NASCEMOS PARA APRENDER: Breves consideraes sobre tica, poltica e relaes de poder no ato de aprender

Se nos detivermos por alguns minutos sobre o ttulo desta coletnea de entrevistas, podemos perceber que ele nos abre um amplo universo de reflexes e nos conduz a uma das mais antigas inquietaes que incitam a mente humana e que concerne o prprio sentido da vida:  para que nascemos? esta questo fundamental que se coloca para cada indivduo e para a prpria espcie, o conjunto deste trabalho tenta responder com singela e complexa afirmao: nascemos para aprender. Aprender como finalidade da vida, como rica possibilidade que se afirma a cada instante e no nos abandona mesmo no mais adiantado crepsculo de nossa existncia.

A resposta parece simples, no fosse o gigantesco desafio que se apresenta na compreenso e explicitao do conceito de aprendizagem. O ato de aprender, como faculdade natural e simultaneamente produto da vida social, pode e deve ser visto, ao longo do processo histrico,  em seus atravessamentos polticos.

A defasagem temporal com que esta obra chega ao Brasil, longe de se mostrar como  desvantagem, do ponto de vista de lapso informacional relativo necessidade de um conhecimento cientfico up to date, afirma seu valor como documento histrico que evidencia imensa vitalidade e atualidade.

A vinculao entre o ato de aprender e as idias transdisciplinares que inspiram os pensadores aqui elencados, encontra-se baseada no somente em suas convices pessoais, mas tambm em suas reflexes e pesquisas cientficas de reconhecida relevncia. Apesar disto, o processo de implementao  desta maneira de pensar a pedagogia avana lentamente, levantando questes que merecem nossa ateno. No contexto deste questionamento, digno de nota e oportuno mencionar tambm que, entre o 1 Congresso Mundial de Transdisciplinaridade realizado em 1994 - Convento de Arrabidas, Portugal - e o 2, acontecido em 2005 -Vila Velha, Brasil- foram decorridos 11 anos.

O que h de to difcil na digesto e assimilao deste paradigma que rejunta os campos de conhecimento para abordar um real concebido como uma rede de sistemas complexos interligados? Em que ponto de nosso esprito somos atingidos e nos colocamos em guarda frente mudana de estatuto do conhecimento que passa a ser apresentado como verdade provisria, contrariando nossas convices mais arraigadas? Como veicular e derivar deste contexto paradigmtico uma proposta  convergente e consistente para a educao?

Costumo pensar que as dificuldades na implementao de um projeto de educao que leve em conta os aspectos acima mencionados so diretamente proporcionais a nossos anseios egicos de estabilidade e auto-afirmao. A crena na permanncia e solidez do mundo como condio de vida mais confortvel constitui um importante obstculo epistemolgico a este empreendimento. 

Sabemos que muitas barreiras internas e externas so erigidas para deter a necessria operao psquica de destituio narcsica que democratiza o saber, validando as crenas e conhecimentos produzidos por diferentes culturas, em diversos tempos da histria da humanidade. Contudo, foroso reconhecer a impotncia e inoperncia de um nico ponto de vista para promover uma aproximao mais consistente do real em sua hipercomplexidade,. necessrio que nos empenhemos na tarefa de destituir a hegemonia das verdades que tendem a se eternizar, reafirmado a crena no processo de conhecimento como  produo de narrativas sobre o real.

De forma coerente, Francisco Varela substitui com vantagens o conceito de transmisso pelo de acoplamento ativo e participativo envolvendo a trade professor-aluno-ambiente. Desmonta a idia de conhecimento como pura aquisio de informao efetivada pela transferncia comunicacional e passa a tratar a informao como emergncia de sentido que se produz ativa, recursiva e retroativamente no interior da trade. Desloca-se a idia de reas delimitadas de conhecimento, to comum em nossos ambientes disciplinares, para a noo de caminhos da aprendizagem,  o que sugere um processo de atravessamento virio dos territrios, caracterstico da abordagem transdisciplinar.

Esta prtica metodolgica aplicada educao tem inegvel valor poltico, pois revela os vcios e aderncias que se evidenciam nos mais variados exerccios de poder produzidos e reproduzidos  nos diferentes meandros do ato de educar, seja no seio da famlia, no espao da escola, nas emisses miditicas, nas mais diversas instituies,  religiosas, civis e governamentais. Desta forma,  tais vcios e aderncias comparecem recorrentemente em todos os espaos nos quais a informao tratada como verdade a ser escoada em via de mo nica, na polaridade assimtrica do par emissor-receptor.

Resistir barbrie que se perpetra cotidianamente em nossos atos, engendrada nos meandros de uma microfsica do poder, identificar suas foras e suas derivaes na prtica de ensino premissa tica indeclinvel para aqueles que se dedicam aos cuidados relativos ao ato de aprender em todos os nveis da convivncia humana.  No dizer de Albert Jacquard, aprender com a cultura, para si, para o outro e com o outro e no contra o outro. Construir-se, enfim, como ser humano consciente e senciente, absorvendo o que vem do outro e selecionando dentre isto, aquilo que se escolhe para participar da constituio de um si-mesmo auto-eco-organizador.

Antes de Marx, Nietzsche j havia colocado a questo que tambm foi retomada por Edgar Morin:   Educar os educadores! Mas os primeiros deviam educar-se a si mesmos! E para eles que escrevo.[1] Assim,  cada um de ns que participa , a seu modo, do processo de construo do mundo e das novas geraes tributrio da tarefa de co-formao e auto-formao. Que possamos produzir a partir deste material, tomado como ponto de partida, efeitos multiplicadores que contribuam para um maior esclarecimento de que o ato de aprender, genuinamente, s pode se dar  no interior de um ambiente de confiana que torne possvel, pela afetao de todos os nossos sentidos,  a surpresa e o maravilhamento a cada passo do caminho.

O Instituto de Estudos da Complexidade sente-se grato pela oportunidade de contribuir para dar andamento a este projeto audacioso que nasceu da doce e firme obstinao de sua autora e idealizadora Hlne Trocme-Fabre e do entusistico empenho de Wanda Maranho Costa em trazer luz este material para o pblico brasileiro. Manifestamos nosso reconhecimento pelo apoio fundamental do Consulado da Frana e da PUC-Rio, nossas primeiras parcerias para alavancar esta produo. Agradecemos tambm generosidade amorosa de Pedro Estarque, que trabalhou voluntariamente na realizao da arte e condensao do material videofnico em um nico DVD, o que tornou economicamente mais vivel o projeto.

editora Triom cabe, por fim, o mrito de dar prosseguimento sua j conhecida trajetria de implementao dos valores transdisciplinares no cenrio da educao no Brasil.

 

Terezinha Mendona

Pelo Instituto de Estudos da Complexidade

www.iecomplex.com.br



[1] Friedrich Nietzsche, Oeuvres philosophiques compltes, II.2,5[25]287-288