A INTERPRETAO COMPLEXA DA LEI DE HUME E DA FALCIA NATURALISTA.

 

Fermin Roland Schramm, PhD

 

Introduo

O pensamento complexo est baseado ou - se quisermos evitar o imaginrio fundacionista e/ou hierrquico amplamente criticado e at desqualificado por boa parte da filosofia da cincia pspopperiana do sculo XX - vinculado ao mtodo de saber distinguir sem separar e juntar sem confundir (Morin), ou seja, de saber fazer, por um lado, as distines necessrias entre mbitos de pertinncia diferentes (que definem classes de objetos e tipos lgicos diferentes) e, por outro lado, de detectar os vnculos entre eles, considerados necessrios e significativos, para dar conta das prticas simblicas humanas. Podemos sintetizar tal mtodo pela dupla conjuno e/ou, que deve ser entendida seja como uma coisa e a outra seja como uma coisa ou a outra.

Isso traz evidentemente uma srie de problemas lgicos para aqueles acostumados a pensar nos termos da lgica clssica, que devem respeitar os princpios de no contradio e do terceiro excludo, e que justamente o que o mtodo complexo pretende superar por considerar que a realidade e as prticas humanas, inclusive as cognitivas, no podem ser reduzidas a este tipo de lgica.

Do ponto de vista fenomenolgico, este tipo de procedimento no nada mais que um outro estilo de pensar o sujeito no Mundo, atribuindo sentido a seres e coisas e sendo significado por eles, ou seja, uma maneira de reinventar um lugar para o sujeito, entendido no mais como mero ser-jogado-no-mundo, entendido como algo externo e imposto, mas como ator deste mundo, agindo e pensando-se como ser e no como simples objeto. Em outros termos, a frmula da conjuno complexa e/ou, indicada pelo verbo dasein aplicado a um observador, significa, no meu entender, e antes de tudo, um estar junto com as coisas (mitsein) e com os outros seres (miteinardersein); uma maneira de o observador pensar o Mundo dos entes e dos seres, vivenciando coisas e seres, e vivenciando-se a si mesmo como um desses seres ou coisas, numa espcie de treinamento para poder aproximar-se (talvez ilusoriamente) do imaginrio do outro que nos determina e objetiva.

Sendo assim costuma-se dizer o mtodo da complexidade preocupa-se tanto com o todo como com as partes, sem confundir seus mbitos de pertinncia irredutveis; com os objetos e/ou os sujeitos e seus contextos; com a objetividade e a subjetividade; com os aspectos quantitativos e qualitativos dos saberes; com a teoria e a prtica e, no caso da atividade cognitiva cientfica, com fatos e valores.

A seguir, pretendo mostrar como o mtodo da complexidade pode ser aplicado para pensar a relao entre fatos e valores. Este problema tem ocupado a mente dos pensadores que se ocupam das relaes entre cincia e tica desde que David Hume, em seu Tratado da Natureza Humana (III, I, 27), chamou a ateno sobre aquela que considerava um sofisma, consistente em deduzir o que deve ser daquilo que Ҏ, e que  durante pelo menos os ltimos dois sculos e meio e constitui, a meu ver, uma das questes tericas mais complicadas tanto da epistemologia e da lgica como da tica aplicada e da biotica.

 

Caractersticas comuns entre pensamento complexo e biotica

Comearei com duas citaes: uma de Edgar Morin, bastante conhecido pelo pblico informado brasileiro; a outra de Van Rennselaer Potter, o reconhecido criador do neologismo biotica.

[O pensamento complexo] o pensamento capaz de juntar, contextualizar, globalizar, mas tambm de reconhecer a singularidade, o individual, o concreto. (...) O pensamento complexo no se reduz nem cincia nem filosofia, mas permite a comunicao entre elas. (...) O pensamento que junta pode esclarecer uma tica da solidariedade (Morin)[1]

 

[A biotica ] o conhecimento de como usar o conhecimento para a sobrevivncia humana e para melhorar a condio humana. (...) A biotica uma nova tica cientfica que combina a humildade, a responsabilidade e a competncia, que interdisciplinar e intercultural, e que intensifica o sentido da humanidade. (Potter)[2]

 

O que estas citaes tm em comum? Qual a preocupao comum dos dois autores?

Embora dito em termos diferentes, acredito no estar muito errado ao dizer que tanto o socilogo Morin quanto o cancerologista Potter se preocupam em primeiro lugar com o sentido que deveria tomar o conhecimento para o bem-estar de cada humano e da humanidade como um todo. Isso no que diz respeito aos fins do conhecimento.

Em segundo lugar, do ponto de vista pragmtico - que diz respeito aos meios considerados adequados para atingir tais fins - ambos os autores propem o mesmo tipo de caminho (ou metodos): o caminho da interdisciplinaridade; da contextualizao; da preocupao com os nexos entre seres, coisas e enfoques diferentes, por um lado, e o caminho da solidariedade, por outro.

Em outros termos, os fatos que o conhecimento produz parecem estar numa solidariedade profunda com os valores que tais fatos implicam, e isso que tanto Morin quanto Potter parecem sugerir.

Mas se esta interpretao for correta, os dois autores estariam infringindo a assim chamada lei de Hume, formulada no comeo do sculo XX (1903) pelo filsofo analtico George Edward Moore e que interdita derivar o que deve ser daquilo que (supostamente) , caso contrrio cometer-se-ia um paralogismo chamado falcia naturalista.[3]

No entanto, quando atualmente se pensa nos reais e possveis efeitos do conhecimento (de fato cada vez mais um saber-fazer) sobre seres e coisas, em particular, sobre a qualidade de vida de indivduos e populaes humanas consideradas em seus ambientes, podem surgir srias dvidas sobre a validade da lei de Hume.

 

 

Crtica da lei de Hume

A lei de Hume e as crticas que lhe foram feitas pela lgica moderna e pelo construtivismo mereceriam, evidentemente, uma anlise mais aprofundada daquela que ser apresentada a seguir. No entanto, no tanto a discusso epistemolgica sobre a pertinncia, ou no, do naturalismo tico que nos interessa aqui, pois nossa preocupao consiste e apresentar uma verso complexa da mesma, capaz de dar conta da lei e de evitar as conseqncias contraintuitivas de sua aplicao rgida.

O que se pode inicialmente dizer que a lei de Hume no apresenta problemas numa concepo pr-kantiana (ou pr-construtivista) do conhecimento, segundo a qual quando conhecemos estaramos espelhando a realidade como ela (para utilizar a metfora querida do filsofo neopragmatista norteamericano Richard Rorty, tambm bastante conhecido pelo pblico informado brasileiro) ou, para utilizar os prprios termos de Kant, estaramos atingindo o nmeno ou a coisa em si, a coisa como ela (supostamente) . J numa concepo kantiana e a fortiori ps-kantiana, o conhecimento no atinge o nmeno ou, como diria Lacan, o real, mas sim o fenmeno, isto , a realidade filtrada pela mente, a qual sempre parte de um ponto de vista e de um contexto discursivo-existencial, e que o pai da lingstica moderna, Ferdinand de Saussure, sintetizou pela frmula o ponto de vista que cria o objeto, entendendo este ponto de vista como uma construo simblica, produto da linguagem e portanto um construto necessariamente social. Esta concepo do conhecimento o que funda a epistemologia construtivista que, a meu ver, a condio do surgimento do pensamento complexo.

O construtivismo se d basicamente em duas etapas. Primeiro, atravs da negao kantiana que afirma que no conhecemos nmenos, mas to somente fenmenos. Segundo, atravs da afirmao saussuriana e de toda a filosofia da linguagem do sculo XX, segundo a qual nosso conhecimento tem alguma forma de objetividade, s que esta no consistiria em conhecer o que (supostamente) sem saber previamente o que se quer saber daquilo que (supostamente) , ou seja, sem que o ato de conhecer esteja vinculado a alguma funo prtica (mesmo que seja o mero deleite intelectual). O bilogo e epistemlogo chileno Humberto Maturana sintetizou este fato afirmando que tudo o que dito dito por um observador para algum.

O que queria dizer Maturana com isso?

Essencialmente duas coisas. A primeira que o processo do conhecimento depende de um ponto de vista que produzido por um observador. Esta afirmao mutatis mutandis a mesma de Saussure. Mas Maturana introduz algo a mais quando afirma que o que dito (isto , conhecido) dito para algum. Isso quer dizer que as afirmaes que pretendem ter um valor cognitivo s podem t-lo dentro de um domnio consensual de linguagem, que permite a alguns fazer afirmaes e a outros verificar, aceitando ou refutando tais afirmaes num domnio de troca simblica.

Mas isso no tudo, pois quem fala para algum age ou, melhor dito, o conhecimento implica uma prtica, um autor que simultaneamente ator no contexto do grande teatro do mundo. Ou seja, pensar e agir so inseparveis, embora no confundveis. Esta foi, alis, a grande lio de Jean Piaget, para quem a interao entre sujeito e objeto a fonte do pensamento, e isso desde a primeira infncia, pois, como ele afirmara, a criana constri o mundo ao construir-se a si mesma. Recentemente, alguns ex-alunos de Piaget foram mais longe, identificando totalmente pensar e agir, o que a meu ver bastante problemtico. Este foi o caso de Pierre Mounoud, ao estudar o pensamento que est no agir e que faz com que se gerem novos programas de ao. Em outros termos nos termos de Mounoud - , a ao no seria mero pr-requisito do pensamento mas a sua traduo, o que permitiria subverter as teorias clssicas tanto do desenvolvimento como do conhecimento, visto que Mounoud afirma de fato a imanncia do pensamento ao. Assim sendo, o racionalismo de Mounoud permitiria corrigir o cogito ergo sum cartesiano pelo ago ergo cogito pragmtico. Mais do que isso, permitiria juntar racionalismo e pragmatismo numa nica frmula: ago ergo cogito, ergo sum, que a meu ver sintetiza a concepo complexa da relao entre pensamento e ao.

A consequncia disso (que aqui resumi muito) que o mesmo sujeito que conhece (o assim chamado sujeito epistmico) pode ser o sujeito que age e que, agir sobre o outro, tambm sujeito tico.

Mas, aqui, preciso fazer uma distino ulterior, sem a qual no possvel repensar em termos complexos a lei de Hume. Trata-se da distino entre a categoria de ao e a categoria de agir, ou comportamento. Esta distino sociolgica e afirma em substncia que a ao pode ser separada de seu(s) ator(es), ao passo que o agir (ou comportamento) implica sempre numa dimenso relacional, isto , implica sempre ao inter-individual ou social. Em outros termos, existe ao social quando, na relao com os outros (que podem ser pessoas stricto sensu ou outros seres como animais, geraes futuras ou o prprio meio ambiente)[4] quem age o faz dando um sentido intencional quilo que faz ou diz, isto , quando existe escolha, deciso e escopo, assim como previso das provveis consequncias para o(s) outro(s), resultantes de tais escolhas.

Uma primeira formulao, ainda incompleta, dessa distino entre ao e comportamento deve-se a Max Weber, mas Weber tinha ainda uma concepo demasiadamente subjetivista do ator, visto que esqueceu as condies objetivas (implcitas ou explcitas)[5] da interao, o que provavelmente lhe impediu de tirar todas as consequncias de sua tica da responsabilidade, o que comeou a ser feito a partir da obra de Hans Jonas e de sua teoria da responsabilidade ntica.

Portanto, no nvel do sujeito em situao, que interage com seu meio, povoado de entes e seres (quaisquer estes sejam), que a juno entre fatos e valores pode se dar. Com efeito, o sujeito epistmico (que conhece) o sujeito pragmtico (que age), que o sujeito moral (que interage com o outro).

Mas isso no suficiente para derrubar a lei de Hume, visto que o fato de tratar-se do mesmo sujeito no impede que se possam fazer distines entre a dimenso epistmica, a dimenso pragmtica e a dimenso moral de um mesmo sujeito, o que de fato deve ser feito se aplicarmos o mtodo da complexidade que, como sabemos deve saber tambm distinguir (embora no separar). Afinal, se correto afirmar - como fez Saussure - que o ponto de vista que cria o objeto, um ponto de vista no implica necessariamente outro nem a confuso entre pontos de vista distintos do ponto de vista espao-temporal.

Entretanto, pode-se supor tambm que exista um ponto de vista que chamaremos aqui de complexo capaz de juntar os pontos de vista anteriores sem subsumir um ao outro. E como, isso seria possvel?

A soluo no fcil pois sempre permanece a suspeita de que o ponto de vista complexo queira, de fato, ser uma espcie de meta-ponto de vista, com pretenses holsticas e globalizantes, o que seria contrrio ao esprito de incerteza e incompletude que anima o pensamento complexo. Em outros termos, perder-se-ia as singularidades que, como vimos na citao de Morin, fazem parte do pensamento complexo. Ademais, o eventual meta-ponto de vista da complexidade deveria fazer as contas com a antinomia e a teoria dos tipos lgicos de Russell, segundo a qual tal meta-ponto de vista no faria parte da mesma classe dos outros pontos de vista.

Devido a essas dificuldades, uma soluo provisria consiste em respeitar prima facie a distino entre universo dos fatos e universo dos valores, afirmando, por exemplo, a independncia antropolgica dos valores morais dos fatos cientficos, logo a distino entre sujeito epistmico e sujeito moral. Isso vale, mutatis mutandis, quando se pense em fatos e valores morais, ou seja, quando consideramos fatos morais aes propriamente ditas, que sero estudadas como fatos, por exemplo, pela sociologia.

No entanto, esta distino no s epistemolgica. Ela tambm estratgica, pois permite enfrentar o niilismo heideggeriano - hoje to na moda seja entre apocalpticos seja entre integrados (como dizia Umberto Eco num famoso livro do comeo dos anos Setenta) - segundo o qual o humano ter-se-ia tornado refm do Gestell (arrazoamento) da tecnocincia, a qual teria uma lgica prpria (que Heidegger chama de essncia da tcnica) e independente das decises humanas. Isso , a meu ver, uma conseqncia lgica da indistino entre universo dos fatos e universo dos valores, ou seja o resultado de uma falcia naturalista. E pouco importa se a tcnica de fato algo artificial, ou no natural, pois Heidegger parece submete-la a um mesmo tipo de finalismo intrnseco, supostamente tpico dos processos naturais (pelo menos numa viso pr-darwiniana).

Por outro lado, o fato de manter distintos fatos e valores no impede, tambm prima facie, que ns nos preocupemos com as relaes que, ns humanos, estabelecemos entre os dois universos, isto , que ns nos preocupemos com aquilo que podemos chamar de multiversum, constitudo pelas percepes que possamos ter das relaes entre fatos e valores num determinado momento histrico.

 

Concluses

 

Concluindo esta rpida reflexo sobre a interface entre cincia e tica, pode-se dizer que o pensamento complexo que, como mostrou Isabelle Stengers, no um paradigma mas mais um desafio ou um tat desprit, pode seno superar a lei de Hume, pelo menos torn-la vlida prima facie, dentro do esprito enfraquecido de nossa modernidade tardia (ou psmodernidade como preferem alguns).

Neste sentido existe uma analogia profunda que talvez indique a emergncia de uma nova sensibilidade ou um outro Zeitgeist - entre as preocupaes dos pesquisadores do pensamento complexo e os pesquisadores em tica aplicada e biotica, que no trabalham mais, de preferncia, com deveres e valores absolutos, mas com sua verso contextualizada e historicizada de princpios que, na melhor das hipteses, so vlidos prima facie.

por isso provavelmente que Ilya Prigogine chamou nossa poca de era da incerteza. Para alguns, este Zeitgeist muito ruim e angustiante, razo pela qual gostariam que voltssemos a certezas e a valores plenos e norteadores do agir em qualquer circunstncia. Para outros, entre os quais me incluo, este o preo de nossa liberdade, conquistada a duras penas durante sculos, a qual s pode dar-se com responsabilidade, isto , respondendo individual e quando possvel - coletivamente aos vrios tipos de desafio que nosso mundo nos coloca. Uma das formas mais sublimes desta responsabilidade a solidariedade, mas para atingi-la preciso uma revoluo antropolgica que, talvez, no sejamos ainda prontos a receber.

Alm disso, s existe a santidade, que no sei se deste mundo. Aqum disso, existe a necessria proteo que as instituies (como o Estado) devem dar a seus cidados, para poder ser consideradas por eles moralmente legtimas.



[1] MORIN, E. 1997. Le besoin dune Pense Complexe. In: Reprsentation el Complexit (org. Candido Mendes). Rio de Janeiro, Ed. Educam/Unesco/ISSC, pp. 85-96, p. 95.

[2] POTTER, V. R. 1998. Bioetica puente, bioetica global y bioetica profunda, Bioetica. Cuadernos del Programa Regional de Bioetica, 7: 21-35, p. 32.

[3] MOORE, G. E. 1998. Principia Ethica. So Paulo, Ed. cone.

[4] Esta observao permite dar conta do debate em tica aplicada sobre os seres sencientes, o meio e as geraes futuras.

[5] Isto , inconscientes ou conscientes.