Antes de mais nada, Ž preciso fazer uma distin�‹o entre fidelidade
conjugal, monogamia e poligamia. A legisla�‹o que regula o matrim™nio em nossa
cultura ocidental, prev� o casamento como institui�‹o monog‰mica e as rela�›es
extra conjugais configuram infidelidade, podendo ser enquadradas como crime de
adultŽrio, sujeito ˆs penalidades prescritas pela legisla�‹o vigente. Nas
cultura que prev�em o casamento como institui�‹o polig‰mica, a infidelidade
tambŽm Ž caracterizada por rela�›es extra conjugais e embora v‡rias esposas
possam ser tomadas por um œnico homem, elas precisam ser institu’das como tais
e isto se realiza a partir de um novo pacto, firmado a cada nova alian�a
estabelecida. O que varia aqui Ž a natureza do pacto social, mono ou
polig‰mico, mas nenhum destes modos de estrutura�‹o social e familiar abrem m‹o
da premissa da fidelidade e da condena�‹o moral pela trai�‹o do pacto firmado.
Para efeito de nosso debate, estarei referida ˆ cultura ocidental e,
por este motivo, usarei monogamia e fidelidade conjugal como sin™nimos.
A exig�ncia de
fidelidade conjugal enunciada pelo mandamento n‹o cometer‡s adultŽrio, bem como a possibilidade do cumprimento desta lei no
exerc’cio da pr‡tica cotidiana decorrem:
1.De uma constru�‹o cultural que envolve os custos da renœncia
pulsional necess‡ria ao processo civilizat—rio e que tem como resultante o Mal
Estar na Civiliza�‹o
proposto por Freud?
2. De uma transforma�‹o da libido ao longo do processo civilizat—rio,
de tal maneira que o Desejo e a Lei possam coincidir na forma de uma autonomia
da vontade, dispensando assim a idŽia da necessidade do sacrif’cio pulsional?
3. Que a coincid�ncia entre Desejo e Lei seja decorrente de uma
voca�‹o natural inscrita no cora�‹o dos Homens ( Sto Agostinho), observada
desde antes da promulga�‹o das Leis, por todos os homens justos( Sto Irineu)?
Se voltarmos nosso olhar para hist—ria b’blica da enuncia�‹o do Dec‡logo,
veremos que ela se d‡ em diferentes momentos. No primeiro deles, o pr—prio Deus
teria promulgado estes preceitos oralmente, em voz alta, do alto do Sinai.(
Exod. XX 1-17) No segundo momento, o dec‡logo teria sido escrito pelo dedo de
Deus, em duas t‡buas lavradas por Ele mesmo e entregues a MoisŽs durante sua
perman�ncia de 40 dias e 40 noites na montanha ( Exod. XXIV 12 e XXXI,18). Estes escritos atestam a vontade
formal de Deus.
MoisŽs trazia as t‡buas em suas m‹os quando encontra seu povo
adorando a imagem de ouro( æxodo XXXII, 15,16,19), acontecimento que motiva o
rompimento da Alian�a simbolizado pela quebra das t‡buas. Retornando ao Sinai,
MoisŽs ora pelo perd‹o para seu povo e atravŽs de sua prece, Deus consente em
renovar a alian�a violada, ordenando-o a lavrar duas novas t‡buas iguais ˆs
anteriores e escrever sobre elas, as leis da alian�a renovada.( Exod. XXXIV
27-29).
Segundo o Dictionaire Theologique Catholique, podemos identificar
tr�s principais classifica�›es historicamente relevantes para os preceitos do
Dec‡logo: A do Talmud, a de Philon e a Agostiniana. A tradi�‹o crist‹
compreende dois per’odos, antes e depois de Santo Agostinho e Ž com ele, que
ser‡ dada �nfase ao ensino do dec‡logo. No per’odo anterior a ele, encontram-se
poucas alus›es ˆ uma descri�‹o completa dos dez preceitos e os ensaios nos
quais elas se encontram s‹o inspirados
sobretudo em Philon.
Ainda que tenham sofrido algumas altera�›es, as diferentes vers›es do
dec‡logo preservaram basicamente o mesmo conteœdo. As diferen�as observadas, s‹o
atribu’das aos retoques feitos por aqueles que reescreviam os textos, cada um
deles mais identificados com uma ou outra forma de enuncia�‹o do dec‡logo,
eloista ou deuteronomista.
Em rela�‹o ao preceito que aqui nos interessa, n‹o desejar a mulher do pr—ximo, observam-se algumas diverg�ncias no que se refere
ˆ proibi�‹o da cobi�a e ˆ situa�‹o da mulher como objeto de desejo. Tanto ela
pode fazer parte da casa, situando-se como mais um dos bens entre os objetos e
animais ou ela pode ocupar um lugar distinto.
Uma outra prescri�‹o, muito pr—xima desta, n‹o cometer‡s
adultŽrio, nos remete
ˆ uma pergunta fundamental: h‡ identidade moral entre desejo e ato?
No Evangelho de Jesus Cristo h‡ uma completa identidade moral entre
desejo e ato. Por este motivo, o enunciado de sua Lei Ž considerado superior ˆ
de MoisŽs, que concede o benef’cio do div—rcio por levar em conta a dureza
do cora�‹o dos homens.
Para o Novo Testamento, uma vez que tenha sido contra’do matrim™nio, homem e
mulher dever‹o manter-se unidos atŽ que a morte os separe. Em rela�‹o ˆ
interdi�‹o do adultŽrio, Jesus nos diz que todo aquele que olha para uma
mulher com desejo libidinoso, j‡ cometeu adultŽrio ( Mateus, 28). Segundo o Dictionaire Theologique
Catholique, a Lei de MoisŽs reprova somente o adultŽrio, enquanto Jesus condena
todo desejo e todo olhar acompanhado de desejo ou excita�‹o. Segundo S.
Greg—rio, enquanto a Lei antiga interditava somente a realiza�‹o do pecado, a
lei crist‹ interdita tambŽm a causa do pecado.
Jesus acrescenta que n‹o veio para revogar a lei, mas para dar-lhe
pleno cumprimento. Assim, o amar ao pr—ximo se transforma em amar aos seus
inimigos e o n‹o matar‡s, em n‹o encolerizar-se ou cometer desacatos, mas
antes, buscar uma atitude
conciliadora.Poderemos estar ˆ altura do cumprimento desta Lei? Freud achava
que estas exig�ncias civilizat—rias resultavam em Mal Estar na Civiliza�‹o, por
encontrarem-se muito alŽm de nossas possibilidades. Neste caso, estar’amos
falando de um sacrif’cio pulsional.
Freud dizia que as puls›es em si n‹o s‹o nem boas nem m‡s; s‹o apenas
impulsos que buscam satisfa�‹o. O que vai conferir-lhes um ju’zo de valor Ž o
modo de inser�‹o destes impulsos no contexto cultural e as possibilidades, a
eles atribu’das, de contribui�‹o para a sobreviv�ncia da espŽcie e da vida
comunit‡ria.
PorŽm, Freud apostava na exist�ncia de um mal radical, anterior ˆ
qualquer estrutura�‹o ps’quica, que ele nomeou de Thanatus, for�a disruptiva,
que age no sentido contr‡rio ˆ Eros, puls‹o de vida, for�a de coes‹o. No relato
B’blico do æxodo, encontramos a fala de Aar‹o, no momento disruptivo que marca
o rompimento da primeira alian�a entre Homem e Deus: que n‹o se acenda a
c—lera do meu Senhor. Tu sabes quanto este povo Ž inclinado para o mal (Exod.
22 )
Em psican‡lise, as puls›es s‹o consideradas impulsos oriundos de uma
fonte som‡tica, que buscam inscrever-se no universo ps’quico e encontram
express‹o atravŽs do desejo. O desejo, por sua vez, se d‡ a conhecer atravŽs de
representa�›es, constitu’das de imagens e conteœdos ideativos que configuram as
fantasias.
A internaliza�‹o da Lei vai promover a constitui�‹o do superego, que
p›e fim ˆs possibilidades do fazer escondido. Neste sentido, tambŽm o superego
faz uma identifica�‹o entre a�‹o e desejo, pois basta que o ego se dirija ˆ um
objeto interditado, para que a culpa oriunda da vigil‰ncia supereg—ica venha
desempenhar um lugar privilegiado na forma�‹o das neuroses. O problema de
uma Lei imposs’vel de cumprir, Ž o montante de culpa que ela ser‡ capaz de
mobilizar.
Lacan ir‡ formular uma
ƒtica para a psican‡lise que identifica o Desejo ao Dever Kantiano. Age de
tal forma que tu possas querer que a m‡xima de sua vontade se transforme em
regra universal. Serve-se
da enuncia�‹o do imperativo para falar de um desejo livre, de uma autonomia da
vontade, livre de inclina�›es patol—gicas. Ant’gona Ž sua figura emblem‡tica,
musa inspiradora desta formula�‹o te—rica.
Assim, se em Freud, a a�‹o moral se d‡ por medo de perder o objeto
amoroso, em Lacan, a a�‹o ƒtica est‡ subscrita ˆ tragicidade do desejo que
decorre do abandono do Homem pelos deuses. Entregue ˆ si mesmo, capaz de
transformar seu desamparo em afirma�‹o de seu desejo e produzir o n‹o
submetimento, a a�‹o Žtica promove a liberdade absoluta, no momento mesmo em
que identifica Desejo e Lei.
Aqui gostaria de destacar um ponto importante: segundo Sto Irineu,
Sto Agostinho e S‹o Thom‡s, o dec‡logo Ž considerado um recobrimento de preceitos
naturais inscritos no
cora�‹o dos homens e observados por todos os justos antes da promulga�‹o de
qualquer Lei e, na maior parte das vezes, comuns ˆ maioria das alian�as.
Expressos de maneira muito sintŽtica, estas leis naturais se resumem a dois
princ’pios fundamentais: fazer o bem e evitar o mal. Assim, a revela�‹o n‹o
modifica a Lei Natural, apenas a confirma, estende e explicita, servindo como
guia para regular a vida moral. O dec‡logo, segundo S. Thom‡s, amplia a lei natural, detalhando-a em
alguns preceitos n‹o t‹o intuitivos e que requerem os ensinamentos de
instru’dos nas ci�ncias morais. Tal parece ser o caso da interdi�‹o do
adultŽrio. A esperan�a em que a lei moral e a lei natural se possam
confundir Ž apresentada como uma aposta cujo sucesso depende dos homens em
reunir aquilo que se encontra dividido.[2]
As formula�›es de Kant, em sua Fundamenta�‹o da metaf’sica dos
costumes, aproximam-se das de S‹o Paulo, em suas cartas aos romanos: Quando
os gentios, n‹o tendo Lei, fazem naturalmente o que Ž prescrito pela Lei, eles
n‹o tendo Lei, para si mesmos s‹o Lei. (Cartas de S. Paulo aos Romanos, N‹o obstante a
Lei.)
Se a moralidade em Freud resulta na neurose e Ž sustentada por ela,
em Lacan, desenvolve-se no interior do her—i a partir da coincid�ncia entre
Desejo e Lei. O her—i, Lacan pondera em seu semin‡rio sobre a ƒtica, pode
efetivar-se pela via do homem comum, mas convoca o sobre humano em n—s ou,
podemos dizer parafraseando Nietzsche, o alŽm homem em n—s e a vontade santa no
dizer Kantiano.
Contudo, uma importante diferencia�‹o merece ser sinalizada: a
obedi�ncia ˆ Lei aparece, em Freud, como fruto de um permanente processo
civilizat—rio e o quantum pulsional que escapa ˆ domestica�‹o ressurge como
disposi�‹o ˆ neurose ou ˆ atividade sublimat—ria, mas n‹o Ž pensado por ele,
como disposi�‹o Žtica; a identifica�‹o entre desejo e lei em Kant, apresenta-se
como remota possibilidade da raz‹o, improv‡vel mas n‹o imposs’vel; em Lacan, Ž
a insist�ncia pulsional e a recusa de sua completa inscri�‹o no circuito da
cultura, que impulsiona o sujeito a al�ar um v™o para alŽm do rochedo da
castra�‹o, inscrevendo seu desejo como desejo de vontade livre, abrindo-se para
o exerc’cio da Žtica; S‹o Thom‡s e
Santo Agostinho ap—iam-se no pressuposto da benefic�ncia como Lei natural
inscrita no cora�‹o dos homens, Lei e desejo unificados num momento inaugural,
mas as escrituras tambŽm apontam, como vimos, uma inclina�‹o ao mal.
Aqui retomamos a quest‹o da dist‰ncia entre desejo e ato, pois o fato
de que possamos saber, mesmo a priori, o melhor caminho a trilhar, nem de longe
nos preserva de seguirmos o pior. Isto vale tanto para execu�‹o do bem quanto
para evita�‹o do mal. Neste sentido, a conquista de alguma liberdade de
escolha, exigir‡ de n—s, necessariamente, o processo e o trabalho de uma luta
interior.
Para que o crist‹o se liberte da lei, Ž necess‡rio que ele enfrente sua
luta interior que, em
psican‡lise chamar’amos de conflito, oriundo da divis‹o do sujeito: Realmente
n‹o consigo entender o que fa�oÉ Com efeito, n‹o fa�o o bem que eu quero, mas pratico o mal que
n‹o quero (Carta aos
romanos, A luta interior ). Ora, se eu fa�o o que n‹o quero, j‡ n‹o me reconhe�o na a�‹o. Dependendo do ponto de vista
que nos oriente, este desconhecimento pode ser visto como fruto da aliena�‹o do
sujeito ou como a�‹o do pecado que
o habita. Em psican‡lise dizemos que h‡ um outro que nos habita que Ž o outro
do inconsciente e n‹o o pecado.
Tomando ainda o texto da carta aos romanos, na parte referida ˆ luta
interior, vemos que a
quest‹o do pecado Ž insistentemente abordada por Sto Agostinho como fruto da
carne: eu sei que o bem n‹o mora em mim, isto Ž, na minha carne É percebo
outra lei em meus membros, que peleja contra a lei da minha raz‹o e que me
acorrenta ˆ lei do pecado que habita em meus membrosÉsou eu mesmo que, pela
raz‹o sirvo ˆ lei de Deus e pela carne ˆ lei do pecado. Na sess‹o seguinte, a vida no
Esp’rito, Sto
Agostinho Ž categ—rico ao afirmar que o desejo da carne Ž inimigo de Deus.
O estatuto do corpo em psican‡lise est‡ longe de poder ser
identificado como fonte do pecado, mas, antes, a fonte som‡tica das puls›es
que, concebida como conceito lim’trofe entre o corpo e o ps’quico, confere ˆ
psican‡lise um lugar privilegiado no pensamento transdisciplinar, instaurando
um campo de questionamentos que p›e em cheque as r’gidas fronteiras estabelecidas
pelo paradigma cl‡ssico entre corpo e esp’rito, natureza e cultura.
Entre a Lei e o desejo,
se alguma concilia�‹o for poss’vel, na psican‡lise freudiana ela ser‡ sempre
produto de um equil’brio inst‡vel e provis—rio, pass’vel de perturba�›es que
n‹o chegam a ser indesej‡veis, mas, ao contr‡rio, fruto de um movimento que
testemunha a presen�a da vida. Para uma leitura que aproxime a psican‡lise e o
pensamento tr‡gico, o conflito ser‡ sempre inextirp‡vel e a tens‹o decorrente
da’, motor que movimenta a vida.
Na doutrina crist‹, a promessa de concilia�‹o se d‡ por obra da gra�a
e n‹o por interven�‹o da Lei, uma vez que esta s— faz revelar a falta. De
modo que, como pela desobedi�ncia de um s— homem ( Ad‹o), todos os homens se tornaram
pecadores, assim, pela obedi�ncia de um s— (Jesus),
todos se tornar‹o justos. ( Romanos, 5) Alcan�ar a gra�a requer uma
profiss‹o de fŽ e significa libertar-se da necessidade da Lei e da morte
atrelada ao pecado que vive na carne.
Enquanto a promessa n‹o se cumpre e a fŽ nem sempre consegue ser
suficiente para transcender nossa condi�‹o humana, apesar dos esfor�os da
filosofia e dos cuidados da psican‡lise, a quest‹o da fidelidade, ou da
obedi�ncia ˆ Lei segue sendo um problema para os mortais. Na maioria das vezes
n‹o somos santos nem her—is e sustentamos com dificuldade a necessidade de
afirma�‹o requerida pelo pensamento tr‡gico, tendendo no mais das vezes ˆ um
pensamento prenhe de evasivas, lamenta�›es e ressentimentos.
Sabemos pela psican‡lise que n‹o somos senhores de n—s mesmos e a
biologia vem colocando quest›es que cada vez mais parecem colocar em cheque
nossos anseios de livre arb’trio. A determina�‹o biol—gica surge, por vezes,
como um atenuante para nossas im-possibilidades Žticas e pode situar-se de
forma alternada entre a maldi�‹o e a salva�‹o.
Henri Atlan, em semin‡rios realizados no Rio de Janeiro e em S.
Paulo, no ano de 2001, chamou a aten�‹o para os problemas derivados do enfoque
bioqu’mico quando utilizado para a compreens‹o dos comportamentos humanos,
dando como exemplo, os casos de viol�ncia. Na hip—tese de que a causalidade dos
atos violentos pudesse ser
deslocada para a bioqu’mica do indiv’duo, esta abordagem nos deixaria
seriamente embara�ados no momento de julgar um criminoso e responsabiliz‡-lo
por seus atos: ele deveria cumprir pena ou ser encaminhado para tratamento
mŽdico? Seu esp’rito foi livre para arbitrar sobre seu ato ou ao contr‡rio, ele
agiu por uma imposi�‹o biol—gica imposs’vel de controlar?
Assim como a tend�ncia para o mal, o gosto pelo bem pode ter sua
matriz carnal. Boris Cyrulnik, expert em etologia humana, entrevistado por
Guitta Pasternak, afirma as bases biol—gicas para o amor e os horm™nios como
respons‡veis pela fantasia. Varela, outro importante bi—logo e conhecido
pensador das ci�ncias da complexidade, assinala a exist�ncia de uma biologia do
amor e aponta para a presen�a de uma solidariedade instintiva na espŽcie
humana, o que nos remete ˆ quest‹o do princ’pio da benefic�ncia, inscrito,
neste caso, n‹o no esp’rito, mas nas cadeias do DNA.
Nas ep’stolas de S‹o Paulo, podemos ler que o amor Ž a s’ntese da
Lei e os preceitos,
n‹o matar‡s, n‹o cometer‡s adultŽrio,
n‹o furtar‡s etcÉ se resumem
a uma senten�a: amar‡s teu pr—ximo como a ti mesmo. A caridade Ž a
plenitude da Lei e o amor aqui, inscreve-se como faculdade do esp’rito.
Onde
moram afinal, o pecado e a virtude? Localizar as virtudes do amor no esp’rito e
os seus pecados na carne, revela um pensamento dualista que as ci�ncias da
complexidade e a psican‡lise, como uma de suas express›es, v�m se esfor�ando
por transformar. Como observa John Stewart, a estratŽgia freqŸentemente
utilizada para solucionar este dualismo, consiste em limitar-se ˆ um monismo Òdo
espirito ou idealismo e um monismo do corpo ou materialismo Ó[3]
sendo ambas, posi�›es eliminacionistas em rela�‹o ˆ outra. Stewart enfatiza o
car‡ter relacional envolvido na produ�‹o dos fen™menos, que n‹o podem ter sua
fonte ou proced�ncia em nenhuma localidade isolada e determinada, seja ela o
corpo, a mente ou o meio ambiente.
Para concluir e, a t’tulo de provoca�‹o, deixarei ainda algumas
quest›es para posteriores reflex›es. Sabemos da exist�ncia de espŽcies animais
que adotam um padr‹o monog‰mico e um pacto de fidelidade em suas estrutura�›es
sociais e familiares. Isto poderia endossar a idŽia da exist�ncia de uma
voca�‹o monog‰mica natural, pelo menos para algumas espŽcies, ou ainda para
alguns grupos dentro de uma mesma espŽcie?
Para
justificar a pr‡tica monog‰mica entre alguns animais, pode-se trabalhar com a
hip—tese de que esta escolha beneficie
a sobreviv�ncia da espŽcie, mas este argumento n‹o Ž facilmente sustent‡vel, pois n‹o
podemos afirmar com precis‹o, que todos os comportamentos do reino animal
estejam submetidos ˆ primazia deste instinto de preserva�‹o. Exemplo disto s‹o
os caso dos comportamentos homossexuais que v�m sendo encontrados e estudados
em diversas espŽcies animais, sem que se tenha encontrado atŽ o momento,
qualquer ganho aparente para eles alŽm da pura satisfa�‹o instintual de seus
indiv’duos.
Que a tend�ncia
monog‰mica entre algumas espŽcies animais seja indicativo de que o amor, como
lei fundamental, tambŽm esteja inscrito no DNA, assim como a conhecida
inclina�‹o para o mal, pode ser um fato. Ou ao contr‡rio, que isto revele um
tipo de cultura incipiente, Ž uma outra possibilidade, j‡ que tambŽm algumas
espŽcies compartilham a interdi�‹o do incesto e apresentam c—digos de
comunica�‹o por vezes bastante sofisticados que poderiam ser aproximados ˆ
algum tipo de linguagem.
Qualquer comportamento
do mundo animal, que vejamos aproximar-se dos padr›es t’picos de nossa
humanidade, costuma despertar incredulidade ou mal estar, mas os estudos de
etologia e o mapeamento gen™mico v�m prestando este servi�o ˆ destitui�‹o
narc’sica de nossa espŽcie, diminuindo progressivamente as dist‰ncias que
separam o humano e o animal.
Seja como fruto de renœncia e
transforma�‹o pulsional ˆ servi�o do processo civilizat—rio, seja como
resultado de determina�›es Žticas ou bioqu’micas, a prerrogativa da fidelidade
e da monogamia Ž mais um dos
aspectos comportamentais que deixa de ser caracter’stica exclusiva da espŽcie
humana e passa a ser compartilhada com alguns outros habitantes do planeta com
os quais tambŽm dividimos sua ocupa�‹o. Cabe-nos reconhecer e relativizar nosso lugar nesta delicada rede de
criaturas e estabelecermos um novo pacto de fidelidade social que amplie e
inclua o respeito ˆ vida em suas diversas manifesta�›es.
Obrigada.