Transferncia e
Contratransferncia: uma reserva de alma na ps-modernidade
Maria do Carmo Andrade Palhares
I
De
forma imperiosa, convicta, e necessitada, ela me diz:
_
Voc! Ah, voc est a meu servio!
Estamos
diante de uma criana? Cronologicamente, no. Estamos diante de um adulto, cujo
olhar infantil, reivindica algo primordial: ser atendido em suas necessidades
iniciais de vida. O que sou eu para algum que me apresenta de maneira to
visceral sua procura pelo vnculo humano? A resposta para esta questo nos
lana nas vicissitudes da prtica clnica. E como prtica, exige, alm do
conhecimento, manejo: ao teraputica. Como manejar situaes difceis,
infantis, regredidas, pertencentes, muitas vezes, a um perodo no-verbal, se a
psicanlise se coloca como cura pela palavra? Uma palavra surge com toda sua fora relacional: transferncia.
A
transferncia em si j nos fala de algo vivo. Isto porque ela emerge do contato
emocional dos pacientes com a situao analtica. No entanto, hoje sabemos, que
exatamente o acontecimento transferencial, tambm induz o analista a produzir
uma resposta emocional frente ao seu paciente. Considerando estas duas
vivncias podemos enunciar a vivacidade do encontro analtico. Para isto
preciso sublinhar que este encontro enlaa duas pessoas, e este enlace envolve
afetos, sentimentos, vivncias inconscientes que vo engendrar mutualidade, o
que nos permite dizer que estamos falando de um tratamento que se coloca no
mbito da intersubjetividade. Assim, ambos, paciente e analista, esto
irremediavelmente vivos. Desta forma, consideramos o efeito da presena de um
outro na vida psquica de cada participante do encontro. Estamos, portanto, no
s no domnio do intrapsquico, mas, observando o efeito causado pelo outro, incorporamos
a noo de externalidade como participante das vivncias internas. Da surgem
as condies para situarmos uma definio teraputica da tcnica psicanaltica,
articulando os movimentos intrapsquicos e interpsquicos, inserindo-os num
contexto relacional. A dinmica destes movimentos vai valorizar a problemtica
da contratransferncia, isto , o trabalho analtico passa a considerar os
afetos do analista presentes na situao analtica. Os desafios frente a estes
obstculos vo permitir que, analista e analisando, busquem, cada um no seu
papel e funo, superar a prova da anlise.
E o
que a prova da anlise?
A
esse respeito, Pontalis, acrescenta: Qual
o ensinamento que nos traz a psicanlise – e quero dizer a experincia,
a prova da anlise ou, o que a mesma coisa, a prova do estrangeiro – ao
ponto que se pode tom-lo por seu ensinamento principal e talvez nico? que o
tempo no passa. Conseqncia: a psicanlise no , no pode ser do seu tempo.
Ela no de um outro tempo, mas de um tempo outro. Ela anacrnica, ou melhor,
segundo o termo de Nietzsche, intempestiva. Ela indiferente aoar do tempo...
(1994:95)
Esta
revelao pode colocar em choque a afirmao inicial de uma clnica viva. Mas
exatamente nesta descoberta de um tempo outro, intempestivo, que comeamos a
desconstuir um presente morto. Morto pela repetio, morto pelo vazio, morto
pela ausncia de sentido, morto pelo empobrecimento dos projetos. pela
possibilidade de animar, imantar, de atrair o movimento transferencial gerado
pela vivncia analtica que este presente morto, inanimado, pode vir a se
lanar sobre um tempo outro, a se encontrar com um tempo sem medida, cuja a
vivacidade pode estar numa lembrana, num sonho, numa alucinao, e sobretudo
numa ao. E muitas vezes na ao, no agir, nos deparamos com todos os odores,
cores, frias, e amores de uma vida humana. O afeto escancarado no consegue
esconder as experincias emocionais vividas ao longo de uma histria pessoal. Presentificada
e reconhecida no tratamento, esta histria, vai se desenrolar juntamente com a
histria do tratamento. Isto quer dizer: as intensidades, a irracionalidade, as
reaes inadequadas, exageradas, defensivas – tanto hostis como amorosas
– so valorizadas como fenmenos que passam a fazer parte da teraputica
deste processo. carga dupla porque um duplo tempo no linear comea a ser
vivido pelo par analista-analisando. No uma crnica dos acontecimentos que
vai ser empreendida, mas a vivncia do acontecimento passado ser atualizada,
fundindo-se com o tempo analtico. Este o lugar da intimidade. Isto o que
primordialmente se passa na clnica. Aos poucos, e muitas vezes de repente, o
analista est ali na intimidade que pode ter uma criana com a me; na
intimidade de uma parceria amorosa no seu leito; na intimidade enigmtica dos
desencontros humanos, freqentemente dolorosos e terrveis quando vividos no
incio da experincia de vida. O analista pode ocupar todos os lugares, sem
sair do lugar, apenas seguindo intimamente os movimentos transferenciais.
Traduzir isto em palavras muitas vezes antagnico ao que se passa neste
espao ntimo, uma vez que as palavras engendrariam uma narrao que
pretenderia tornar as coisas comunicveis, quando, na verdade, a vivncia
clnica aponta para algo que no possvel objetivar numa escrita, ou numa
apresentao, exatamente pela ruptura, em alguns casos, radical, da lgica
temporal e espacial. Portanto, se colocada numa linguagem esttica podemos
falar de uma fico-real que mantm os resduos de uma insuficincia cientfica
para que seja preservado no acontecimento clnico exatamente o que escapa a
conceituao terica, deixando livre os
efeitos diferentes que cada comunicao produz naqueles que lem ou
escutam. So os efeitos que reverberam evocando o inaudito, o incomunicvel em
cada ser, que talvez possam, restituir este valioso lugar da intimidade
humana. Segundo Pontalis, como se a
nos enderessemos a cada um, a uma parte ntima de cada um, pelo tom, pelo
estilo, pela maneira de enderear o mais essencial de tudo e o mais difcil a
transmitir porque irredutvel a linguagem. ( 2002).
Portanto,
a possibilidade de alcance, sobre o que se passa na clnica, est em manter uma
tenso entre o que partilhvel, as palavras que so comuns, e as que so
singulares, especficas, de cada um; e algo que no se compartilha, a no ser
atravs da arte, ou da transferncia. E que talvez no seja redutvel a nenhuma
narrativa cientfica. H que viver, experimentar, o que se impe so as foras
do acontecimento, o desenrolar da vida.
Neste
desenrolar, a transferncia ocorre espontaneamente em todas as relaes humanas
j que incessante este movimento de dentro para fora, de fora para dentro.
Logo a transferncia emerge da vida, porque ela vai apontar para um infindvel
vir-a-ser ; neste sentido ela estruturante. Na clnica psicanaltica ela
passa a ser acolhida como a traduo viva dos vnculos humanos, da que se
enraza a manuteno e a validade do tratamento. No entanto, exatamente pela
sua fora viva e atuante que o fracasso teraputico pode acontecer. Aqui nos
deparamos com a complexidade da experincia transferencial que nos revela um acontecimento
gauche, canhestro, envolvido em
mltiplas sutilezas. Como clnicos, a que podemos tropear... A prpria
histria da descoberta da transferncia nos mostra esta possibilidade. No
incio, Freud no concebe a transferncia como um auxiliar teraputico, ela
considerada um obstculo cura, uma verdadeira maldio, diz ele. Numa carta
ao pastor Pfister, Freud descreve a transferncia como a cruz do
psicanalista.
Posteriormente,
no entanto, ganha estatuto de funo teraputica, ao ser constatado que,
atravs da transferncia, aquilo que no pode ser dito, pode ser mostrado.
Passamos a viver analiticamente situaes paradoxais: o que faz caminhar pode
destruir o caminho. Alm disto, quanto mais avanamos mais corremos o risco do
recuo; assume, pois, a regresso valor de travessia das zonas traumticas e
conflitivas. Algo de especfico se apresenta neste tratamento: l onde
poderamos afogar, aprendemos a nadar.
Assim,
em 1905, diante do fracasso do caso Dora, Freud acrescenta: O que so transferncias? Elas so novas
edies ou facsmiles de impulsos e fantasias que so despertadas e tornadas
conscientes durante o progresso na anlise; mas elas tm essa peculiaridade, que
uma caracterstica particular, de que elas substituem alguma pessoa primitiva
pela pessoa do mdico. Colocando em outras palavras: toda uma srie de experincias
psicolgicas so revividas, no como pertencente ao passado, mas aplicadas ao
mdico no momento presente. (...) Dora atuou um fragmento essencial de suas
lembranas em lugar de relembr-los (p.133) .
O
elemento maldito da transferncia diz respeito resistncia, j que ao provocar
o mesmo afeto que forou o paciente a repudiar seus desejos proibidos, algo se
paralisa. O paciente resiste ao se ver confrontado, na anlise, com a fora dos
seus desejos e das suas fantasias inconscientes. Paradoxalmente, avana-se a
onde transferncia e resistncia coincidem no tempo analtico. l onde h
resistncia que corresponde a este infantil que no tem idade - fora do lugar, fora
do tempo - que brota na transferncia as condies de ultrapassagem e passagem para
um tempo de mudanas e transformaes reais. A raiz infantil, a natureza
inconsciente, as vivncias emocionais, vo engendrar repeties que tornam a
clnica psicanaltica uma encenao contempornea do passado. A figura do
analista inserida numa das constelaes psquicas que o paciente organizou ao
longo das suas experincias emocionais aciona, ao mesmo tempo, transferncia e
resistncia, alavancando a dinmica do tratamento. O vigor desta experincia
est na conjugao das suas oposies: maldio, cruz, obstculo, funo
teraputica, expresso do essencial. exatamente a travessia destas
contradies que corresponde, em 1914, a outro pronunciamento freudiano: no nos surpreendemos suficientemente com a
transferncia. Assim agregamos um outro elemento a este fenmeno: o
surpreendente que irrompe na cena analtica, determinando uma qualidade
emocional ao vnculo analtico com poder de afetar a ambos participantes.
O
percurso do tratamento se move dentro do drama e da trama transferencial, caminhando
entre: passado e presente, obstculo e funo teraputica, entre alianas e
repdios ao manejo clnico configurando dificuldades que revelam a
singularidade de cada paciente. E a que est: o acolhimento a esta
singularidade leva o paciente a sentir-se reconhecido em sua humanidade. Lus
Cludio Figueiredo vai destacar esse ponto abordando a questo da
contratransferncia: Aqum das
contratranferncias no sentido estrito, que so respostas do analista s
transferncias do paciente, um aspecto essencial da dinmica do trabalho
analtico – embora seja tambm uma fonte de impasses – h uma
condio da possibilidade de psicanalisar – que se configura como uma
contratransferncia primordial, um deixar-se colocar diante do sofrimento antes
mesmo de se saber do que e de quem se trata. Esta contratransferncia
primordial corresponde justamente disponibilidade humana para funcionar como
suporte de transferncias e de outras modalidades de demandas afetivas e
comportamentais profundas e primitivas, vindo a ser um deixar-se afetar e
interpelar pelo sofrimento alheio no que tem de desmesurado e mesmo de
incomensurvel, no s de desconhecido como incompreensvel. Todo o
psicanalisar, no que implica lidar com as transferncias – e outras
coisinhas mais – depende desta contratransferncia primordial. (2002:
2)
Aqui
o analista se v confrontado com o que Figueiredo vai chamar uma reserva de alma, diz ele: Nesta reserva de alma residem nossas
teorias, nossos desejos, nossa capacidade de pensar, falar, simbolizar e
sonhar. Mas a reside, fundamentalmente, nossa capacidade de ser afetado e
interpelado pelo sofrimento. (2002: 18) Desta forma, estamos diante de uma
ampla disponibilidade em ir sendo junto com o paciente, podendo chegar l,
diante do irreconhecvel, do estranho, do absurdo. Freud, em 1919, no seu texto
O Estranho nos fala destas sensaes quando nos aproximamos ou contatamos
remotas regies da natureza humana. Talvez, toquemos a, nos enclaves de um
modo de ser escondido e nunca encontrado, mas revelador do absolutamente humano
de cada um, possibilitando, simultaneamente, a expresso do individual e do
universal. No universal nos deparamos com toda a humanidade, descobrindo o vis
do todo, do uno, do semelhante. No individual, nos deparamos com o ser e suas circunstncias,
muitas vezes, diante de contingncias favorveis e desfavorveis; tanto
internas quanto externas. Legitimar estas condies demanda empatia pela
engenhosa causa da natureza humana. Isto significa suportar ser tocado, na
transferncia, pela fria, pelo amor, pela indiferena, pelo falso, pela
repetio, sem que abandonemos o primordial: manter a ligao com o outro,
preservar a reserva de alma. Deixar fluir o acontecimento, sem entrav-lo.
Difcil! Sobretudo, diante da repetio.
A noo
de repetio do passado constitui-se no paradigma da teoria da transferncia.
Freud em 1920 no texto – Alm do Princpio do Prazer – acrescenta
que a repetio se traduz por uma compulso ligada pulso de morte. Para ele,
a idia de repetio conota neurose e patologia, uma impossibilidade de ser e
viver diferente no presente, re-encenando-se, muitas vezes, experincias
dolorosas. Este re-encenar no determinado pelo prazer, mas pela dor e o
sofrimento. como se algo da experincia infantil estivesse congelado,
provocando estagnao, apresentando o mesmo, o de sempre; no se consegue
situar o presente como um vetor existencial a ser conquistado. Algo o entrava
de forma insistente e imperiosa. Com isso, paciente e analista diante das
foras da repetio podem entrar num circuito fechado, e se assim for...
apontam para dificuldades no campo transferencial-contratransferencial, tais
como: fuses superegicas, conluios, atuaes - um vasto repertrio contratransferencial pode ser encenado
por parte do analista. Aqui, a pessoa do analista precisa estar ativa e em
questo principalmente para si prprio. para dentro de si que ele vai se
voltar, freqentando, intimamente as fronteiras de suas prprias
possibilidades. S assim ele conseguir colocar a contratransferncia a servio
do tratamento.
Duas
citaes so providenciais sobre o papel da repetio ao longo do tratamento.
Primeiro de Jos Amrico Junqueira de Mattos referindo-se ao texto de Lagache: Em seu importante trabalho sobre
transferncia, Lagache, no aceita que a repetio esteja a servio da pulso
de morte, ou seja, que a repetio seja primria. Com seu brilhante aforismo:
necessidade de repetio e repetio da necessidade postula que, se existe uma
necessidade de repetio, ou seja, do desejo em busca de satisfao este pode
entrar em confronto com o ego e mobilizar mecanismos de defesa. Dessa forma, o
conflito est entre a necessidade, o princpio do prazer, e a realidade,
portanto secundria. Seria primria se houvesse uma repetio da necessidade
(...) indivduos que interromperam uma tarefa tm tendncia ou necessidade de
vir a complet-la – frustrao, interrupo ou fracasso, intensifica a
necessidade de completar a tarefa satisfatoriamente. (1995: 173,174)
A
repetio ganha amplitude e complexidade enquanto fenmeno. No existe s um
tipo de repetio: ela pode estar articulada ao desejo em busca de satisfao,
mas tambm, se insere numa perspectiva mais regredida na busca da realizao de
uma tarefa interrompida, fracassada. No primeiro caso repete-se na tentativa de elaborao de um
conflito. No segundo caso repete-se na esperana de um novo encontro objetal
que possibilite uma nova oportunidade para o desenvolvimento do self.
A
segunda citao de Pontalis, diz ele: No
corao da pulso a repetir no vejo o resultado do entravamento de nossos
desejos e nem, em conseqncia, por causa de sua insatisfao, a exigncia de
retom-los... se entravamento existe, o da prpria capacidade de
representao... o que se repete – e no digo o que se rumina –
aquilo que no aconteceu, e que no tendo conseguido advir, no existiu como
evento psquico. Repete-se como se ensaia no teatro, mas na ausncia, no vazio
de todo texto. Repete-se algo fora do texto, algo de incrustado, e no de
impresso... ( 1994: 102)
pela encenao do vazio que se tenta
inaugurar a vida. O vazio a prpria necessidade do acontecimento - j que ele
no pode ser lembrado nem esquecido - ele agido repetidamente. Ao final, diria
Manoel de Barros: Repetir, repetir, - at
ficar diferente. E ficou! Na psicanlise, na clnica, na linguagem; aqui,
agora, no texto. Do mundo pulsional encarna um beb humano com sua fora vital
em busca de integrao.
II
Este
movimento em busca de integrao se dirige ao ambiente. L deve haver algum
que recepcione esta demanda - estamos diante de necessidades que vo engendrar
repetio at produzir a integrao do self. O diferente est em curso. Se pouco acontece, ou se o excesso
acontece, nos deparamos com a possibilidade do vazio, do trauma. Nestas
condies, o setting analtico vai ser convocado a possibilitar ao paciente viver pela primeira vez aquilo que j foi
vivido. (Winnicott,1955-56: 487 ) Ou seja, que as condies do encontro
analtico favoream que os sentidos e os significados da vida emocional sejam
criados e no apenas revelados. Esta criao coloca a noo de holding –
sustentao emocional – como fundamental para que o paciente experimente
a si mesmo como um acontecimento, produzindo a experincia da qualidade de ser
como a primeira manifestao da natureza humana. Winnicott verbaliza esta
necessidade, a partir do olhar de um beb, ao dizer: O importante que o que eu sou no significa nada, a no ser que,
no incio, eu seja juntamente com outro ser humano que ainda no foi
diferenciado. Por esta razo, mais verdadeiro falar em ser do que usar as
palavras eu sou que pertence ao estgio seguinte. No exagero dizer que a
condio de ser o incio de tudo, sem a qual o fazer e o deixar que lhe faam
no tm significado. ( 1966:
9)
Assim
ser juntamente com o outro, implica em condies ambientais favorveis. Como
primeiro passo, preciso ser atendido por uma me que se engaja nas
necessidades do filho, validando e reconhecendo sua singularidade. Portanto, algo
de especfico deve ser considerado: este engajamento no invasivo, ele se d
como possibilidade de oferecer ao beb uma experincia fusional. Segundo Ogden: a me uma presena invisvel, mas
sentida... sua alteridade sentida, mas no levada em conta. (1996: 46)
Invisvel e previsvel, no sentido de manter um cotidiano montono e rotineiro,
significando: sustentao emocional, continuidade, permanncia, segurana. Os
cuidados maternos se constituem como proteo ambiental ao evitar surpresas
inassimilveis para o beb. Em funo desta sensvel adaptao materna, o beb
humano, no se d conta do seu estado de extrema dependncia, e inquestionvel vulnerabilidade.
Ento, possvel confiar. Expressa-se, aqui, uma maternagem que se coloca a
servio da continuidade do ser do beb; decorrendo da a constituio de uma
subjetividade genuna, diferenciada a partir de si-mesma. A descoberta da
alteridade se d em pequenas doses: ser diferente, diferenciado - Outro - surge a partir de pequenos
acrscimos dirios que se apiam naquilo que se repete no interior do ser. Na
monotonia encontramos espao para o surgimento das novidades. O setting
analtico reproduz este ritmo ao longo do tratamento.
Aqui
me reencontro com minha paciente. Sua reivindicao era explcita: eu estava a
servio do seu anseio genuno de vir-a-ser. Dentro deste enfoque, a repetio
uma tentativa de alcanar uma existncia real. Sentir-se vivo em sua
interioridade condio primordial.
Na
transferncia, tudo se passa, como se houvesse um presente sem passado. No
existe uma sobreposio temporal entre passado e presente; a vivncia analtica
se traduz por uma demanda de aes concretas que possam favorecer o presente
tornar-se passado. A linguagem de Winnicott exprime o valor desta experincia: Enquanto na neurose de transferncia o
passado vem para o consultrio, neste trabalho mais certo dizer que o
presente volta para o passado e o passado. Desse modo, o analista
confrontado com o processo primrio do paciente no setting dentro do qual este
ltimo validado. (1955-56: 486 )
Novamente
estamos s volta com a prova da anlise. Desta vez, h um movimento temporal
que se transforma em algo fundante. na temporalizao do encontro analtico
que o vazio de si comea a dar lugar constituio de um tempo subjetivo
vivido como durao de si-mesmo. O ritmo das sesses passa a ser organizado
pelo paciente, a temos: o tempo das sesses, as freqncias, a relao que
estabelece com o manejo e com as
interpretaes, os dias de pagamento, as presenas e ausncias dentro e
fora do setting. O analista solicitado a percorrer este tempo como um momento
que resgata os primeiros estados do self. Nestas situaes, estamos de frente
para o paradigma do adoecer humano.
Hlderlin,
poeta alemo, atravs de um texto precioso, nos d acesso a quase tudo que
escrevemos at agora, diz ele: Deixem o
homem imperturbado, desde o bero! No arranquem o boto bem unido do seu ser,
no o arranquem do pequeno abrigo de sua infncia! No faam pouco demais por ele, para no faz-lo
prescindir de vocs, que assim se distinguem dele! No faam demais por ele
para que ele no sinta o poder dele ou de vocs, que assim se distinguem dele!
Em resumo: s mais tarde deixem o
ser humano saber que existem seres humanos, que existe algo alm dele, pois s
assim ele se torna humano. O homem, porm, um deus desde que seja humano. E
se ele um deus, ento belo. (1797:83) Aqui estamos de frente para o
paradigma que enuncia a positividade da vida e da criao. Viver para dar vida
ao incriado.
Ferenczi
contribui para a expanso do saber psicanaltico ao retornar aos momentos
inicias da vida humana. Diz, ele: Penso no perodo de vida passado no corpo
da me. Neste estgio, o ser humano vive como parasita no corpo materno. Mal
existe um mundo exterior para o ser nascente: todas as suas necessidades de
proteo, calor, e de nutrio, so asseguradas pela me. Ele nem mesmo precisa
se esforar para ter o alimento e o oxignio necessrios, pois mecanismos
apropriados encarregam-se de trazer essas substncias diretamente aos seus
vasos sanguneos ( 1913: 76,77)
Vale
destacar que Ferenczi inserido num outro tempo, num outro lugar endossa as
palavras de Hlderlin, apontando para o universal humano que necessita viver
dentro de si-mesmo por um perodo como condio primordial para, aos poucos,
dar conta do seu encontro diferenciado com a realidade; atribuindo-lhe, ento,
sentido e significado.
Ferenczi
confirma este ponto de vista ao esclarecer:
Assim, se o ser humano tem uma vida psquica, mesmo inconsciente, no corpo
materno – e seria absurdo acreditar que o psiquismo s se ponha a
funcionar no momento do nascimento – ele deve ter, pelo fato da sua
existncia, a impresso de ser realmente todo-poderoso (...) despoj-lo da
onipotncia e obrig-lo a tentar modificar o mundo externo, ou seja, efetuar um trabalho... causa nos bebs
uma brutal perturbao advinda sua quietude ( 1913: 77,78)
Hlderlin
(1770-1843) e Ferenczi (1893-1933) apesar da distncia histrica, da distncia
contextual, no se distanciam do humano e suas necessidades bsicas:
imperturbado, deixem-no no incio... s assim todo o resto ser possvel ser
experimentado e vivido em sua complexidade inevitvel e infinita. A vivncia da
experincia de unidade com o universo consolida o sentimento de manter-se unido
a si-mesmo. Revigora a condio
ontolgica essencial para que tudo mais possa fazer sentido para o homem: o
inconsciente, o desejo, o prazer e o desprazer, o mundo interno e externo, as
relaes objetais - todo contedo, enfim, constitutivo da vida psquica.
Revigora-se a reserva de alma. Ser isto possvel na ps-modernidade?
Posteriormente,
juntando-se a Hlderlin e a Ferenczi, Winnicott (1896-1971) contribui,
decisivamente, ao longo de sua obra, para o paradigma da criao. No se
intimida diante dos riscos pessoais e cientficos, ao afirmar: No a partir da sensao de ser Deus que
os seres humanos chegam humildade caracterstica da individualidade humana?(
1968:90)
Aqui
nos deparamos com o percurso do humano: precisamos experimentar o divino como
pessoa criadora do mundo para, aos poucos, percebermos nossa condio de parte
diante da imensido do mundo. Do infinitamente grande vamos, gradualmente, nos
aproximando do infinitamente pequeno. como parte oriunda deste mundo divino
que nos transformamos em singularidade no mundo humano. E ser como parte que
poderemos contribuir para as mudanas deste mundo. O vrtice da singularidade
contm a experincia do todo. Neste sentido, legitima-se a ousadia de seguir
adiante perspectivando mudanas e transformaes nossa volta, a partir da
disponibilizao das vivncias interiores: marcas da nossa passagem pelo mundo.
III
Mas
existem pedras ao longo deste caminho. Drummond, agrega texto e espessura a
este caminhar endossando o tema da repetio ao dizer, insistentemente: No meio do caminho tinha uma pedra/ tinha uma pedra no meio do caminho/ tinha uma pedra/no meio do caminho
tinha uma pedra (1930).
...
E repete, repete, at virar um poema. Acordemos para esta realidade da
repetio que ao carregar em si o passado, o mesmo, ao mesmo tempo, visa o
novo, o inusitado, o surpreendente, apontando para transformaes que possam
emergir do que est na origem da experincia de cada um. Assim, segundo
Pontalis, se conjugam repetio e primeira vez (1990:78). Revelam-se
manifestaes de fidelidade ao passado visando torn-lo real no presente. Ou,
segundo Winnicott, visando conquistar no presente, o direito a ter um passado
(1955-56: 486). Em todos esses
movimentos nos deparamos com um agir que busca virar outra coisa, sendo assim,
embora repetido, nada est prescrito: aqui vigora o improviso.
No
meio do caminho clnico, existem transferncias e contratransferncias que
podem revirar uma histria de vida engendrando novas perspectivas pessoais. Ou
no. Pode dar errado. Sobre isto, Ferenczi em seu artigo sobre a Elasticidade
da Tcnica acrescenta: Em hiptese alguma deve-se ter vergonha de
reconhecer, sem restries, os erros passados. Que nunca se esquea que a
anlise no um procedimento sugestivo, em que o prestgio do mdico e sua
infalibilidade devem ser preservados a qualquer custo. A nica pretenso
levantada pela anlise a da confiana na franqueza e sinceridade do mdico, e
a esta, o reconhecimento sincero de um erro no ameaa. ( 1928:307)
Winnicott
amplia esta questo quando valoriza os aspectos ambientais e sua relao com o
desenvolvimento genuno do self. Segundo ele, o paciente pode induzir o
analista a falhar; na vivncia de regresso expressa-se um re-pedido para a
correo das falhas ambientais. Nos momentos regressivos revisitamos
experincias no-verbais precoces. Acompanhando intimamente o paciente at
estas regies, a esperana inconsciente faz com que o trauma original irrompa
para ser vivido em um ambiente de confiana. Da a falha do analista reproduzir
concretamente estas situaes traumticas; se o analista reconhece que falhou,
ele experimenta o ponto de vista daquele paciente, e este, ao se reencontrar
com seu ponto de vista, estar recuperando seu verdadeiro self, validado por
uma presena viva. Desta forma, para Winnicott o problema no a falha, diz
ele : Como analistas, estamos falhando o
tempo todo, e as reaes de irritao do paciente pelas quais esperamos acabam
por acontecer. Se sobrevivermos, seremos usados. So as inmeras falhas,
seguidas pelo tipo de cuidados que as corrigem, que acabam por constituir a
comunicao do amor, demonstrando o fato de haver ali um ser humano que se preocupa
(...) Portanto, a tarefa do paciente provocar condies nas quais a repetida
correo das falhas seja um padro de vida.( 1968:87)
O
paciente cria a falha no analista. Transferncia e contratransferncia
contracenam o caminho drummoniano: as pedras do caminho percorrido pelo
paciente se instalam dentro do setting dificultando o processo analtico, ao
mesmo tempo que, torna vivo para o par analista/analisando as experincias
repetidamente narradas, ou no.
Experincias que convocam o analista a encenar um papel que muitas vezes pode
estar referido ao passado ou pode estar no futuro referido ao anseio pelo
vir-a-ser. Nesta compreenso, tambm, o analista precisa ansiar por vir-a-ser,
seu percurso existencial deve continuar em aberto para si-mesmo. Talvez isto
imprima a marca de um devir para a dupla analista/analisando. Ou seja, ambos
continuam a buscar a expanso de sua ontologia – seguir sendo para poder
continuar vivo para si-mesmo, para o outro, e para o mundo. Eis a o mover-se
no encontro analtico: o passado, o acontecimento, a primeira vez, o devir,
tudo isto torna-se presente conjugando todas as temporalidades. Nessa medida,
falhar aponta para o que pode advir para ser corrigido, isto significa que o
analista experimentou contratransferncialmente o ponto de vista do paciente,
validando-o. Isto no ser esquecido; tornando-se passado pode, agora, ser
relembrado. Na poesia de Drummond esta dimenso tambm se expressa: Nunca me esquecerei desse acontecimento/na
vida de minhas retinas to fatigadas/ Nunca me esquecerei que no meio do
caminho/ tinha uma pedra/ tinha
uma pedra no meio do caminho/no meio do caminho tinha uma pedra (1930)
A
falha do analista favorece a vivncia do acontecimento ou da situao
traumtica. Isto no se esquece se o reconhecimento da falha leva o paciente
para rea de onipotncia dentro da qual a experincia foi considerada
traumtica. Voltar-se para o interior desta rea em condies favorveis para a
criatividade primria a partir do setting analtico pode configurar uma mutao
relacional, dentro e fora do paciente, ou seja: em si, dentro de si, e,
simultaneamente, com o outro, ressoando nas suas relaes com o mundo.
Ainda
bem que no meio do caminho da clnica existem os poetas. Isto porque, seja
diante do malogro da realizao dos desejos inconscientes, ou diante da demanda
do atendimento s necessidades nas regresses severas, experimentamos
contratransferecialmente a marca do tempo: o acontecido e o devir do
acontecimento. Aqui afirmamos a positividade da repetio como estilo; sendo
assim at um poema pode surgir no meio da desesperana...
O
acontecimento transferencial a prova da anlise, no possvel esquec-lo.
Ele portador do incognoscvel: dentro dele revela-se, muitas vezes, para ns,
um Prometeu preso s rochas, vendo a vida ser devorada pela estagnao do
presente. Sem futuro. O processo analtico, talvez, consista em ir na direo
do tempo na busca de conquist-lo, ou seja, apropriar-se do presente. De fato, torn-lo vivo e real,
expandindo-o at o passado e o futuro, para, enfim, comearmos a empreender o
ciclo da vida. Aqui a busca da integrao est em curso expressando-se na
tentativa de: unir, unir, unir... ligar,ligar.ligar... Nesse movimento a
repetio bem-vinda, j que ela explicita a busca do essencial: o anseio pelo
sentido de si na presena do outro. Aqui visualizamos a valiosa contribuio da
psicanlise sociedade ps-moderna: a consolidao de um processo ontololgico repercutindo nos vnculos
humanos!
Pensar
a transferncia como pertencente ao campo do no acontecido em razo da
no-integrao do ser; do arcaico da histria de cada um; pens-la como
relacionada ao corpo; ao excesso pulsional; s representaes inconscientes,
nos coloca diante de uma circularidade temporal infinita que pode envolver mltiplas
compreenses durante o ato analtico. Dada esta abrangncia, amplia-se o
alcance do tratamento analtico em benefcio da complexidade humana, sem negar
seus acertos, seus fracassos, suas incertezas – prosseguindo,
primordialmente, na trilha de fecundar nossa reserva de alma, sobretudo diante
das ameaas ao humano neste mundo ps-moderno.
Maria do Carmo Andrade
Palhares
Membro Associado da SBPRJ
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apt.701
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