Atividade cientfica e transmutaes da tica do sacrifcio: a necessidade de um novo modelo para a concepo do lao social.[1]
Tereza Mendona
A
tica do sacrifcio coloca em questo a perspectiva do destino. Do ponto de
vista freudiano, h sempre sacrifcio no cerne do processo civilizatrio, seja
o assassinato do pai pelos irmos configurando uma vtima, ou o sacrifcio
pulsional no indivduo. Segundo Patrick Guyomard, a morte consentida por
Antgona, na tica concebida por Lacan, implica abraar incestuosamente a
maldio do destino lanado sobre dipo, que se estende a seus descendentes,
at a extino da linhagem. Neste caso, no pode haver autonomia da vontade.
Recusar-se
a cumprir a maldio de um destino funesto implica afirmar uma tica da diferenciao
prpria da vida: No nascemos para
morrer, mas para inovar(Hanna Arendt). A complementaridade dialgica entre
tica e poltica redefine a necessidade do herosmo e acentua a importncia da
estratgia, que no pode ser concebida
somente como um ajustamento da ao s circunstncias, isto seria esquecer que
ela tambm transformadora das circunstncias(Edgar Morin)
Entre o cumprimento necessrio de um destino transmitido e o
exerccio da autonomia da vontade, como situar atualmente a questo do livre
arbtrio, quando o universo das cincias de ponta sinaliza uma crescente
tendncia no sentido de um determinismo absoluto? Henri Atlan reconhece uma
enorme diferena entre a verdade contundente do determinismo no dia a dia do
laboratrio e a vivncia subjetiva de liberdade de escolha que ele experimenta cotidianamente. Para
resolver este paradoxo, recorre s formulaes ticas de Espinosa sobre a
liberdade, que s se torna possvel quando conhecemos as causas adequadas da coisas e de ns mesmos, sendo a experincia-limite da liberdade a capacidade
de acesso ao conhecimento infinito
dos determinismos naturais. Esta liberdade resultaria da conscincia deste
determinismo, da possibilidade de
no ser determinada por nada alm de sua prpria lei e do amor pelo
conhecimento, ou amor Dei
intellectualis.
A atividade cientfica do homo
creator no esforo de alterao da herana gentica, tal como desenvolvi em
outros trabalhos, pode ser entendida como exerccio deste amor pelo conhecimento, podendo ser encarada sob o ponto de vista de uma tica da
diferenciao por oposio uma
tica do sacrifcio, que cercearia a pulso
de conhecimento concebida como desejo transgressivo e passvel de castigo por
configurar pecado de orgulho .
[1] Resumo do trabalho apresentado no KRISIS, PUCRio, 2005.
Texto de Tereza Mendona, psicanalista, membro efetivo do Crculo psicanaltico do Rio de Janeiro, Dra em Cincias Sociais PUCSP, membro fundadora do Instituto de Estudos da Complexidade.