Transferncia e Contratransferncia: uma reserva de alma na ps-modernidade  

 

Maria do Carmo Andrade Palhares

 

I

De forma imperiosa, convicta, e necessitada, ela me diz:

_ Voc! Ah, voc est a meu servio!

Estamos diante de uma criana? Cronologicamente, no. Estamos diante de um adulto, cujo olhar infantil, reivindica algo primordial: ser atendido em suas necessidades iniciais de vida. O que sou eu para algum que me apresenta de maneira to visceral sua procura pelo vnculo humano? A resposta para esta questo nos lana nas vicissitudes da prtica clnica. E como prtica, exige, alm do conhecimento, manejo: ao teraputica. Como manejar situaes difceis, infantis, regredidas, pertencentes, muitas vezes, a um perodo no-verbal, se a psicanlise se coloca como cura pela palavra?  Uma palavra surge com toda sua fora relacional: transferncia. 

A transferncia em si j nos fala de algo vivo. Isto porque ela emerge do contato emocional dos pacientes com a situao analtica. No entanto, hoje sabemos, que exatamente o acontecimento transferencial, tambm induz o analista a produzir uma resposta emocional frente ao seu paciente. Considerando estas duas vivncias podemos enunciar a vivacidade do encontro analtico. Para isto preciso sublinhar que este encontro enlaa duas pessoas, e este enlace envolve afetos, sentimentos, vivncias inconscientes que vo engendrar mutualidade, o que nos permite dizer que estamos falando de um tratamento que se coloca no mbito da intersubjetividade. Assim, ambos, paciente e analista, esto irremediavelmente vivos. Desta forma, consideramos o efeito da presena de um outro na vida psquica de cada participante do encontro. Estamos, portanto, no s no domnio do intrapsquico, mas, observando o efeito causado pelo outro, incorporamos a noo de externalidade como participante das vivncias internas. Da surgem as condies para situarmos uma definio teraputica da tcnica psicanaltica, articulando os movimentos intrapsquicos e interpsquicos, inserindo-os num contexto relacional. A dinmica destes movimentos vai valorizar a problemtica da contratransferncia, isto , o trabalho analtico passa a considerar os afetos do analista presentes na situao analtica. Os desafios frente a estes obstculos vo permitir que, analista e analisando, busquem, cada um no seu papel e funo, superar a prova da anlise.

E o que a prova da anlise?

A esse respeito, Pontalis, acrescenta: Qual o ensinamento que nos traz a psicanlise – e quero dizer a experincia, a prova da anlise ou, o que a mesma coisa, a prova do estrangeiro – ao ponto que se pode tom-lo por seu ensinamento principal e talvez nico? que o tempo no passa. Conseqncia: a psicanlise no , no pode ser do seu tempo. Ela no de um outro tempo, mas de um tempo outro. Ela anacrnica, ou melhor, segundo o termo de Nietzsche, intempestiva. Ela indiferente aoar do tempo... (1994:95)

Esta revelao pode colocar em choque a afirmao inicial de uma clnica viva. Mas exatamente nesta descoberta de um tempo outro, intempestivo, que comeamos a desconstuir um presente morto. Morto pela repetio, morto pelo vazio, morto pela ausncia de sentido, morto pelo empobrecimento dos projetos. pela possibilidade de animar, imantar, de atrair o movimento transferencial gerado pela vivncia analtica que este presente morto, inanimado, pode vir a se lanar sobre um tempo outro, a se encontrar com um tempo sem medida, cuja a vivacidade pode estar numa lembrana, num sonho, numa alucinao, e sobretudo numa ao. E muitas vezes na ao, no agir, nos deparamos com todos os odores, cores, frias, e amores de uma vida humana. O afeto escancarado no consegue esconder as experincias emocionais vividas ao longo de uma histria pessoal. Presentificada e reconhecida no tratamento, esta histria, vai se desenrolar juntamente com a histria do tratamento. Isto quer dizer: as intensidades, a irracionalidade, as reaes inadequadas, exageradas, defensivas – tanto hostis como amorosas – so valorizadas como fenmenos que passam a fazer parte da teraputica deste processo. carga dupla porque um duplo tempo no linear comea a ser vivido pelo par analista-analisando. No uma crnica dos acontecimentos que vai ser empreendida, mas a vivncia do acontecimento passado ser atualizada, fundindo-se com o tempo analtico. Este o lugar da intimidade. Isto o que primordialmente se passa na clnica. Aos poucos, e muitas vezes de repente, o analista est ali na intimidade que pode ter uma criana com a me; na intimidade de uma parceria amorosa no seu leito; na intimidade enigmtica dos desencontros humanos, freqentemente dolorosos e terrveis quando vividos no incio da experincia de vida. O analista pode ocupar todos os lugares, sem sair do lugar, apenas seguindo intimamente os movimentos transferenciais. Traduzir isto em palavras muitas vezes antagnico ao que se passa neste espao ntimo, uma vez que as palavras engendrariam uma narrao que pretenderia tornar as coisas comunicveis, quando, na verdade, a vivncia clnica aponta para algo que no possvel objetivar numa escrita, ou numa apresentao, exatamente pela ruptura, em alguns casos, radical, da lgica temporal e espacial. Portanto, se colocada numa linguagem esttica podemos falar de uma fico-real que mantm os resduos de uma insuficincia cientfica para que seja preservado no acontecimento clnico exatamente o que escapa a conceituao terica, deixando livre os efeitos diferentes que cada comunicao produz naqueles que lem ou escutam. So os efeitos que reverberam evocando o inaudito, o incomunicvel em cada ser, que talvez possam, restituir este valioso lugar da intimidade humana. Segundo Pontalis, como se a nos enderessemos a cada um, a uma parte ntima de cada um, pelo tom, pelo estilo, pela maneira de enderear o mais essencial de tudo e o mais difcil a transmitir porque irredutvel a linguagem. ( 2002).

Portanto, a possibilidade de alcance, sobre o que se passa na clnica, est em manter uma tenso entre o que partilhvel, as palavras que so comuns, e as que so singulares, especficas, de cada um; e algo que no se compartilha, a no ser atravs da arte, ou da transferncia. E que talvez no seja redutvel a nenhuma narrativa cientfica. H que viver, experimentar, o que se impe so as foras do acontecimento, o desenrolar da vida.               

Neste desenrolar, a transferncia ocorre espontaneamente em todas as relaes humanas j que incessante este movimento de dentro para fora, de fora para dentro. Logo a transferncia emerge da vida, porque ela vai apontar para um infindvel vir-a-ser ; neste sentido ela estruturante. Na clnica psicanaltica ela passa a ser acolhida como a traduo viva dos vnculos humanos, da que se enraza a manuteno e a validade do tratamento. No entanto, exatamente pela sua fora viva e atuante que o fracasso teraputico pode acontecer. Aqui nos deparamos com a complexidade da experincia transferencial que nos revela um acontecimento gauche, canhestro, envolvido em mltiplas sutilezas. Como clnicos, a que podemos tropear... A prpria histria da descoberta da transferncia nos mostra esta possibilidade. No incio, Freud no concebe a transferncia como um auxiliar teraputico, ela considerada um obstculo cura, uma verdadeira maldio, diz ele. Numa carta ao pastor Pfister, Freud descreve a transferncia como a cruz do psicanalista.

Posteriormente, no entanto, ganha estatuto de funo teraputica, ao ser constatado que, atravs da transferncia, aquilo que no pode ser dito, pode ser mostrado. Passamos a viver analiticamente situaes paradoxais: o que faz caminhar pode destruir o caminho. Alm disto, quanto mais avanamos mais corremos o risco do recuo; assume, pois, a regresso valor de travessia das zonas traumticas e conflitivas. Algo de especfico se apresenta neste tratamento: l onde poderamos afogar, aprendemos a nadar.        

Assim, em 1905, diante do fracasso do caso Dora, Freud acrescenta: O que so transferncias? Elas so novas edies ou facsmiles de impulsos e fantasias que so despertadas e tornadas conscientes durante o progresso na anlise; mas elas tm essa peculiaridade, que uma caracterstica particular, de que elas substituem alguma pessoa primitiva pela pessoa do mdico. Colocando em outras palavras: toda uma srie de experincias psicolgicas so revividas, no como pertencente ao passado, mas aplicadas ao mdico no momento presente. (...) Dora atuou um fragmento essencial de suas lembranas em lugar de relembr-los (p.133) .

O elemento maldito da transferncia diz respeito resistncia, j que ao provocar o mesmo afeto que forou o paciente a repudiar seus desejos proibidos, algo se paralisa. O paciente resiste ao se ver confrontado, na anlise, com a fora dos seus desejos e das suas fantasias inconscientes. Paradoxalmente, avana-se a onde transferncia e resistncia coincidem no tempo analtico. l onde h resistncia que corresponde a este infantil que no tem idade - fora do lugar, fora do tempo - que brota na transferncia as condies de ultrapassagem e passagem para um tempo de mudanas e transformaes reais. A raiz infantil, a natureza inconsciente, as vivncias emocionais, vo engendrar repeties que tornam a clnica psicanaltica uma encenao contempornea do passado. A figura do analista inserida numa das constelaes psquicas que o paciente organizou ao longo das suas experincias emocionais aciona, ao mesmo tempo, transferncia e resistncia, alavancando a dinmica do tratamento. O vigor desta experincia est na conjugao das suas oposies: maldio, cruz, obstculo, funo teraputica, expresso do essencial. exatamente a travessia destas contradies que corresponde, em 1914, a outro pronunciamento freudiano: no nos surpreendemos suficientemente com a transferncia. Assim agregamos um outro elemento a este fenmeno: o surpreendente que irrompe na cena analtica, determinando uma qualidade emocional ao vnculo analtico com poder de afetar a ambos participantes. 

O percurso do tratamento se move dentro do drama e da trama transferencial, caminhando entre: passado e presente, obstculo e funo teraputica, entre alianas e repdios ao manejo clnico configurando dificuldades que revelam a singularidade de cada paciente. E a que est: o acolhimento a esta singularidade leva o paciente a sentir-se reconhecido em sua humanidade. Lus Cludio Figueiredo vai destacar esse ponto abordando a questo da contratransferncia: Aqum das contratranferncias no sentido estrito, que so respostas do analista s transferncias do paciente, um aspecto essencial da dinmica do trabalho analtico – embora seja tambm uma fonte de impasses – h uma condio da possibilidade de psicanalisar – que se configura como uma contratransferncia primordial, um deixar-se colocar diante do sofrimento antes mesmo de se saber do que e de quem se trata. Esta contratransferncia primordial corresponde justamente disponibilidade humana para funcionar como suporte de transferncias e de outras modalidades de demandas afetivas e comportamentais profundas e primitivas, vindo a ser um deixar-se afetar e interpelar pelo sofrimento alheio no que tem de desmesurado e mesmo de incomensurvel, no s de desconhecido como incompreensvel. Todo o psicanalisar, no que implica lidar com as transferncias – e outras coisinhas mais – depende desta contratransferncia primordial. (2002: 2)   

Aqui o analista se v confrontado com o que Figueiredo vai chamar uma reserva de alma, diz ele: Nesta reserva de alma residem nossas teorias, nossos desejos, nossa capacidade de pensar, falar, simbolizar e sonhar. Mas a reside, fundamentalmente, nossa capacidade de ser afetado e interpelado pelo sofrimento. (2002: 18) Desta forma, estamos diante de uma ampla disponibilidade em ir sendo junto com o paciente, podendo chegar l, diante do irreconhecvel, do estranho, do absurdo. Freud, em 1919, no seu texto O Estranho nos fala destas sensaes quando nos aproximamos ou contatamos remotas regies da natureza humana. Talvez, toquemos a, nos enclaves de um modo de ser escondido e nunca encontrado, mas revelador do absolutamente humano de cada um, possibilitando, simultaneamente, a expresso do individual e do universal. No universal nos deparamos com toda a humanidade, descobrindo o vis do todo, do uno, do semelhante. No individual, nos deparamos com o ser e suas circunstncias, muitas vezes, diante de contingncias favorveis e desfavorveis; tanto internas quanto externas. Legitimar estas condies demanda empatia pela engenhosa causa da natureza humana. Isto significa suportar ser tocado, na transferncia, pela fria, pelo amor, pela indiferena, pelo falso, pela repetio, sem que abandonemos o primordial: manter a ligao com o outro, preservar a reserva de alma. Deixar fluir o acontecimento, sem entrav-lo. Difcil! Sobretudo, diante da repetio.

A noo de repetio do passado constitui-se no paradigma da teoria da transferncia. Freud em 1920 no texto – Alm do Princpio do Prazer – acrescenta que a repetio se traduz por uma compulso ligada pulso de morte. Para ele, a idia de repetio conota neurose e patologia, uma impossibilidade de ser e viver diferente no presente, re-encenando-se, muitas vezes, experincias dolorosas. Este re-encenar no determinado pelo prazer, mas pela dor e o sofrimento. como se algo da experincia infantil estivesse congelado, provocando estagnao, apresentando o mesmo, o de sempre; no se consegue situar o presente como um vetor existencial a ser conquistado. Algo o entrava de forma insistente e imperiosa. Com isso, paciente e analista diante das foras da repetio podem entrar num circuito fechado, e se assim for... apontam para dificuldades no campo transferencial-contratransferencial, tais como: fuses superegicas, conluios, atuaes -  um vasto repertrio contratransferencial pode ser encenado por parte do analista. Aqui, a pessoa do analista precisa estar ativa e em questo principalmente para si prprio. para dentro de si que ele vai se voltar, freqentando, intimamente as fronteiras de suas prprias possibilidades. S assim ele conseguir colocar a contratransferncia a servio do tratamento.

Duas citaes so providenciais sobre o papel da repetio ao longo do tratamento. Primeiro de Jos Amrico Junqueira de Mattos referindo-se ao texto de Lagache: Em seu importante trabalho sobre transferncia, Lagache, no aceita que a repetio esteja a servio da pulso de morte, ou seja, que a repetio seja primria. Com seu brilhante aforismo: necessidade de repetio e repetio da necessidade postula que, se existe uma necessidade de repetio, ou seja, do desejo em busca de satisfao este pode entrar em confronto com o ego e mobilizar mecanismos de defesa. Dessa forma, o conflito est entre a necessidade, o princpio do prazer, e a realidade, portanto secundria. Seria primria se houvesse uma repetio da necessidade (...) indivduos que interromperam uma tarefa tm tendncia ou necessidade de vir a complet-la – frustrao, interrupo ou fracasso, intensifica a necessidade de completar a tarefa satisfatoriamente.  (1995: 173,174)

A repetio ganha amplitude e complexidade enquanto fenmeno. No existe s um tipo de repetio: ela pode estar articulada ao desejo em busca de satisfao, mas tambm, se insere numa perspectiva mais regredida na busca da realizao de uma tarefa interrompida, fracassada.  No primeiro caso repete-se na tentativa de elaborao de um conflito. No segundo caso repete-se na esperana de um novo encontro objetal que possibilite uma nova oportunidade para o desenvolvimento do self.

A segunda citao de Pontalis, diz ele: No corao da pulso a repetir no vejo o resultado do entravamento de nossos desejos e nem, em conseqncia, por causa de sua insatisfao, a exigncia de retom-los... se entravamento existe, o da prpria capacidade de representao... o que se repete – e no digo o que se rumina – aquilo que no aconteceu, e que no tendo conseguido advir, no existiu como evento psquico. Repete-se como se ensaia no teatro, mas na ausncia, no vazio de todo texto. Repete-se algo fora do texto, algo de incrustado, e no de impresso...  ( 1994: 102)

  pela encenao do vazio que se tenta inaugurar a vida. O vazio a prpria necessidade do acontecimento - j que ele no pode ser lembrado nem esquecido - ele agido repetidamente. Ao final, diria Manoel de Barros: Repetir, repetir, - at ficar diferente. E ficou! Na psicanlise, na clnica, na linguagem; aqui, agora, no texto. Do mundo pulsional encarna um beb humano com sua fora vital em busca de integrao.

 

II

Este movimento em busca de integrao se dirige ao ambiente. L deve haver algum que recepcione esta demanda - estamos diante de necessidades que vo engendrar repetio at produzir a integrao do self. O diferente est em curso.  Se pouco acontece, ou se o excesso acontece, nos deparamos com a possibilidade do vazio, do trauma. Nestas condies, o setting analtico vai ser convocado a possibilitar ao paciente viver pela primeira vez aquilo que j foi vivido. (Winnicott,1955-56: 487 ) Ou seja, que as condies do encontro analtico favoream que os sentidos e os significados da vida emocional sejam criados e no apenas revelados. Esta criao coloca a noo de holding – sustentao emocional – como fundamental para que o paciente experimente a si mesmo como um acontecimento, produzindo a experincia da qualidade de ser como a primeira manifestao da natureza humana. Winnicott verbaliza esta necessidade, a partir do olhar de um beb, ao dizer: O importante que o que eu sou no significa nada, a no ser que, no incio, eu seja juntamente com outro ser humano que ainda no foi diferenciado. Por esta razo, mais verdadeiro falar em ser do que usar as palavras eu sou que pertence ao estgio seguinte. No exagero dizer que a condio de ser o incio de tudo, sem a qual o fazer e o deixar que lhe faam no tm significado.  ( 1966: 9)

Assim ser juntamente com o outro, implica em condies ambientais favorveis. Como primeiro passo, preciso ser atendido por uma me que se engaja nas necessidades do filho, validando e reconhecendo sua singularidade. Portanto, algo de especfico deve ser considerado: este engajamento no invasivo, ele se d como possibilidade de oferecer ao beb uma experincia fusional. Segundo Ogden: a me uma presena invisvel, mas sentida... sua alteridade sentida, mas no levada em conta. (1996: 46) Invisvel e previsvel, no sentido de manter um cotidiano montono e rotineiro, significando: sustentao emocional, continuidade, permanncia, segurana. Os cuidados maternos se constituem como proteo ambiental ao evitar surpresas inassimilveis para o beb. Em funo desta sensvel adaptao materna, o beb humano, no se d conta do seu estado de extrema dependncia, e inquestionvel vulnerabilidade. Ento, possvel confiar. Expressa-se, aqui, uma maternagem que se coloca a servio da continuidade do ser do beb; decorrendo da a constituio de uma subjetividade genuna, diferenciada a partir de si-mesma. A descoberta da alteridade se d em pequenas doses: ser diferente, diferenciado - Outro - surge a partir de pequenos acrscimos dirios que se apiam naquilo que se repete no interior do ser. Na monotonia encontramos espao para o surgimento das novidades. O setting analtico reproduz este ritmo ao longo do tratamento.    

Aqui me reencontro com minha paciente. Sua reivindicao era explcita: eu estava a servio do seu anseio genuno de vir-a-ser. Dentro deste enfoque, a repetio uma tentativa de alcanar uma existncia real. Sentir-se vivo em sua interioridade condio primordial.

Na transferncia, tudo se passa, como se houvesse um presente sem passado. No existe uma sobreposio temporal entre passado e presente; a vivncia analtica se traduz por uma demanda de aes concretas que possam favorecer o presente tornar-se passado. A linguagem de Winnicott exprime o valor desta experincia: Enquanto na neurose de transferncia o passado vem para o consultrio, neste trabalho mais certo dizer que o presente volta para o passado e o passado. Desse modo, o analista confrontado com o processo primrio do paciente no setting dentro do qual este ltimo validado. (1955-56: 486 )

Novamente estamos s volta com a prova da anlise. Desta vez, h um movimento temporal que se transforma em algo fundante. na temporalizao do encontro analtico que o vazio de si comea a dar lugar constituio de um tempo subjetivo vivido como durao de si-mesmo. O ritmo das sesses passa a ser organizado pelo paciente, a temos: o tempo das sesses, as freqncias, a relao que estabelece com o manejo e com as  interpretaes, os dias de pagamento, as presenas e ausncias dentro e fora do setting. O analista solicitado a percorrer este tempo como um momento que resgata os primeiros estados do self. Nestas situaes, estamos de frente para o paradigma do adoecer humano.

Hlderlin, poeta alemo, atravs de um texto precioso, nos d acesso a quase tudo que escrevemos at agora, diz ele: Deixem o homem imperturbado, desde o bero! No arranquem o boto bem unido do seu ser, no o arranquem do pequeno abrigo de sua infncia! No faam  pouco demais por ele, para no faz-lo prescindir de vocs, que assim se distinguem dele! No faam demais por ele para que ele no sinta o poder dele ou de vocs, que assim se distinguem dele! Em resumo: s mais tarde deixem  o ser humano saber que existem seres humanos, que existe algo alm dele, pois s assim ele se torna humano. O homem, porm, um deus desde que seja humano. E se ele um deus, ento belo. (1797:83) Aqui estamos de frente para o paradigma que enuncia a positividade da vida e da criao. Viver para dar vida ao incriado.

Ferenczi contribui para a expanso do saber psicanaltico ao retornar aos momentos inicias da vida humana.  Diz, ele: Penso no perodo de vida passado no corpo da me. Neste estgio, o ser humano vive como parasita no corpo materno. Mal existe um mundo exterior para o ser nascente: todas as suas necessidades de proteo, calor, e de nutrio, so asseguradas pela me. Ele nem mesmo precisa se esforar para ter o alimento e o oxignio necessrios, pois mecanismos apropriados encarregam-se de trazer essas substncias diretamente aos seus vasos sanguneos ( 1913: 76,77)

Vale destacar que Ferenczi inserido num outro tempo, num outro lugar endossa as palavras de Hlderlin, apontando para o universal humano que necessita viver dentro de si-mesmo por um perodo como condio primordial para, aos poucos, dar conta do seu encontro diferenciado com a realidade; atribuindo-lhe, ento, sentido e significado.

Ferenczi confirma este ponto de vista ao esclarecer: Assim, se o ser humano tem uma vida psquica, mesmo inconsciente, no corpo materno – e seria absurdo acreditar que o psiquismo s se ponha a funcionar no momento do nascimento – ele deve ter, pelo fato da sua existncia, a impresso de ser realmente todo-poderoso (...) despoj-lo da onipotncia e obrig-lo a tentar modificar o mundo externo, ou seja,  efetuar um trabalho... causa nos bebs uma brutal perturbao advinda sua quietude   ( 1913: 77,78)

Hlderlin (1770-1843) e Ferenczi (1893-1933) apesar da distncia histrica, da distncia contextual, no se distanciam do humano e suas necessidades bsicas: imperturbado, deixem-no no incio... s assim todo o resto ser possvel ser experimentado e vivido em sua complexidade inevitvel e infinita. A vivncia da experincia de unidade com o universo consolida o sentimento de manter-se unido a si-mesmo. Revigora a condio ontolgica essencial para que tudo mais possa fazer sentido para o homem: o inconsciente, o desejo, o prazer e o desprazer, o mundo interno e externo, as relaes objetais - todo contedo, enfim, constitutivo da vida psquica. Revigora-se a reserva de alma. Ser isto possvel na ps-modernidade?

Posteriormente, juntando-se a Hlderlin e a Ferenczi, Winnicott (1896-1971) contribui, decisivamente, ao longo de sua obra, para o paradigma da criao. No se intimida diante dos riscos pessoais e cientficos, ao afirmar: No a partir da sensao de ser Deus que os seres humanos chegam humildade caracterstica da individualidade humana?( 1968:90)

Aqui nos deparamos com o percurso do humano: precisamos experimentar o divino como pessoa criadora do mundo para, aos poucos, percebermos nossa condio de parte diante da imensido do mundo. Do infinitamente grande vamos, gradualmente, nos aproximando do infinitamente pequeno. como parte oriunda deste mundo divino que nos transformamos em singularidade no mundo humano. E ser como parte que poderemos contribuir para as mudanas deste mundo. O vrtice da singularidade contm a experincia do todo. Neste sentido, legitima-se a ousadia de seguir adiante perspectivando mudanas e transformaes nossa volta, a partir da disponibilizao das vivncias interiores: marcas da nossa passagem pelo mundo.

 

III

Mas existem pedras ao longo deste caminho. Drummond, agrega texto e espessura a este caminhar endossando o tema da repetio ao dizer, insistentemente:   No meio do caminho tinha uma pedra/  tinha uma pedra no meio do caminho/  tinha uma pedra/no meio do caminho tinha uma pedra (1930).

 ... E repete, repete, at virar um poema. Acordemos para esta realidade da repetio que ao carregar em si o passado, o mesmo, ao mesmo tempo, visa o novo, o inusitado, o surpreendente, apontando para transformaes que possam emergir do que est na origem da experincia de cada um. Assim, segundo Pontalis, se conjugam repetio e primeira vez (1990:78). Revelam-se manifestaes de fidelidade ao passado visando torn-lo real no presente. Ou, segundo Winnicott, visando conquistar no presente, o direito a ter um passado (1955-56: 486).  Em todos esses movimentos nos deparamos com um agir que busca virar outra coisa, sendo assim, embora repetido, nada est prescrito: aqui vigora o improviso.           

No meio do caminho clnico, existem transferncias e contratransferncias que podem revirar uma histria de vida engendrando novas perspectivas pessoais. Ou no. Pode dar errado. Sobre isto, Ferenczi em seu artigo sobre a Elasticidade da Tcnica  acrescenta: Em hiptese alguma deve-se ter vergonha de reconhecer, sem restries, os erros passados. Que nunca se esquea que a anlise no um procedimento sugestivo, em que o prestgio do mdico e sua infalibilidade devem ser preservados a qualquer custo. A nica pretenso levantada pela anlise a da confiana na franqueza e sinceridade do mdico, e a esta, o reconhecimento sincero de um erro no ameaa. ( 1928:307)

 Winnicott amplia esta questo quando valoriza os aspectos ambientais e sua relao com o desenvolvimento genuno do self. Segundo ele, o paciente pode induzir o analista a falhar; na vivncia de regresso expressa-se um re-pedido para a correo das falhas ambientais. Nos momentos regressivos revisitamos experincias no-verbais precoces. Acompanhando intimamente o paciente at estas regies, a esperana inconsciente faz com que o trauma original irrompa para ser vivido em um ambiente de confiana. Da a falha do analista reproduzir concretamente estas situaes traumticas; se o analista reconhece que falhou, ele experimenta o ponto de vista daquele paciente, e este, ao se reencontrar com seu ponto de vista, estar recuperando seu verdadeiro self, validado por uma presena viva. Desta forma, para Winnicott o problema no a falha, diz ele : Como analistas, estamos falhando o tempo todo, e as reaes de irritao do paciente pelas quais esperamos acabam por acontecer. Se sobrevivermos, seremos usados. So as inmeras falhas, seguidas pelo tipo de cuidados que as corrigem, que acabam por constituir a comunicao do amor, demonstrando o fato de haver ali um ser humano que se preocupa (...) Portanto, a tarefa do paciente provocar condies nas quais a repetida correo das falhas seja um padro de vida.( 1968:87)

O paciente cria a falha no analista. Transferncia e contratransferncia contracenam o caminho drummoniano: as pedras do caminho percorrido pelo paciente se instalam dentro do setting dificultando o processo analtico, ao mesmo tempo que, torna vivo para o par analista/analisando as experincias repetidamente narradas, ou  no. Experincias que convocam o analista a encenar um papel que muitas vezes pode estar referido ao passado ou pode estar no futuro referido ao anseio pelo vir-a-ser. Nesta compreenso, tambm, o analista precisa ansiar por vir-a-ser, seu percurso existencial deve continuar em aberto para si-mesmo. Talvez isto imprima a marca de um devir para a dupla analista/analisando. Ou seja, ambos continuam a buscar a expanso de sua ontologia – seguir sendo para poder continuar vivo para si-mesmo, para o outro, e para o mundo. Eis a o mover-se no encontro analtico: o passado, o acontecimento, a primeira vez, o devir, tudo isto torna-se presente conjugando todas as temporalidades. Nessa medida, falhar aponta para o que pode advir para ser corrigido, isto significa que o analista experimentou contratransferncialmente o ponto de vista do paciente, validando-o. Isto no ser esquecido; tornando-se passado pode, agora, ser relembrado. Na poesia de Drummond esta dimenso tambm se expressa: Nunca me esquecerei desse acontecimento/na vida de minhas retinas to fatigadas/ Nunca me esquecerei que no meio do caminho/  tinha uma pedra/ tinha uma pedra no meio do caminho/no meio do caminho tinha uma pedra (1930)

A falha do analista favorece a vivncia do acontecimento ou da situao traumtica. Isto no se esquece se o reconhecimento da falha leva o paciente para rea de onipotncia dentro da qual a experincia foi considerada traumtica. Voltar-se para o interior desta rea em condies favorveis para a criatividade primria a partir do setting analtico pode configurar uma mutao relacional, dentro e fora do paciente, ou seja: em si, dentro de si, e, simultaneamente, com o outro, ressoando nas suas relaes com o mundo.

Ainda bem que no meio do caminho da clnica existem os poetas. Isto porque, seja diante do malogro da realizao dos desejos inconscientes, ou diante da demanda do atendimento s necessidades nas regresses severas, experimentamos contratransferecialmente a marca do tempo: o acontecido e o devir do acontecimento. Aqui afirmamos a positividade da repetio como estilo; sendo assim at um poema pode surgir no meio da desesperana...  

O acontecimento transferencial a prova da anlise, no possvel esquec-lo. Ele portador do incognoscvel: dentro dele revela-se, muitas vezes, para ns, um Prometeu preso s rochas, vendo a vida ser devorada pela estagnao do presente. Sem futuro. O processo analtico, talvez, consista em ir na direo do tempo na busca de conquist-lo, ou seja, apropriar-se do presente.  De fato, torn-lo vivo e real, expandindo-o at o passado e o futuro, para, enfim, comearmos a empreender o ciclo da vida. Aqui a busca da integrao est em curso expressando-se na tentativa de: unir, unir, unir... ligar,ligar.ligar... Nesse movimento a repetio bem-vinda, j que ela explicita a busca do essencial: o anseio pelo sentido de si na presena do outro. Aqui visualizamos a valiosa contribuio da psicanlise sociedade ps-moderna: a consolidao de um processo  ontololgico repercutindo nos vnculos humanos!   

Pensar a transferncia como pertencente ao campo do no acontecido em razo da no-integrao do ser; do arcaico da histria de cada um; pens-la como relacionada ao corpo; ao excesso pulsional; s representaes inconscientes, nos coloca diante de uma circularidade temporal infinita que pode envolver mltiplas compreenses durante o ato analtico. Dada esta abrangncia, amplia-se o alcance do tratamento analtico em benefcio da complexidade humana, sem negar seus acertos, seus fracassos, suas incertezas – prosseguindo, primordialmente, na trilha de fecundar nossa reserva de alma, sobretudo diante das ameaas ao humano neste mundo ps-moderno.       

             

 

 

 

Maria do Carmo Andrade Palhares

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Bibliografia

 

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